A incomparável Will & Grace

My love for you is like this scar. Ugly, but permanent.” — ADLER, Grace

Vamos combinar uma coisa logo de cara, principalmente se você ainda não me conhece aqui do Box de Séries: Will & Grace, ou W&G, ou ainda WAG, é a melhor comédia que já existiu. Vamos combinar também que falar de W&G, pra mim, é falar de uma das poucas coisas que eu realmente gosto. Na verdade, gostar eu gosto de muita coisa, mas pouquíssimas coisas me despertam interesse ao ponto de me fazer dizer “sou fã”. Basta dizer que se eu tivesse que abandonar minha casa e minhas coisas, e só pudesse levar uma coleção, eu não pensaria duas vezes antes de agarrar aquelas oito caixinhas de plástico vagabundo e sair correndo — e olha que eu tenho coisas bem mais bem feitas e mais caras aqui.

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Mas vamos parar de falar de mim e falar do que interessa, Will & Grace. Caso você seja um daqueles hereges que ainda não assistiu à essa maravilha, vou resumir a história pra você: Will Trumam é um advogado gay, amigo de Grace Adler, uma decoradora judia. Os dois se conheceram na faculdade e chegaram a namorar, quando Will resolveu se assumir gay, num dia de Ação de Graças, quando seria a primeira vez dos dois — essa história é contada no episódio 3×08, Lows in the Mid-Eighties, um dos vários episódios que mostram o quarteto de protagonistas em sua juventude. Sim, quarteto de protagonistas, já chegamos lá.

A série toda é pautada em cima de estereótipos, o gay bem sucedido, porém superficial, a judia mão de vaca superficial, a rica superficial, mas não fica só nisso. W&G não apenas usa os esterótipos para fazer graça, mas, acima de tudo, faz graça em cima dos estereótipos. E é nisso que ela ganha de longe das suas contemporâneas. Isso e toda a sua incorreção.

Além de Will e Grace, a série começa com dois coadjuvantes, Jack e Karen, que logo ganharam status de protagonistas, fazendo com que muitos considerassem a série mais Jack & Karen do que Will & Grace. Bobagem pura. A série funciona exatamente pela dinâmica que os quatro atores têm em cena e que fica mais evidente nos dois episódios ao vivo da oitava e última temporada, o 8×01, Alive and Schticking, e o 8×11, Bathroom Humor.

W&G

Como tudo o que acontecia no mundo na época, o desejo de alguns fãs mais esquizofrênicos de Jack e Karen também acabou virando piada em um episódio, quando Jack comenta que a vida deles parece um episódio chato de um programa sobre Will e Grace. Alguns grupos de amigos da época precisavam ter aprendido com W&G a não se levar tão a sério. Também não podemos esquecer de Rosario, a empregada de Karen. Ela não aparece em todos os episódios, mas com o tempo sua participação foi aumentando até praticamente fazer parte do elenco principal da série.

WAG, ao contrário de suas contemporâneas, que por mais que tentassem parecer ~rebeldes~ não fugiam da zona de conforto, apostava em personagens com mais defeitos que qualidades. Will, apesar de bem sucedido, era inseguro e parecia um velho; Grace não pensava duas vezes em trapacear para poupar esforços e dinheiro; Jack praticamente não trabalhava, era sustentado por Will e arrumava mais de um namorado por dia frequentemente, sem contar as vezes em que tentava roubar os namorados do Will — com uma grande dose de sucesso, diga-se de passagem; e Karen era dependente química, insinuou várias vezes que defendia o trabalho escravo — inclusive com Rosario — e ofendia e humilhava as pessoas só para não mostrar que tinha um lado sentimental.

Ou seja, seria um ótimo tiro no pé, não fosse a genialidade do texto, que nunca caía na pieguisse na hora de dar lição de moral. E pra não dizer que a NBC não sabia onde estava pisando, logo no final do piloto, Will e Grace se beijam e, apesar dele dizer que não sentiu nada, bate um pânico pela possibilidade dos dois virem a formar um casal no futuro, tamanha a ousadia da série para uma época em que o politicamente correto imperava em todo canto. Ainda bem que resolveram bancar a empreitada.

A série estreou em setembro de 1998 e terminou em maio de 2006, tendo ao todo oito temporadas, todas incríveis. Ao contrário do que acontece com a maioria das séries, que vai decaindo com o tempo, Will & Grace só melhorou com o tempo. Quando os escritores começavam a ficar sem ideias, o que costuma acontecer por volta da quarta, quinta temporada (isso antigamente, hoje na segunda os caras já não sabem mais pra onde ir), W&G começa a ganhar mais qualidade. Não dá pra explicar o que acontece, mas o texto e as atuações passam a ganhar novas cores e um novo fôlego. Mesmo com todos os estereótipos, os personagens nunca são meras caricaturas e, mesmo sendo uma comédia, o texto sabe ser denso na hora e medida exatas.

Debra Will & Grace

Um dos grandes méritos de Will & Grace foi o de ter levado ao ar o primeiro beijo gay em horário nobre da televisão americana. Pode não parecer muita coisa por se tratar de uma comédia, mas é importante frisar que foi em horário nobre e, acima de tudo, era uma crítica à própria NBC, emissora que transmitia a série nos EUA. O episódio é o 2×14, Acting Out, e é um dos momentos da série que fez o vice-presidente americano Joe Biden creditar a coméida como um dos grandes responsáveis por educar os americanos acerca dos gays.

Outro ponto a favor de WAG é a quantidade de participações especiais. Em algumas temporadas era praticamente uma participação por episódio. E não é qualquer série que pode dizer que teve participações de Michael Douglas, Madonna, Cher, Elton John, Britney Spears, Matt Damon, Alec Baldwin, Minnie Driver, John Cleese, Kevin Bacon, Barry Manilow, Glenn Close, Parker Posey, Patrick Dempsey, Jennifer Lopez, Janet Jackson, Will Arnett, Ellen Degeneres, Demi More, Edward Burns, Jeff Goldblum, Taye Diggs, Candice Bergen e por aí vai.

Will & Grace não era uma série musical, nem tinha grandes trilhas sonoras, até por se tratar de uma comédia. Apesar disso, algumas músicas ficaram bem marcadas ao longo dos oito anos em que a série ficou no ar, chegando a render um CD, em que os próprios atores destacam, num texto do encarte do álbum, a importância que algumas músicas tem na série.

Como You’re My Best Friend, do Queen, que resume bem o espírito da comédia; Gypsies, Tramps and Thieves, da Cher, que serviu de inspiração para o nome de um episódio, apesar de não ter sido a música cantada pela Deusa em uma de suas participações; Waiting for Tonight, que J.Lo cantou na festa de casamento de Karen e Lyle — apesar dos protestos de Karen que queria ouvir “classic J.Lo”. Também aparecem no CD um remix de Holiday, da Madonna, cheia de frases tiradas da série, uma parceria entre Megan Mullally, que também é cantora, com Carly Simon e Living with Grace, parceria de Eric McCormack e Barry Manilow. De chorar.

Isso tudo é só um pouco do porquê Will & Grace é uma série que precisa ser vista, de preferência várias vezes, em looping eterno. Talvez os tempos sejam outros, e muito do papel que a série teve na minha vida e na vida de muitos outros caras, não faça mais sentido hoje. Mas continua sendo uma das séries mais completas que já foram produzidas.

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