3%: moralidade e sobrevivência dominam a 2ª temporada

Lançada nesta sexta-feira na Netflix, a segunda temporada de 3% desafia as questões morais, e mostra como os traumas do Processo afetaram os seus personagens.

Por mais difícil que seja, séries de ficção científica acabam criando um universo para si, que é difícil, como público, ignorar. São teorias e sentimentos que habitam nos personagens criam um estilo próprio de cada atração. Vejam Arquivo X: a cada desdobramento, uma nova peça é colocada na extensa mitologia que o acompanha por 11 temporadas, e mesmo que alguns fãs não tolerem mais, sempre voltam para saber o que a série pode criar mais para si mesma. Longe de mim comparar 3% com o sucesso que é Arquivo X, mas como um drama de ficção científica, a série brasileira da Netflix deixou de lado o gênero e ganhou um significado ainda maior.

Ao acompanhar a revolução incitada no final da primeira temporada, os novos episódios inauguram temas que não esperavam ver na trama, e aponta para questões que mostram o quanto esse bolo ainda pode crescer, se for adicionado os ingredientes certos.

A série, que é a primeira da Netflix em língua portuguesa, apresenta um mundo dividido entre o Maralto – um região sem pobreza – e o Continente – onde há falta de necessidades básicas, como comida, cuidados médicos e tecnologia. Para sair do Continente, é preciso passar pelo Processo, que seleciona os 3% da população que merecem viver no conforto que a parte rica proporciona. Essa é basicamente a primeira temporada.

Os episódios acompanharam quatro participantes do Processo, e o que fizeram para chegar até ali. No entanto, ao invés de acompanhar mais um ano de testes, a nova temporada de 3% abre uma nova página em sua narrativa. O Processo ainda está lá, e o governo continua a controlar a população, mas agora o foco se volta para os sobreviventes, e como eles lidam depois de passar pelos testes brutais do ano anterior. O elenco se expandiu, e agora é permitido ousar – e assim o fizeram.

Naturalmente, o traço científico dá espaço para uma ficção com discussões sociais, como a moralidade. Fernando, Joana, Michele e Rafael seguiram suas vidas, mas o que eles testemunharam no seu Processo ainda os assustam e os perseguem. O sarcástico personagem de Rodolfo Valente, antes sempre com uma resposta descontraída para o drama que vivia, agora demonstra o desconforto e o assombro que foi passar por essa experiência. Fernando é outro exemplo de mudança significativa, trocou a calma e o medo de antes, por uma postura mais agressiva e destemida.

Mas é Michele e Joana que continuam a ganhar mais espaço na história, com seus interessantes arcos narrativos. Ambas se veem em posições semelhantes, mesmo que em lados diferentes de uma guerra que não querem participar. Fica claro que elas ainda vivem em um jogo, e a cada ação que tomam, mais elas se sentem desesperadas, mesmo que os testes do Processo tenham ficado para trás.

No final das contas, a trama desta temporada mostra como os extremismos, na verdade, acabam se assemelhando. Tanto o Processo quando a Causa, que tenta detê-lo, são extremamente violentos e descontrolados, e arrastam as pessoas para suas trincheiras, mesmo que elas não queiram assumir um lado – como Michele, Rafael, e depois Joana. Neste ponto, a série faz um questionamento moral: é pior apoiar um sistema corrupto, ou agir a favor de uma organização terrorista? A série não quer de fato achar uma resposta, mas em dado momento os personagens escolhem seus lados e apontam a dificuldade que é viver nessa bipolaridade.

Se na (re)construção do seu cenário, 3% se afirmou, ainda peca nos detalhes. O texto não envolve e nem desafia o público, optando por soluções simples e diálogos óbvios. Como ficção científica, exige cuidado com a direção de arte, que ainda apela para o exagero. Embora com a adição interessante de flashbacks para tecer os pontos da história contada no ano anterior, os ganchos da trama por vezes extrapolam e se tornam desnecessários.

Depois de um primeiro ano altamente criticado, 3% poderia optar por uma solução mais fácil para sua nova temporada. Poderia acompanhar apenas um novo apanhado de testes do Processo; ou expandir a rebelião no Continente; ou até mesmo mostrar os dois lados, com a Causa como positiva e o Processo e seus envolvidos, como Ezekiel, como os vilões da sociedade. A escolha, porém, foi ousada, e nos levou por um caminho mais emocional e intelectualmente gratificante. A série finalmente abraçou a ousadia – de ser a primeira atração da Netflix com língua portuguesa, de ser uma série produzida no Brasil, de ter um tema tão sensível quanto essa no mundo que vivemos – e decidiu jogar sua premissa no vento, e abraçar sua nova realidade com ambição, sem medo de discutir a moralidade e sem querer ser certa ou errada.

Sobre o Autor

Leo Sousa

Séries de TV, filmes, realities shows, livros, música e mais. Editor no boxpop.com.br.

Deixe um comentário

clique para comentar

OUÇA O BOXCAST

VIDEOCAST

Confira o que achamos da versão ilustrada de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban em português.

Wanessa tá de clipe novo. E o clipe define o que "é ruim mas é bom".

The Handmaid's Tale voltou!!! O que rola de novo nesta temporada? Descubra mas SEM SPOILER!

SEJA UM PADRINHO!

Contribua!