A Travessia (2015)

Em A Travessia, Robert Zemeckis encanta com uma mistura de visual e música que distrai da história bagunçada.

Pourquoi?” — PETIT, Philippe

Robert Zemeckis é um diretor conhecido pelo seu romance com os efeitos especiais. Desde os clássicos como De Volta Para O Futuro (1985), Uma Cilada Para Roger Rabbit (1989) e Forrest Gump (1994) até os mais recentes Expresso Polar (2004) e O Voo (2012), o diretor sempre procura usar o que há de mais avançado em Hollywood para contar suas histórias. Podemos chamar Zemeckis de um anti-Michael Bay, alguém que pensa na história e no sentido por trás de cada explosão.

Em seu mais novo filme, Zemeckis enfrenta um desafio monumental: fazer você acreditar que as Torres Gêmeas ainda estão em pé.

Apesar de A Travessia contar a história de Philippe Petit, o francês que atravessou uma corda bamba entre as duas torres nos anos setenta (sem a autorização da polícia e sem uma corda de suporte), esse não é o foco do filme. Talvez porque a história de Philippe já foi contada no documentário O Equilibrista (2008), que é considerado um dos melhores documentários dos últimos anos. Ou talvez porque A Travessia é mais sobre as Torres Gêmeas do que sobre Philippe.

Sim, Philippe é o nosso guia e narrador, interpretado habilmente pelo grande Joseph Gordon Levitt. É a sua história que seguimos, mas o filme parece muito mais interessado em ser uma homenagem às Torres do que ao feito de Philippe.

Isso se mostra na bagunça temática que é o filme. A primeira parte é como um filme da Disney, com sequências em preto e branco, flashbacks para a infância de Philippe, música animada e um romance improvável. É divertida, estabelecendo os personagens principais: Philippe e sua namorada Annie, interpretada por Charlotte Le Bon, seu mentor Papa Rudy, interpretado por Ben Kingsley, e seu amigo Jean-Louis, interpretado por Clément Sibony.

Todos esses personagens são funcionais e não irritam, mas também não deixam uma impressão. É óbvio desde o começo que a intenção do filme não é desenvolver o lado emocional de ninguém, apesar das cenas dedicadas às motivações e medos de cada um deles. Mas ela estabelece o fio que une o filme inteiro: o amor por andar na corda bamba de Philippe.

A segunda parte do filme é uma história de roubo, similar a Onze Homens e um Segredo (2001), com direito a montagens de preparação, personagens secundários, momentos cômicos e tensos. Aqui, Zemeckis introduz o personagem principal do filme: as Torres Gêmeas. Seu lugar em Nova York e na consciência dos moradores da cidade é um ponto importante. “Porque as Torres?” pergunta um dos cúmplices de Philippe. “Elas parecem gabinetes gigantes. Nínguem gosta delas.”

Sublinhando essa segunda parte do filme está a mudança no estilo musical da trilha sonora, conduzida pelo grande Alan Silvestri (que retorna para mais uma colaboração com Zemeckis). Os instrumentos e tons rápidos e animados da primeira parte são substituídos por uma trilha de espião: lenta e cuidadosa. Neste momento, Zemeckis começa a dar um gostinho do que está a frente. Cenas mostrando as Torres Gêmeas de longe começam a aclimar sua mente à ideia de vê-las de perto.

Poster de A Travessia (2015)

E então chegamos à terceira parte: a travessia. Do momento em que Philippe pisa na corda bomba ao momento em que ele sai, são quase quarenta e cinco minutos de beleza cinematográfica. A câmera brinca junto com Philippe, e a atuação incrível de Gordon Levitt faz você acreditar que ele está na corda bamba. Os efeitos são perfeitos, e você esquece dos eventos de 11 de setembro. A trilha sonora se torna uma sinfonia em perfeição, e entramos na cena com Philippe.

Você está na corda bamba, você grita de medo quando parece que ele vai cair, você sorri ao ver ele brincar com os policiais. É um momento emocionante e perfeito, que faz todo aquele trabalho das outras duas partes valerem a pena. Se eu fosse um membro da Academy, daria uma indicação ao Oscar a Zemeckis apenas por aqueles quarenta e cinco minutos.

É nesse momento que devo notar que eu vi este filme em IMAX 3D. A última vez que eu vi um filme em IMAX foi Avatar (2009), que não me impressionou. Agora, com A Travessia, dói a ideia de ver esse filme em qualquer tela que não seja IMAX. Os quarenta e cinco minutos da travessia fazem desse filme uma experiência que você não pode perder.

Mas tudo que é bom acaba, e não faz muito sentido colocar um aviso de spoiler aqui. Todos nós sabemos que Philippe atravessou a corda bamba sem problemas. Nos últimos minutos, o filme volta a sua atenção para as Torres, e o personagem que antes reclamava delas sorri. “As pessoas gostam da Torre agora,” ele comenta. “Talvez você tenha dado uma alma à elas”, diz Annie.

E é aí que a felicidade da travessia desaparece. Porque você lembra do que aconteceu, do evento que acabou com a vida desses dois amores de Philippe. Mas Zemeckis sabe disso. Ele sabe que não pode terminar o filme em uma nota ruim.

“Após ser liberado da prisão, o prefeito me deu um passe para as Torres,” Philippe diz para a câmera, com as Torres Gêmeas no fundo. “Mas no lugar da data de validade, ele riscou o número e escreveu para sempre.” Philippe sai da frente da câmera. As luzes no céu de Nova York se abaixam, a trilha de Alan Silvestri sobe, até que a única coisa na tela é o centro das Torres, brilhando como se nunca tivessem caído.

Philippe Petit deu uma alma as Torres Gêmeas. E Zemeckis nos lembra que essas almas não tem data de validade.

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