Anos Rebeldes: Eu vou, por que não?

Na hora em que lembramos da teledramaturgia brasileira, é fácil citarmos somente os casos de sucesso das clássicas novelas, esquecendo que por aqui também fazemos seriados extremamente relevantes. Aproveitando a Semana Brasil que pintou nosso site de verde e amarelo, o Box Fechado falará sobre uma das séries mais importantes da nossa história televisiva, a antológica Anos Rebeldes.

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No Brasil não é novidade a combinação entre contexto histórico e dramaturgia, vimos isso em muitas produções ao longo da trajetória das novelas. Mas nunca o timing entre aquilo que acontecia na tela e aquilo que acontecia na rua foi tão perfeito. Romanceando fatos de uma época que ainda dói em muitos brasileiros, Anos Rebeldes foi o estopim de uma insatisfação crônica que, literalmente, mudou a cara do país.

Idealizada e escrita por Gilberto Braga e Sérgio Marques, com colaboração de Ricardo Linhares e direção de Dennis Carvalho, a série foi inspirada nos livros 1968 — O Ano que não Terminou, de Zuenir Ventura, e Os Carbonários, de Alfredo Sirkis. Contando com 20 capítulos, Anos Rebeldes foi transmitida pela Globo entre 14 de julho e 14 de agosto de 1992.

anos rebeldes

Ambientada no Rio de Janeiro, a série trouxe a história de amor entre João Alfredo (Cássio Gabus Mendes) e Maria Lúcia (Malu Mader) durante o conturbado período da Ditadura Militar no Brasil, entre 1964 e 1985. Sem mocinhos e bandidos, sem ser didática nem formadora de opinião, a série nos apresentou relatos de uma época tão fascinante, quanto aterrorizante. Uma época de repressão, uma época de ideais.

No meio de todo esse contexto, conhecemos personagens inspirados e empenhados em mostrar como era o Brasil da época. O casal principal representou a dualidade do país no período, trazendo personagens opostos. João é o militante estudantil idealista, engajado na luta de classes e com pretensões socialistas. Já Maria Lúcia era uma jovem individualista, que pensa em ter uma vida tranquila e estabelecida, longe dos riscos do enfrentamento político.

Apesar do amor recíproco, a série acompanha os desencontros do casal, apoiados principalmente nos projetos de vida tão diferentes. Criando um triângulo amoroso, temos Edgar (Marcelo Serrado), o ambicioso melhor amigo de João Alfredo, que após o exílio do protagonista (devido a luta armada), se casa com Maria Lúcia.

Junto com a trama dos protagonistas, conhecemos outros personagens, como Heloísa (Cláudia Abreu). Jovem fútil e mimada, filha de um dos financiadores do Golpe Militar, ao longo da série ela rompe com os padrões tradicionais da família e desperta sua consciência política. A moça muda completamente seu visual e participa da luta armada. Após uma tentativa frustrada de fuga do país junto com os companheiros João Alfredo e Marcelo (Rubens Caribé), Heloísa é morta a tiros. Claramente inspirada em Che Guevara, essa é uma das cenas mais impactantes da história da dramaturgia brasileira.

Um outro personagem interessante que precisa de destaque é Galeno (Pedro Cardoso), baseado no próprio autor, Gilberto Braga. Amigo de todos, Galeno só que viver de arte, dedicando-se mais ao cinema e ao teatro do que à política. No fim ele vira autor de novelas. Mas a trama que ele escreve, A Escrava, sofre censura. Em uma clara lembrança ao que aconteceu com o próprio Gilberto Braga nos tempos de A Escrava Isaura.

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Com essa lista incrível de personagens, um dos melhores roteiros já escritos, uma trilha sonora de tirar o fôlego e uma produção incrível, com montagens documentais de imagens reconstituídas da época, a importância da série está mesmo em revelar ao país a obscuridade dessa década no Brasil. A luta armada de alguns era narrada junto ao cotidiano daqueles que viveram essa época em total alienação.

Muitos até hoje dizem que foi coincidência, mas foi tudo isso, junto com o contexto histórico, e a representação da luta jovem contra a repressão, que foi um dos grandes estopins para o movimento dos “Caras-Pintadas.” Inspirando jovens que não aceitavam a situação política do país, e que exigiam o impeachment do presidente Collor. Rejeitando o rótulo de alienados.

Uma das produções mais importantes do gênero, Anos Rebeldes merece sua atenção. Gilberto Braga, na sua melhor época, trazendo para a TV o retrato de uma época que ainda está engasgada em nossa garganta. E que viverá para sempre na nossa memória, e nos nossos livros de história.

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