As melhores novelas brasileiras

Em edição especial, listamos as 10 maiores novelas brasileiras de todos os tempos.

As novelas são um legítimo produto cultural brasileiro. Desde a primeira produzida no longínquo 1951, foram mais de 800 novelas realizadas até então. Produto de exportação, as qualidades nas telenovelas nacionais são vistas e confirmadas no mundo inteiro. Influenciadoras, ditadoras de moda, reflexo do cenário cultural e político, essas obras narrativas encantam e prendem milhões de brasileiros diariamente.

Na Semana Brasil do Box de Séries, vamos eleger as melhores novelas brasileiras. Levaram-se em consideração diversos aspectos para a seleção. A densidade do texto, o trabalho dos atores, o momento em que foi ao ar, o caráter de ruptura e o impacto da novela estão entre eles. E como o número de citadas foi muitos, excepcionalmente, essa semana, a Top5 virou Top10! Os comentários estão aí para você dizer se está de acordo ou não. Vamos às novelas?

10º O Clone (Glória Perez, 2001/2002)

Maior sucesso da era Marluce Dias e maior audiência até então quando o IBOPE passou para os moldes atuais, O Clone também foi responsável por segurar os telespectadores da Rede Globo quando a emissora sofreu o golpe Casa dos Artistas, do SBT. A novela também marcou o formato que consagraria (e derrubaria) Glória Perez: merchandising social, cultura estrangeira desconhecida, brasilidade, muitos personagens. Foi a primeira novela a abordar com seriedade o tema das drogas (que rendeu diversos prêmios, incluindo um concedido pelo FBI e pela Drug Enforcement Administration — DEA). A trama sobre clonagem humana e amor entre Lucas e Jade conquistou o Brasil e inseriu diversos bordões no cotidiano dos brasileiros. Reprisada em 2011 no Vale a pena ver de novo, com uma versão hispânica produzida pela Telemundo, O Clone foi um sucesso arrebatador.

9º Guerra dos Sexos (Sílvio de Abreu, 1983)

Em 1983, o importante era fazer novelas políticas, com grandes sagas familiares e morais. E eis que surge Sílvio de Abreu e coloca atores do cacife de Fernanda Montenegro e Paulo Autran para levarem torta na cara e suco de laranja nos cabelos. Estava ditado o novo rumo que o humor na televisão teria com a revolucionária Guerra dos Sexos. A eterna briga entre machismo e feminismo foi o mote principal da trama. A narrativa da novela subvertia a linguagem tradicional ao colocar os personagens interagindo com o telespectador, olhando para a câmera, dialogando com o público. Foi um sucesso estrondoso, ganhando os principais prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA): melhor novela do ano, melhor texto (Silvio de Abreu), melhor direção (Jorge Fernando e Guel Arraes), melhores atores (Paulo Autran e Mário Gomes), melhores atrizes (Fernanda Montenegro e Yara Amaral) e revelação masculina em TV (José Mayer). A censura deu uma grande dor de cabeça a Sílvio de Abreu, que ia constantemente à Brasília lutar para manter seu texto. O próprio autor produziu o remake de 2012.

8º Pantanal (Benedito Ruy Barbosa, 1990)

Renegada pela Rede Globo, a novela Pantanal encontrou na TV Manchete a emissora capaz de investir na trama. E deu muito certo. Pela primeira vez, desde os anos setenta, a toda poderosa Globo viu seu absoluto departamento de dramaturgia ameaçado. Pantanal chegou a dar 40 pontos de audiência! Imagens contemplativas da natureza capturadas no Pantanal, realismo fantástico, trama rural, tudo foi um alívio para o público cansado da urbanidade dramatúrgica. Ajudou também os incontáveis banhos de cachoeira da lendária Juma Marruá. Cristiana Oliveira afirmou não se arrepender de nenhuma das cenas de nudez. A novela serviu também para colocar Benedito Ruy Barbosa no alto escalão do horário nobre da Rede Globo (após Pantanal, o autor criou clássicos como O Rei do Gado e Renascer).

7º Que rei sou eu? (Cassiano Gabus Mendes, 1989)

Cassiano Gabus Mendes foi um gênio. E a prova inconteste dessa afirmação foi a novela Que rei sou eu?, a melhor produção das sete. Usar o fictício reino de Avilan como metáfora e paródia do Brasil de Sarney foi uma verdadeira jogada de mestre. A miséria do povo, a instabilidade financeira, os sucessivos planos econômicos que impõem o congelamento de preços, a moeda desvalorizada que muda de nome, a elevada carga de impostos, a corrupção. Estava tudo lá. E em um tom de chanchada, mesclada com história de cada e espada, livros de Victor Hugo, Revolução Francesa. Cassiano já havia proposto a novela no final dos anos 1970, mas somente uma década depois viu sua sátira inteligente ser aprovada. Uma novela povoada de tipos inesquecíveis, como o Bruxo Ravengar de Antônio Abujamra ou a emblemática Rainha Valentine, na caracterização singular de Tereza Rachel.

6º A Viagem (Ivani Ribeiro, 1994)

Poucos conseguiram escrever novelas tão bem como Ivani Ribeiro. Esta foi a sua última trama escrita antes de seu falecimento. A autora encerrou sua carreira com dois grandes sucessos: este e a anterior, Mulheres de Areia. O que mais impressiona é que esta foi uma produção para as dezenove horas. O tema era as crenças do espiritismo, religião da autora. Poucas religiões tiveram um tratamento tão delicado como esta. Foram levantadas todas as dimensões da crença, desde o preconceito dos leigos até estudos científicos. Inclusive a comunicação entre vivos e mortos através da mediunidade, espíritos encarnados e desencarnados, possessões, crendices populares. Ivani queria adaptar algum livro de Chico Xavier, mas o próprio Chico aconselhou-a a escrever a história dela. Inspirada em uma novela antiga de Ivani, A Viagem conseguiu números impressionantes de audiência. Destaque para Christiane Torloni, que viveu a protagonista Diná, que sempre era impedida de consumar seu amor com Otávio, de Antonio Fagundes. Os aspectos técnicos de A viagem também impressionavam. Querendo fugir do estereótipo do céu, os cenógrafos gravaram em um campo de golfe. Já o Vale dos Suicidas foi recriado em uma pedreira desativada. A novela impulsionou a venda de livros espíritas em 50% durante a exibição.

5º Selva de Pedra (Janete Clair, 1972/1973)

Regina Duarte esteve presente em quase todas as grandes novelas do Brasil. Selva de Pedra, de Janete Clair, foi uma dessas. O romance entre Simone (Regina Duarte) e Cristiano (Francisco Cuoco ), tumultuado pelos perigos da cidade grande: ambição, dinheiro, poder, convenções sociais, e pelas armações dos vilões Miro (Carlos Vereza ) e Fernanda (Dina Sfat). Selva de Pedra conseguiu um feito inédito: 100% de audiência no capítulo em que Rosana Reis é desmascarada, revelando que ela era, na verdade, Simone. Produzida durante a ditadura militar, a novela foi outra febre nacional. Há indícios de um grande boom em bebê do sexo masculino com o nome de Cristiano.

4º Irmãos Coragem (Janete Clair, 1970/1971)

A história dos irmãos João, Jerônimo e Duda para vencer a dominação do Coronel Pedro Barros na zona mineradora de Coroado, interior de Goiás, é um desses clássicos televisivos incontestáveis. Em plena ditadura militar e com a Copa do Mundo de 1970, a Globo surge com uma novela envolvente, que misturava faroeste, romance e futebol. Por meio da luta dos Coragem, a autora Janete Clair conseguia, disfarçadamente, retratar simbolicamente a guerra dos militantes esquerdistas contra o governo militar. Foi a primeira novela da Globo a atingir, de fato, todo o Brasil. O país ficou viciado pela obra, que durou um ano no ar, uma das mais longas produzida pela emissora (328 capítulos!). Janete Clair conseguiu colocar os homens pela primeira vez em frente à televisão para assistir novela, ao lado, é claro, de suas esposas. Os dois casais mais famosos da época estavam em cena: Glória Menezes e Tarcísio Meira e Regina Duarte e Cláudio Marzo. Em 1995, a Globo produziu um remake da novela. Atualmente, pode ser vista em DVD. Curiosidade: durante os doze primeiros capítulos, a abertura ia ao ar com uma música instrumental. Quando João encontra o diamante, surge, pela primeira vez, a voz de Jair Rodrigues entoando a canção tema. Daniel Filho explica que a estratégia serviu para valorizar a canção.

3º Avenida Brasil (João Emanuel Carneiro, 2012)

Com apenas quatro novelas, João Emanuel Carneiro conseguiu o inacreditável: emplacar uma novela, que caiu no gosto popular, e transformá-la em fenômeno cultural em uma época que trama alguma conseguia o mesmo feito. A história de vingança da Rita impetrada contra Carminha seduziu todos os públicos e parou o Brasil em seu capítulo final (coisa que há muito não se via). Uma direção cinematográfica competente, um texto brilhante e um elenco afiadíssimo em criar personagens carismáticos. Saíram as mansões e ricos, entraram os emergentes, a nova Classe C. Foi também a primeira novela viral da internet, com os vários memes criados, os #oioioi do Twitter (em referência à música de abertura), os gifs animados com as caras e bocas de Carminha. Adriana Esteves, em uma interpretação inteligente, defendeu com maestria sua melhor personagem. Débora Falabella não se permitiu ofuscar-se e fez jus à sua protagonista. Murilo Benício voltou a apresentar um bom trabalho. Sem mencionar os inúmeros coadjuvantes. Quantas cenas inesquecíveis: Rita criança abandonada no lixão, Carminha enterrando a rival viva, Nina berrando um “me serve, vadia”, Carminha expulsa da mansão. A novela tinha cliffhanger! Após a exibição, mais cem países compraram os direitos da novela e ela já foi dublada em quinze idiomas. Sem dúvida, um dos grandes trabalhos da TV.

2º Vale Tudo (Gilberto Braga, 1988/1989)

Vale a pena ser honesto no Brasil de hoje? Essa pergunta movimentou a segunda melhor novela brasileira, Vale Tudo. O ano era 1988 e apresentava-se um panorama dos principais políticos. Odete Roitman e Marco Aurélio eram a banda podre e corrupta, ao passo que Raquel e Ivan simbolizavam a vida de milhões de brasileiros, que achavam valer a pena ser honesto. A música tema, “Brasil”, de Cazuza, abria a novela na voz de Gal Costa , denunciando o limite da situação. Raquel (Regina Duarte em seu segundo melhor papel) vive um embate com a filha, a ambiciosa e desonesta Fátima (Glória Pires). Fátima vende a casa da família e foge para o Rio de Janeiro. Raquel vai atrás dela, passa a vender sanduíches na praia e torna-se dona de uma rede de restaurantes, enquanto Fátima dá o golpe do baú. Há ainda personagens inesquecíveis como a alcoólatra Heleninha (Renata Sorrah inesquecível). Dois desfechos marcaram épocas: Fátima se casa com um príncipe italiano (Marcos Manzano), levando na bagagem seu amante, César Ribeiro (Carlos Alberto Riccelli), que também era amante do príncipe; e o corrupto Marco Aurélio foge do país, dando uma banana para o Brasil. Foi a novela que teve o famoso: quem matou Odete Roitman (Beatriz Segall interpretando uma das melhores vilãs de novelas). A novela teve ainda o primeiro relacionamento homossexual feminino da TV. Ganhou até remake latino.

1º Roque Santeiro (Dias Gomes e Aguinaldo Silva, 1985/1986)

Inicialmente, Dias Gomes levaria sua trama ao ar em 1975. Na época, 30 capítulos foram gravados. A censura descobriu que o autor tentava adaptar sua peça teatral proibida para a TV. Dez anos depois, o autor finalmente conseguiu realizar sua obra, agora com a ajuda de Aguinaldo Silva. Roque Santeiro é o embrião de todas as novelas ambientadas no nordeste. Conta a história do retorno de Roque Santeiro à cidadezinha de Asa Brasa, 17 anos após ser dado como morto. Roque é considerado santo milagreiro na região e sua volta ameaça os poderosos da cidade. Sucesso avassalador no país inteiro, a novela explodiu, sendo vista por mais de 80% do público. A novela integrou-se ao dia a dia do brasileiro de maneira absurda e personagens como a Viúva Porcina (o melhor trabalho de Regina Duarte) e o Sinhozinho Malta (composição única de Lima Duarte) fazem parte do imaginário popular. A divisão do roteiro entre os dois autores não foi pacífica; Aguinaldo se expunha na mídia e Dias Gomes via isso como uma afronta, já que ambos escreviam a novela (Dias escreveu 99 capítulos e Aguinaldo, 110). Ambos travaram uma luta pelos direitos autorais, que culminou com o fim da amizade dos dois. Desavenças que não tiraram o brilho da melhor novela do Brasil, lançada em DVD em 2010 e reprisada três vezes!

Agradecimento a toda Equipe do Box e à Gisele que auxiliaram no esforço hercúleo de produzir esse ranking.

Fonte: Teledramaturgia e Rosebud é o trenó.

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