As adaptações e a verdadeira história do Mágico de Oz

– Mas como você pode falar, se você não tem um cérebro? (Dorothy)

– Eu não sei… Mas algumas pessoas sem cérebro armam um terrível falatório, não é? (Espantalho)

Nos últimos meses o que mais tem chamado atenção em matéria de novas séries é a quantidade de projetos baseados na famosa história do Mágico de Oz. Até o momento, Syfy, CBS, NBC e The CW já divulgaram pretensos trabalhos futuros com o tema, cada qual com uma storyline diferente. E como não poderia faltar, Once Upon A Time também poderá visitar a Terra de Oz.

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Essa diversidade de novos projetos com fundo na história de Dorothy Gale em tese se dá ao fato da comemoração dos 75 anos de lançamento do filme The Wizard of Oz, estrelado pela imortal Judy Garland no papel principal. A produção foi de grande singularidade, principalmente quanto à técnica. Foi um dos primeiros filmes a usar a technicolor, ou seja, a coloração, na indústria cinematográfica. Venceu dois Oscar: um de melhor canção original e o outro de melhor trilha sonora (ah, a inesquecível Somewhere Over The Rainbow).

O filme foi inspirado nas histórias infantis escritas pelo americano L. Frank Baum. Como membro da Sociedade Teosófica, várias elementos da doutrina foram incorporados ao conto. Ao todo são quatorze livros que contam as aventuras de Dorothy Gale na Terra de Oz.

O primeiro livro, lançado em 1900, inaugurou uma nova corrente na literatura infantil. Cansadas das histórias moralistas e dos desinteressantes contos de fadas, as crianças desejavam por fábulas que pudessem divertir, uma vez que a função de educar era cabível à escola e à família. The Wonderful Wizard Of Oz foi um verdadeiro sucesso, o que levou Baum a escrever uma série de livros.

No conto, Dorothy Gale (Ventania, em português) vive no Kansas com seus tios e seu cachorro e único amigo, Totó. A casa onde morava é abalada por um furacão que a leva para uma terra fantástica. Sua casa cai em cima da Bruxa Malvada do Leste, opressora dos Munchkins. Para voltar para o Kansas, a menina é orientada pelos homens pequeninos a seguir a trilha de tijolos dourados até a Emerald City, a morada do Mágico de Oz.

Embora seguindo a linha das histórias infantis para entretenimento, alguns teóricos como Henry M. Littlefield se encarregaram de interpretar a fundo o significado por trás da história de Dorothy, que no caminho para Oz, encontra três seres que também necessitavam da ajuda do feiticeiro. E foi encontrado muito mais que lição de moral e bons costumes.

Littefield relacionou a história infantil como uma alegoria ao Movimento Populista que surgiu nos Estados Unidos, por volta do século XIX. Seu artigo The Wizard of Oz: Parable on Populism, publicado em um diário americano, foi amplamente discutido e até hoje suas relações são ensinadas nas faculdades da terra do Tio Sam.

De fato, Baum era simpatizante — e alguns estudiosos até dizem que o escritor era participante — dos ideiais populistas, que tinham como principal ponto a substituição do ouro pela prata como moeda de circulação, uma vez que o ouro estava em falta e quase que completamente sob poder dos empresários industriais. Estes por sua vez integravam o Partido Republicano.

Na adaptação para o cinema, os sapatinhos prateados viraram rubis.

Dentre as interpretações, o paralelo começa pelo estado onde Dorothy reside. O Kansas é um estado predominantemente rural, onde o Partido Populista era hegemônico. Além disso, os sapatos prateados que a menina pega da bruxa malvada do Leste seriam a representação do elemento subjugando o ouro da estrada dos tijolos amarelos. A menina honesta e virtuosa representaria o povo americano, e o furação que a levou para Oz, o crescimento do Partido Populista, que de uma pequena reunião de fazendeiros, se tornou em um grande movimento com parcelas em Washington e Nova Iorque.

A casa de Dorothy cai em cima da Bruxa Malvada do Oeste, representação do poder bancário e especulativo. Dela só sobram os sapatos prateados, que seriam, segundo o Partido Populista, a base do bimetalismo.

E as representações não param por aí. Os três companheiros de viagem de Dorothy também são relacionados na interpretação de Littlefield. O espantalho seria o homem do campo, que é considerado como sem cérebro, no entanto, ajuda a resolver os problemas que encontra pelo caminho. O homem de lata é a imagem do proletariado industrial, que de tanto trabalhar para os donos das indústrias perdem seus sentimentos. O leão estaria ligado a William Jennings Bryan, um dos mais importantes nomes do Partido Populista, um político com forte poder de persuasão, mas que nunca se garantiu nas urnas. Candidatou-se cinco vezes à presidência e não conseguiu chegar ser eleito.

É inútil lutar contra esse povo cabeça dura; ninguém pode com eles.” (The Wonderful Wizard Of Oz: página 178)

Os fiéis escudeiros da Bruxa Malvada do Oeste, os macacos-voadores, seriam correspondentes dos nativos da América do Norte, uma vez que em vários trechos do livro dizem ter vivido em paz antes da chegada do homem em suas terras. A feiticeira do Oeste estaria ligada aos fenômenos naturais que atrapalham a boa colheita (a falta de chuvas, por exemplo).

Ao chegar na Cidade de Esmeraldas, onde tudo é verde — uma menção ao papel-moeda — o Mágico de Oz, sempre se escondendo com uma capa, assim como Mark Hanna, presidente do Partido Republicano, conhecido por governar de forma parda. Os desejos seriam realizados com uma condição: a morte da Bruxa do Oeste.

A arma para matá-la foi um balde de água, que no universo de representações, seria a solução para os problemas do campo e a liquidez da economia. Para os populistas, a prata permitiria tirar o país da deflação e diminuiria assim a taxa de juros.

Ao retornar a Oz, Dorothy descobre que o mágico é um farsante. O padrão-ouro é desmascarado e mostra sua face pouco confiável, até mesmo inútil, assim como o homem simples que de feiticeiro não tem nada.

A adaptações da história de O Mágico de Oz

Assim, Dorothy descobre que a solução sempre esteve nos seus pés, e a prata então seria a resposta para os desafios econômicos enfrentados pelo país. Com três batidas, a garota retorna ao Kansas.

Não é a primeira vez que a história ganha outras bases além da típica viagem de Dorothy à terra de Oz. Já se somam cerca de 32 adaptações para o cinema, entre elas uma aventura espacial (The Wonderful Galaxy Of Oz), animação da Disney (Oz — O Mágico e Poderoso) e uma comédia brasileira (Os Trapalhões e o Mágico de Óroz), um musical ao som do soul estrelado por Michael Jackson e Dianna Ross (The Wiz), e o bem sucedido musical da Broadway, Wicked.

Mesmo sendo uma história tipicamente política, as apostas estão lançadas e que venham as novas interpretações das aventuras de Dorothy na Terra de Oz. Drama médico? Uma Dorothy imperialista? Guerreiros pós-apocalípticos? A única certeza que tem-se é: “Totó, eu tenho a impressão de que não estamos mais no Kansas”.

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