5 episódios essenciais de Six Feet Under

Selecionar episódios essenciais de uma série como Six Feet Under é um trabalho complicado. Poderíamos escolher aleatoriamente qualquer um dos 63 que foram transmitidos até agosto de 2003 pela HBO americana (aqui no Brasil pela HBO e pela Warner Channel) que estaria muito bom.

Six Feet (ou SFU, 6FU) trata do drama da família Fisher, que são donos de uma funerária. O tema da série — a morte — tende a tornar cauteloso quem assiste, mas logo nos deparamos como uma grande celebração à vida através dos personagens que morreram e voltam para conversar, direta ou indiretamente, com os vivos que pautam suas emoções, reações e experiências nas vidas que se foram.

E em todo início de capítulo (com exceção do último) alguém morre e a expectativa em adivinhar quem será é a rotina a cada semana. Essa morte pode ser cômica, como no 4×02 — In Case of Rapture — que começa com rapazes amarrando bonecas sexuais infladas com gás hélio numa caminhonete, que por não estarem bem amarradas terminam voando e são avistadas por uma senhora que julga serem anjos e sai de seu carro correndo na rua louvando e pedindo para ser levada até ser atropelada. Ou pode ser terrível como no 1×03 — The Foot — em que um homem da manutenção de máquinas industriais limpa um enorme liquidificador com hélices que são acidentalmente ligadas enquanto ele está em seu interior, picando-o em milhares de pedaços…

A funerária da família, que funciona dentro de sua casa, é administrada pelos filhos depois da morte do patriarca Nathaniel Fisher — que mesmo morto ainda é a causa de muitos problemas, pelas impressões que deixou nos vivos. A forma como esses problemas são lidados, e muitos outros, é a grande chave do show, calcado no texto sensível e simples de Allan Ball e nas interpretações, principalmente, de Peter Krause (de Dirty Sexy Money e Parenthood), Michael C. Hall (Dexter) e Frances Conroy (American Horror Story).

O mote da quinta temporada — Everything. Everyone, Everywhere. Ends — resume bem o show e o sentimento que ele passa: que temos muito que lidar na vida, porém boa parte dessas coisas perde o significado em perspectiva ao quanto ela é curta e pode ser abreviada de maneira abrupta, cruel e, sobretudo, simples.

1×01 — Pilot

É aqui que tudo acontece. Somos apresentados à família Fisher, composta do (agora) finado Nathaniel Fisher Sr., Ruth — a mãe zelosa mas distante de seus próprios sentimentos e de quem realmente é; Nate — filho mais velho que volta para visitar a família quando seu pai morre e conhece Brenda no avião de volta. Nate sempre foi o espírito livre e o preferido de seus pais; David — o filho que ficou em casa e ajudou a tocar os negócios da família. Fechado e duro consigo e com o mundo, ele é homossexual enrustido e mantém um relacionamento com Keith; Claire — a mais nova, uma adolescente rebelde e experimentadora, egoísta mas que demonstra verdadeira preocupação com os problemas de sua família e apesar de passar por experiências com aborto, drogas, lesbianismo e namorados psicopatas ao longo da série, ela muitas vezes é a voz mais sã entre todos eles.

A relação dos personagens, especialmente Claire drogada tendo que lidar com a morte do pai, e o sexo de Nate e Brenda no aeroporto, começa a ser construída aqui e observamos o confronto da abordagem natural que a sociedade exige das famílias quando da perda de seus entes- de uma maneira fria e asséptica -em contraste com manifestações genuínas de pesar e dor. A cena das pessoas com um saleiro jogando areia sobre o caixão para não colocar a mão na terra já é clássica e carregada de muitos dos sentimentos que veremos pela série.

2×09 — Someone Else Eyes

Someone Else Eyes não é um episódio particularmente chocante ou revelador, mas ilustra perfeitamente o comportamento e a forma de lidar dos personagens ao longo do show, além de ser extremamente bem escrito e dirigido. Colocamos ele entre os selecionados como uma amostra de outros tantos quanto a forma como o texto trata com delicadeza temas complexos e os atores entregam com precisão sentimentos duros e profundos, oferecendo muitas camadas emocionais e transparência em seus personagens.

A morte da semana já ilustra bem um tema sensível: após morrer, o defunto deve ser enterrado com sua falecida esposa que o amava ou com a atual, que também o ama? Como resolver esse impasse se nenhuma das partes está realmente errada? Nate lida com dúvidas em relação a Brenda, que foram criadas como uma experiência por seus pais psicólogos, resultando numa pessoa distante, analítica e emocionalmente inatingível. Acima disso tudo, ele ainda confronta o anúncio de Lisa, uma amiga com quem teve uma breve relação quando estava fora, de que ela esta grávida. Claire tem dúvidas em seu relacionamento com Billy, irmão de Brenda, uma relação complicada pela doença psiquiátrica dele e sua relação que beira o incesto com a irmã. Ruth, após a morte do marido, volta a namorar e nesse episódio especialmente, a presença do atual, Nikolai, irrita profundamente a todos da família. Um episódio sem maiores impactos na trama (além da gravidez de Lisa), mas que ilustra como poucos cada um dos principais personagens da série.

3×11 — Death Works Overtime

O relacionamento de Lisa e Nate não anda muito bem. Aliviado pela viagem dela até a casa da irmã, Nate soube, no fim do episódio anterior, que ela nunca chegou ao seu destino. Começa uma sequência de acontecimentos, a partir deste e indo até os próximos episódios, em que tentam entender o que poderia ter acontecido com Lisa em seus momentos finais. Primeiro com o sentimento de negação por parte de Ruth e a medida que as horas passam o sentimento da certeza que algum coisa errada aconteceu. O fato da chocante morte de Lisa só ser desvendada muito tempo depois deixou todos os personagens envolvidos em completo desespero numa história sombria cuja recuperação torna-se impossível e a certeza, no final do caminho por parte de Nate, de que ele errou em suas escolhas e perdeu uma grande chance. O episódio também é focado na descoberta da gravidez de Claire, mas pelos próximos episódios, o foco é realmente num aspecto da morte que não havia sido visitado ainda pelo show: quando a pessoa que sabe-se morta, não tem seu destino conhecido por seus entes queridos. Abaixo, a realização por parte de Nate que ele amava Lisa, sim, e a melhor resposta do mundo inteiro:

Eu não sou uma chance, sou uma pessoa.” — Lisa

p.s:Lisa não é a personagem mais gostável do show. Brenda é apontada muitas vezes como o grande amor de Nate e na internet grandes discussões ainda são feitas com o questionamento de quem realmente era a pessoa ideal para ele. Apesar de amar o personagem da Brenda, acho que para Nate, Lisa era exatamente o que ele precisava e ela, sem qualquer sorte, teve Brenda em seu caminho que nem ficava com Nate e nem o tornava livre por conta dos enormes problemas emocionais que tinha. Essa é uma das grandes discussões da série…

5×09 — Ecotone

Sabe o que é coragem numa série? Matar seu protagonista faltando alguns episódios ainda para o fim! No início do episódios, a tela em branco mostrando o nome de Nathaniel Samuel Fischer Jr. e a data do seu nascimento serve para apavorar, pois no fim é mostrada a data de seu óbito. Nate já havia sido diagnosticado com um aneurisma e ele rompe no fim do episódios passado. Enquanto isso, Ruth está caminhando na mata com Hiram e tem uma discussão, terminando perdida e sem nenhum conhecimento do que acontece com seu filho. Claire está jantando (e não tratando muito bem) com Ted. Todos eles se juntam no hospital para uma noite tensa e Nate acorda bem da cirurgia, apesar de alguma dificuldade em mover seu lado direito, e encontra Brenda preparada para perdoá-lo. Ele diz que está cansado de brigas e está pronto para ir em frente, dispensando ela. David dorme com o irmão no hospital e ambos dividem um mesmo sonho (ou apenas Nate sonha, isso também é bastante discutido…),em que estão com seu pai. Ao acordar, ele se depara com uma realidade para a qual talvez não estivesse totalmente preparado.

O texto nesse episódio atinge o auge da série, mostrando que o casal protagonista (Nate e Brenda) nem sempre foi feito um para o outro, que grandes revelações ou atos heróicos nem sempre precedem a morte do lead character e que a vida é muito frágil, muito simples. Entre os personagens, muita coisa ficou sem ser dita, sem ser resolvida, simplesmente porque Nate morreu. Assim como acontece na vida. Não existe uma grande resolução, uma grande explicação. Ela simplesmente acaba.

A morte dele desencadeia uma espiral de questionamentos e confrontos entre aqueles que continuaram vivos e tornam a sequência de episódios por vir, até o finale, uma obra prima de roteiro, direção e atuação que merece ser vista por qualquer um que acompanhe séries!

O sonho de Michael (ou de Nate, ou de ambos…) abaixo:

5×12 — Everyone’s Waiting

Senfield, Sopranos, Breaking Bad, The Wire, The West Wing… finais famosos, comentados por sua coragem, por seu texto que deixa uma sensação satisfatória para os personagens ou por abordar o fim de maneira pouco convencional. Six Feet Under faz mais do que isso… ela estabelece sua premissa, seu formato, sua abordagem ao lidar com a morte para cada um dos personagens, tornando esse um dos finales mais icônicos do mundo das séries e coroando o total de 63 episódios com um desfecho que emociona e conclui de maneira magnífica tudo o que aconteceu na vida desses personagens. Como na vida, vemos casais que “deveriam ficar juntos” sendo separados pela morte, pela ocasião. Como a criação doente que uniu Brenda e o irmão os mantendo em seu ciclo perigoso de codependência até o fim, o sucesso de Claire em sua vida e carreira a despeito de toda sua rebeldia quando mais nova e o mais importante, a frugalidade com que os acontecimentos tiram e colocam coisas e situações na vida de cada um deles, especialmente em seus 10 minutos finais, que com certeza entraram para a história da televisão mundial.

Assistam abaixo e, se bate um coração no seu peito, chore de soluçar porque é realmente um trabalho de edição excelente (evidentemente melhor aproveitada se você viu toda a série) com Claire indo embora e todo o resto de suas vidas acontecendo…

Agora, temos uma pergunta para te fazer: você já viu essa série, né? Ah bom! Ela é fundamental e todos devem vê-la e reparar em seus detalhes, suas nuances, por ser uma obra de arte em roteiro e interpretação, além de um lembrete pros fãs de Breaking Bad que ela não foi a primeira série “redondinha” a circular pelo nosso televisor.

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