As decisões equivocadas de RuPaul

Como decisões mercadológicas afetam o mais divertido reality da TV.

O programa mal tinha acabado e um de meus olhos tremia. Simplesmente não dava para acreditar naquilo que eu estava enxergando. Dez episódios para presenciar aquela decisão. Senti um misto de sentimentos, entre a frustração e o engano. Assisto a RuPaul’s Drag Race antes mesmo do reality show ter esse reconhecimento público, antes mesmo de RuPaul ser agraciada com o Emmy de Melhor Apresentador de Reality Show. Acompanhei as mudanças e o crescimento do show e das pessoas que passaram a acompanhá-lo.

As primeiras temporadas de Drag Race acabaram lançando as bases e as referências para as atuais queens participantes do programa. Muitas delas se inspiraram nas queens de origem. Outras se tornaram queens graças àquelas pioneiras. E hoje, graças às redes sociais, muitas já são conhecidíssimas antes mesmo de entrarem no programa. Outras consagram sua base de fãs após participação no programa.

A ideia de fazer um spin-off do programa original reunindo as queens mais memoráveis de cada temporada sempre foi uma ótima ideia. Era a chance de rever suas artistas servindo glamour ao mundo mais uma vez. A primeira edição de All Stars é praticamente obscura, porque surgiu em uma época que os fãs não eram tão numerosos e ardorosos. Mas serviu para criar regra: a competição sempre trazia um plot twist diferente da corrida original. Até aí é compreensível, afinal de contas, era preciso ter um diferencial ou teríamos apenas mais uma temporada de Drag Race.

Na primeira temporada de All Star, o twist era a competição em duplas. Assim, a eliminação acontecia de duas em duas. Esse formato consagrou Chad Michaels como campeã e era natural que fosse assim. Em sua participação no original, Chad mostrou o quão perfeita era. Sua derrota para Sharon Needles é facilmente compreendida quando vemos a novidade levada às telas pela queen vencedora. Era preciso premiar e reconhecer todo o talento de Chad e, há rumores, que o primeiro All Star foi para isso.

Na segunda temporada, a grande novidade era que a queen vencedora dos desafios semanais escolheria qual, dentre as duas piores da semana, iria para casa. Aqui a coisa começou a dar um pouco errado quando Alaska se recusava a eliminar Roxxxy Andrews, que sempre frequentava os piores lugares. Explica-se: as duas são grandes amigas. Mas ainda assim, a vitória de Alaska foi realmente merecida, afinal, a queen sempre arrasava nos desafios. Surgiu também uma teoria de que o All Star 2 foi feito para premiar Alaska já que, na temporada dela, mesmo não tendo ido para o bottom nenhuma vez, acabou perdendo para Jinkx Masoon.

Muitos acharam um pouco cedo a produção de uma terceira edição de All Star. Da primeira para a segunda foram quatro anos. E agora, só dois anos havia passado. Os narizes se torceram também quando o elenco foi anunciado. Mas nada nos preparava para o que viria.

Todo mundo que esperava alguma nova regra ficou desconfiado quando se manteve o jeito da eliminação da segunda temporada: a queen ganhadora do desafio escolhia uma das piores para mandar embora. Onde estaria a novidade da terceira temporada?

O famigerado funko spoiler

Antes mesmo da estreia, a Funko Pop lançou produtos inspirados em Drag Race. Um Funko da própria RuPaul, outro da Alaska e um terceiro de Trixie Mattel, uma das competidoras do All Stars 3. Lembrando que a temporada já estava gravada, não demorou muito a surgir fortes comentários que ela era a campeã. Preferindo não acreditar nessa bola fora spoilerenta, comecei ver o programa.

O primeiro plot twist foi o surgimento de Bebe Zahara Benet, vencedora da primeira temporada de Drag Race, como a décima competidora. Logo surgiram rumores de que ela não era uma competidora e sim uma juíza escondida entre as queens que teria algum tipo de poder decisivo. Antes fosse isso.

Logo de cara, BenDelaCreme começou se destacar. Semana pós semana, a queen  da sexta temporada mostrou-se superior às demais. Em pouco tempo, desenhou-se que ela seria a vencedora da temporada.

O rumor de Trixie campeã deixava de fazer sentido, já que ela ficou boa parte do tempo apagada, não tendo nenhum grande momento. Inclusive, em um dos episódios, chegou a ir para o bottom com sérias chances de sair (como esquecer ela chorando enquanto Shangela fazia seu discurso de eliminação).

E então veio o abalo sísmico provocado pela autoeliminação de BenDeLaCreme em um dos melhores e mais marcantes episódios de todo o reality. Ninguém estava preparado para tal atitude, ainda que prevista por alguns blogs. DeLa era, sem sombra de dúvida, a vencedora da temporada e, agora, se eliminava da competição. Mas, com isso, a ideia de Trixie campeã começava a ficar mais forte. No entanto, havia um problema: Shangela.

Depois de DeLa, Shangela era a queen que mais se destacou no programa. Sua interpretação de Mariah Carey foi memorável e umas melhores coisas da temporada. Participante de duas temporadas, despontava agora como a campeã. Porém, nada nos preparou para o verdadeiro plot twist da temporada.

No último episódio, o Top4 formado por Bebe, Shangela, Trixie e Kennedy Davenport seria avaliado por um júri composto pelas queens eliminadas e estas decidiriam as duas que dublariam pela coroa. Pronto. A desgraça estava pronta.

Quando Shangela chega para conversar com as eliminadas, seu choro revela que ela sabia o que aconteceria. Como tinha vencido três desafios, mandou algumas queens para casa. Era evidente que restava alguma mágoa nas eliminadas. Como bem revelou em entrevista para o EW, Shangela não ficou surpresa em não ser escolhida pelas eliminadas (com exceção de Thorgy). Ela comenta que seria maravilhoso se a humanidade brilhasse, mas que conhece pessoas e sabia que as eliminadas não iriam em sua direção. Comenta também que não as culpa e sim as escolhas do programa em dar esse poder para as eliminadas. Shangela diz que, se esse detalhe fosse conhecido por ela desde o início, a coisa seria diferente.

Como Trixie não tinha se indisposto com ninguém, acabou sendo uma das escolhidas, juntamente com Kennedy. E aqui, o peso de ser uma das queridinhas da internet pode ter pesado e Trixie acabou sendo coroada usando uma camisola horrorosa, confirmando o spoiler do Funko Pop.

Não questiono o talento de Trixie. O que questiono são as decisões que RuPaul toma para manter o interesse da audiência e fazer o programa lucrar. Tenho a sensação de que ela pouco se importa para suas competidoras. Brinca com elas ao seu bel prazer e, de quebra, faz seu público de trouxa. Muitos têm culpado as queens pela tragédia que foi a final, mas fica evidente o quanto tudo aquilo é manipulado para ser como RuPaul deseja sem que ela não seja culpada.

Bem fez DeLa se eliminando. Pensando em como foi essa final, era evidente que as outras eliminadas também não a teriam escolhido para dublar pela coroa. Há muita mágoa, muito rancor, muito recalque, e a produção sabe muito bem como usar isso em seu favor.

Ganhou a favorita das redes sociais, a que tem um disco em primeiro lugar no iTunes. Perdeu o espetáculo e a chance de consagrar alguém que realmente mostrou muito talento. Tudo em nome da audiência. All Stars continua sendo a competição para RuPaul premiar suas queridas e sendo pior a cada temporada. Infelizmente.

Sobre o Autor

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José Francisco

José Francisco, o Xico, é um apaixonado por filmes, séries, Madonna e funkos pop, não necessariamente nessa mesma ordem. Professor e nerd em tempo integral, cantor nas horas vagas, escreve para o Box desde setembro de 2012.

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