A música cansou das mulheres? O Grammy e o Hot 100 dizem que sim

As mulheres estão enfrentando uma pedreira no mercado fonográfico e não é de hoje.

Algumas, como Lady Gaga e Katy Perry, estão com a imagem desgastada. Outras assumem o topo das tabelas com a facilidade com que se pisca um olho. É o caso de Taylow Swift, Rihanna e Adele. Mas nada se compara ao sucesso acachapante de Justin Bieber, Bruno Mars e Ed Sheeran.

A indústria musical e seus seguidores parecem cansados das divas pop, seja pelos estereótipos comportamentais excêntricos impostos pela mídia ou por fórmulas musicais batidas. As mulheres, que foram o espinha dorsal da indústria pelos últimos 35 anos, deram espaço aos homens – DJs que produzem faixas de eletronic dance music (EDM)e tropical house e rappers que são a voz da comunidade negra dos Estados Unidos e dominam os serviços de stream.

A derrocada começou em 2015. Depois de 2014 ter sido dominado por Shake it off, Blank Space, All About That Bass, Dark Horse e Fancy, ninguém mais aguentava os vocais femininos. De 2015 até a metade de dezembro de 2017, apenas nove mulheres chegaram ao topo do Hot 100. Dessas, só quatro chegaram sozinhas, sem estarem em parceria com algum homem. Para se ter ideia do descompasso, 23 homens lideraram a tabela no mesmo período.

Se não fosse Taylor, Rihanna e Cardi B…

Para quem considera as canções modestas do TOP 10 como hits, a informação também não é das melhores: de janeiro a setembro de 2017, 50 músicas estiveram entre as dez mais populares da tabela e só sete eram canções solo de mulheres, um recorde negativo histórico. Em abril de 2017, nenhuma mulher figurava entre as músicas mais populares da semana. Foi a primeira vez em 33 anos.

Andrew Unterberger, editor da Billboard, atribui boa parte da culpa ao sexismo. “Eu não sei até que ponto é isso de fato que ocasiona a falta de representatividade feminina entre as músicas mais populares. Mas seria inocência minha deduzir que esse problema não existe. É difícil especificar a lógica de dois pesos e duas medidas que está sendo adotada pela indústria”, avalia ele com olhar de insider do veículo mais poderoso da indústria.

As premiações seguiram o mesmo modus operandis: todos os indicados a artista do ano do American Music Awards eram homens, com as mulheres sendo esnobadas na maioria das outras categorias. Nas três categorias principais do Grammy 2018 (álbum do ano, canção do ano e gravação do ano), só três mulheres foram contempladas: Julia Michaels pela composição de “Issues” e a neo-zelandesa Lorde, pelo seu arrebatador disco “Melodrama”. Já a panamenha-brasileira Erika Ender concorre a gravação do ano, pelo hit Despacito.

Com Shape of You e Perfect Duet, Ed Sheeran garantiu duas músicas no topo das tabelas

Com a música eletrônica e o hip-hop em voga e rendendo tanto dinheiro, o esforço de promoção, divulgação e investimento se voltou para os homens, já que ambos os gêneros são historicamente dominados por eles. Pensa bem: nós conhecemos Diplo, Skrillex e Calvin Harris. Mas você já viu falar de alguma mulher poderosa na música eletrônica?

Mesmo fora dos gêneros do momento, cantores dedicados ao pop feijão com arroz se deram bem em 2017 com trabalhos mais simplórios do que de muitas mulheres. É o caso de Ed Sheeran, Shawn Mendes e Charlie Puth. Nick Jarjour, sócio da Maverick, que cuida das carreiras de Miley Cyrus e Nicki Minaj, acredita que falta apoio das gravadoras a um desenvolvimento artístico-criativo apurado para as mulheres. “Não é culpa delas. É que todo o entorno não abraça o processo criativo. Falta elo entre as equipes de agenciamento e as gravadoras”, desabafa.

Parece, ainda, que os homens são mais convidados a experimentar e tentar novas sonoridades. As mulheres sofrem com a pressão de entregar promessas sub-entendidas baseadas no seu passado musical. O tropical house genérico de Ed Sheeran em “Shape of You” é bem diferente do que ele fazia antes e foi abraçado pelas paradas musicais. Já “Bad Liar”, de Selena Gomez, um esforço indie montado sobre o sample de “Psycho Killer” do Talking Heads, teve que se contentar com a aclamação da crítica especializada, já que não contou com apoio das rádios.

Soma-se a isso o julgamento diferenciado que homens e mulheres ganham ao tratarem de certos conteúdos, temas, discursos ou imagens, pela mídia, pelos fãs e o pior: pelos chefões da indústria fonográfica. Mas como tudo na vida é um pêndulo que hora vai e hora volta, fica a questão: quem vai ser A responsável por devolver o fôlego para as nossas divas e com qual tipo de música? Só 2018 (ou não) poderá nos responder.

Sobre o Autor

Eduardo Laviano

Libriano de 20 anos, estudante de jornalismo, fã incondicional de cultura pop e ávido por entender os fenômenos da música, da TV e do cinema.

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