A História do Saia Justa

Um bate papo tranquilo de noite com as suas grandes amigas sobre milhões de temas relevantes. Bom demais, certo? Considere agora que o mesmo está sendo televisionado na TV a cabo. Pronto. Está aí o segredo do revolucionário Saia Justa, programa que há mais de 11 anos está no ar debatendo o que de mais importa na nossa sociedade num formato imbatível e sem um pingo de medo de mostrar a força que tem.

Saia Justa: Primeira Classe

Inicialmente pensado para ser apresentado por quatro mulheres de gênio forte e com resquícios da contracultura de sua época, o primeiro elenco do programa teve em sua escalação a então estrela de Sai de Baixo, Marisa Orth, a credibilidade em pessoa do jornalismo brasileiro, Mônica Waldvogel, a cantora e compositora Rita Lee, e a criadora do sucesso Os Normais, Fernanda Young. Direcionado para mulheres em sua essência, o programa tratava de questões polêmicas e de tabus, como liberdade sexual e traições em relacionamentos. Mais um ingrediente na fórmula do sucesso.

Com extraordinária audiência e repercussão, o Saia Justa partiu para o seu segundo ano como um dos pioneiros no Brasil da interação do público (que sugeria pautas e dava opiniões) com as apresentadoras. O sucesso obviamente custou caro para algumas: Rita Lee sofreu duras críticas sobre sua participação desde o início por suas opiniões que costumam ir contra a maioria das crenças populares. Enquanto isso, Fernanda Young perdia a amizade com Jô Soares após piadas de mal gosto sobre o amigo no programa.

Em 2004, na comemoração do programa de número 100 do sucesso do GNT, Rita Lee deixou o programa, que já estava mais do que consolidado. Durante 3 meses a cadeira da cantora rotacionou entre muitas convidadas especiais, quando, em agosto finalmente foi ocupada por Marina Lima, reforçando a importância da ideia de que o programa deveria ter mulheres de diferentes idades e profissões, e, por conseguintes, diferentes visões.

Com a chegada de Os Aspones, na Globo, e depois de um “não quero mais” Fernanda Young e Marisa Orth, as duas também deixaram o programa, que, em 2005 estreou sua quarta temporada mantendo apenas a idealizadora do programa, Mônica, e com a presença das novatas Luana Piovani, Betty Lago e Márcia Tiburi.

A atriz zen, a atriz rebelde, a filosofa e a jornalista.

Com o teor ainda mais ácido que partia de Betty e Luana e uma pitada de filosofia e dados históricos de Márcia, o Saia Justa estava diferente: mais sério, apesar de ainda informal, e com maior abrangência de assuntos. Além de que as participantes discordavam mais e tinham opiniões mais resistentes. A política inseriu-se nas pautas com mais frequência e as questões sociais também!

Houve uma espécie de substituição das personalidades. Saiu Fernanda e entrou Luana, saiu Marisa e entrou Betty e saiu Rita e entrou Márcia. As proporções podem ser diferentes, mas elas eram bem parecidas na época! A mudança de elenco não foi um choque e deu um mais ou menos ar novo ao programa!” — Vera, 39 anos, fã do programa desde a primeira temporada.

Claro que toda a língua de Luana Piovani, amada e odiada por muitos (como é até hoje) não coube no quadro da câmera por muito tempo, o que não se sabe se foi o real motivo da saída da atriz, afinal a mesma estava envolvida com projetos de teatro na época. É a vez de dar lugar no sofá à toda a delicadeza da atriz Maitê Proença e a cantora Ana Carolina, fazendo da quinta temporada a primeira a ter, coincidentemente, cinco apresentadoras.

Neste ano, o Saia Justa ficou ainda mais feminino e até um pouco mais fofo. Tratava bastante sentimentos, relacionamentos, homens e família. Maitê teve até de se retratar com o povo português depois de tirar sarro do mesmo no programa, o que causou grande auê na mídia. Se liga:

Apesar da polêmica, Maitê ainda durou no programa até 2010, sendo que ainda em 2006 o programa venceu o prêmio Qualidade Brasil de Melhor programa da TV a cabo. Show, não é?

No ano seguinte a idolatrada e cultuada pelos jovens ex-VJ da MTV/Política Soninha Francine substituiu Ana Carolina e o programa assumiu um modo parecido como o da quarta temporada. Mas com a campanha para prefeita da cidade de São Paulo, logo a vereadora deixou o programa, que durante sua passagem foi repleto de referências carnavalescas, debates sobre músicas e livros semanais intensificaram-se na sua participação no bate-papo, costume que dura até hoje.

A atração seguiu com as quatro apresentadoras restantes até a nona temporada, em 2010, já um tanto desgastado e acusado de falta de dinamismo pelos críticos de TV. E então, após 3 anos sem reformas, chegou a esperada e surpreendente repaginação em 2011: a mediadora Mônica é mantida, Camila Morgado, Teté Ribeiro e Christine Fernandes são as novas saias. E quatro calças foram adicionados: Dan Stulbach, Eduardo Moscovis, Léo Jaime e Xico Sá. Claro que se tratava de uma reconstrução de formato, mas muita gente torceu o nariz para a presença de homens no programa. Por outro lado, o público masculino defendeu a novidade, alegando a importância de se ter um ponto de vista do sexo oposto.

"Se fosse para atrair a audiência só dos homens, seria moleza. Mulheres são bem mais inteligentes."

É um manual feminino um pouco menos gay que aquele Sex and the city, claro! Só que brasileiro! Mas as discussões delas são coisas de macho. Todas muito craques!” — Jorge Henrique, 33 anos, assiste o programa ocasionalmente antes das partidas de futebol das quartas.

Com cenário mais denso, moderno e escuro, a temporada foi boa mas não convenceu muito o público. As discussões sobre livros acentuaram-se e eram obrigatórias toda semana. E logo no ano seguinte Christine foi embora e deu lugar a umas das maiores queridinhas da TV nacional: Maria Fernanda Cândido. Abraçada pelo público por sua admirável Júlia, de Sessão de Terapia, a atriz cresceu muito durante a sua passagem pelo programa e atingiu o nirvana durante o episódio em que comentou sobre o livro 50 Tons de Cinzas com os colegas e foi elogiadíssima por sua participação nos cantos da internet.

Com insatisfação do canal GNT, ainda foi exibida uma edição de verão do programa só com os homens, que na versão usual do programa revezavam cada um por semana, e já estava mais do que claro de que outra reforma estava vindo. O que ninguém jamais poderia esperar era a saída de Mônica Waldvogel, pois seu cargo parecia vitalício no programa. Foi de fato um baque muito grande após 10 anos como líder das saias, que teve grande repercussão por aqui.

É uma luto para mim, afinal é uma ideia que eu tive e que levei para o GNT há 11 anos. O programa é muito visceral, está no coração e na minha cabeça. […] Sou outra pessoa 11 anos depois. Modifiquei os meus valores, me misturei muito. Então o Saia Justa é muito marcante na minha vida” — Mônica Waldvogel

Retornando às suas origens mais enraizadas, o Saia começou em 2013 com Astrid Fontenelle no comando e com as atrizes Mônica Martelli e Maria Ribeiro e a jornalista Bárbara Gância. Muito descontraído e definitivamente parecendo renovado, o programa conta com entrevistas no sofá mais frequentes, como a ótima com Dráuzio Varella e a com Jean Wyllis. Além disso, muitas reportagens tem sido feitas com especialistas em assuntos discutidos na pauta da semana e com opiniões do público nas ruas, como sobre a maioridade penal.

O novo time

Um marco da televisão brasileira e com material a ser aproveitado em qualquer situação onde o conteúdo de qualidade é importante, o Saia Justa mostra a importância da renovação para manter o público na liga e de o quanto é possível atingir grandes grupos com televisão inteligente. Prova que a seriedade combina com a informalidade e que sabedoria e histeria estão interligadas de forma normal. Afinal, tudo é normal, o que torna tudo tão louco. Falta de pudor nem sempre é ruim quando usada conscientemente e um freio de mão na garganta sempre cai bem. A pessoalidade que as apresentadoras foram capazes de expor nesses 10 anos de programa é uma aula de conexão da TV com o público! Vida longa à revolução de saias! O programa é exibido no GNT todas as quartas-feiras, às 21h30.

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