Cartas para deusas

Como o vazamento de uma carta íntima de Madonna revela muito mais sobre as mídias que sobre a diva.

Madonna está feliz no Malaui. Seu rosto não esconde sua imensa satisfação em estar na terra natal de seus filhos adotivos. E, mais que isso, não consegue disfarçar a imensa alegria de entregar um hospital pediátrico a um país tão castigado. Alguns poderão dizer que ela faz isso para chamar a atenção. Madonna parece não se importar com quem afirma isso. Parece estar mais interessada no beneficio que isso trará para as crianças do país; outras crianças que, assim como seus filhos, merecem uma chance de crescerem saudáveis.

Engraçado é que, se você procurar por notícias dessa inauguração nos grandes sites dedicados ao mundo pop, dificilmente encontrará alguma referência. No máximo, uma pequena nota. E não duvide se essa nota relacionar a boa ação de Madonna a um oportunismo. Na semana em que o Malauí ganha um hospital pediátrico, a mídia pop está mais interessada em divulgar uma carta íntima da diva escrita nos anos 90.

Os anos 90 foram conturbados para Madonna. Ela vinha de uma grande turnê, a Blond Ambition, de um grande álbum, o Like a prayer, de um grande hit, a poderosa Vogue. Mas também vinha de grandes perturbações emocionais, com a separação de Sean Penn, o envolvimento com Warren Beatty, alguns amigos bem próximos morrendo vítimas da Aids. As pessoas esperavam muito dela. Ela precisava impactar novamente. E então surge a incursão da loira no mundo do sexo.

Madonna queria questionar a submissão feminina, quebrar os tabus do prazer sexual da mulher e o direito feminino de fazer o que quisesse com o próprio corpo sem ser questionado por isso. Para tal, lança o controverso livro Sex em conjunto com o disco Erotica. Foi um impacto duplo que atraiu olhares do mundo todo e a fez receber adjetivações nada lisonjeiras por parte da mídia. O importante é que a cantora conseguiu, mais uma vez, impactar ao questionar.

Na mesma época, outra loira também impactava o cinema. O surgimento do furacão Sharon Stone e sua célebre cruzada de pernas em Instinto Selvagem mexia com a cabeça dos homens. No entanto, a personagem de Sharon não era transgressora em relação ao sexo. Era apenas mais uma personagem para mexer com o fetiche masculino.

Nas rádios, outra mulher dominava as paradas de sucesso. Whitney Houston emplacava seus hits recheados de romantismo e baladas melosas cantados com sua potente voz conquistava o coração da família americana.

Carta de Madonna

Carta de Madonna

É nesse contexto que Madonna escreveu um desabafo através de uma carta endereçada um amigo, John Echos. Nela, a diva expressa seu descontentamento com Sharon e Whitney. Enquanto ela estava no ativismo, lutando pelo direito da mulher se expressar através de seu corpo e seu sexo, as outras duas eram “colocadas como modelo ideal de virtude e parâmetro de medida”. Na mesma carta, Madonna afirma ter irritado muitas pessoas e, por isso, obrigada a ficar quieta, num canto, ao passo que outras pessoas, menos interessantes, estavam colhendo os benefícios dos caminhos pavimentados por ela.

Menos que falar mal das duas, o que Madonna fez em sua carta era uma constatação de fatos. Sharon e Whitney, diferente de Madonna, não haviam desafiado os paradigmas da época, não usaram seus talentos para atacar o cinismo da sociedade e defender as minorias. Tinham tanto potencial, mas se contentaram em assumir publicamente alguns papéis já estabelecidos pelos empresários, pela indústria do entretenimento e pela sociedade hipócrita e conservadora que as aplaudia. Publicamente, Whitney era a dona de casa talentosa, que não deixaria suas filhas ouvirem as canções da loira por considerá-la péssima influência. Madonna, definitivamente, não se encaixava no papel de bela, recatada e do lar.

Muitos foram apressados em atacar a Madonna que escreveu a carta, acusando-a de ser contra o feminismo e ser ativista de telão. Mas notem que a cantora não divulgou suas ideias em público. Ela fez isso em uma carta íntima. Quando Whitney morreu, Madonna escreveu: “Me lembro dela cantando e ouvindo as pessoas comentando sobre ela e pensava: ‘Oh meu Deus, é uma mulher linda e com uma voz inacreditável. Eu gostaria de cantar assim’. Me lembrei de ser extremamente invejosa e tocada pela sua inocência”. Apenas quem conhece a diva sabe que ela sabia reconhecer um talento superior ao seu e sempre tratou logo de aprender alguma coisa com ele.

No entanto, o vazamento da carta revela mais uma vez a impressa desesperada em colocar uma mulher contra a outra. Recentemente, temos assistido um duelo público incentivado por fãs entre Taylor e Katy, Miley e Selena, Kelly e Christina. E quiseram envolver Madonna mais uma vez em uma treta (já não basta criarem atrito com Britney, Gaga e afins).

Maturidade e elegância

O mais elegante é que Sharon Stone entendeu o tipo de jogo que estava sendo envolvida e veio a público rebater a imprensa. A atriz escreveu:

“Querida Madonna. Primeiro, eu acho absurdo que qualquer um tenha publicado suas cartas privadas. Por esse motivo, eu escrevo publicamente. Sabe que sou sua amiga. Eu desejei ser uma estrela do rock em alguns momentos íntimos… Me senti tão medíocre quanto você me descreveu. Nós sabemos, como as únicas que sobreviveram por tanto tempo, que lidar com a nossa própria mediocridade é a única forma de lidar com nossas próprias forças, de nos tornar tudo o que nos tornamos. Eu te amo e te adoro; não serei colocada contra você por causa de uma invasão da nossa jornada pessoal.”

Mais uma vez, a maturidade e a experiência falaram mais alto. A mídia está sempre muito interessada em transformar as mulheres em rivais. Algumas até aceitam o papel, impulsionadas por seus fãs fervorosos (o recente ataque dos fãs de Anitta à Iggy é um exemplo disso). Madonna, Sharon e Whitney não precisam mais disso. As três estão muito bem estabelecidas. E, antes de comprar todo esse imbróglio, é importante entender que Madonna pavimentou essa estrada. Ela está entregando um hospital. É UM HOSPITAL. Não são roupas, não é leilão, não é campanha. É UM HOSPITAL. Quanto de ativismo há nisso, não nos cabe julgar. Mas, independentemente, Madonna fez. E continua fazendo.

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