Continuum: Viagem no tempo e revolução

A única coisa mais poderosa que o dinheiro é o conhecimento. Através deste espetáculo, despertaremos o público de sua complacência e os ensinaremos a pensar por eles mesmos. A revolução começa aqui.” — Kagame, Edouard

Sem dúvida, uma das melhores ficções científicas no ar atualmente, Continuum é uma ótima surpresa para quem se arrisca a acompanhá-la. Infelizmente, a série não possui tanto destaque ou fama como merece, talvez por se tratar de uma produção canadense. Mas não pense que a falta de notoriedade tem relação com sua qualidade, pelo contrário, a série mantém um nível bem alto e cativa quem quer que seja, mais ainda por seus personagens. Mas não somente isso, a série brinca com temas um pouco delicados e conflitantes, onde o bem e o mal são colocados em questão.

Continuum_1

Toda a trama gira em torno de Keira Cameron, uma policial do distante ano de 2077. Neste tempo, o mundo é governado pelas grandes corporações com mão de ferro, onde o governo existe somente para beneficiar quem tem dinheiro, a vida de cada é monitorada por estas empresas e a guerra social entre pobre e ricos está mais forte. Neste cenário há o Liber8, um grupo que luta contra este governo tirano de maneiras terroristas, tentando trazer a democracia e liberdade de volta ao povo. Em um ataque planejado, o líder do grupo, Kagame, utiliza um aparelho para viajar no tempo de volta para 2012 e exterminar este governo antes mesmo dele nascer, só não contava que traria ao nosso tempo junto deles a policia Keira. Agora ela luta contra a Liber8, com a ajuda de Alec Sadler, um jovem que no futuro será a pessoa mais importante no campo tecnológico.

Olhando para a ideia principal da trama, não parece ser algo além de tudo o que pode se encontrar por aí. Viagens no tempo é um tema recorrente em diversas tramas e todo mundo já topou com várias. Além disso, há centenas de clichês que envolve esta ideia principal, o que deve causar medo a quem pensa em chegar perto desta atração. Indo na contramão, a série trabalha com os clichês da trama de forma incrível, fazendo esquecer que eles existem. É exatamente isso o que mais chama a atenção primeiro. Além disso, tudo trata logo de cativar com a protagonista, fazendo o espectador aceitar seu objetivo e torcer por ela, por mais que ela represente um governo terrível. Ela apenas quer que o futuro não se modifique e voltar para a sua família, nada mais.

Continuum_2

Mas o grande mérito da trama ao longo de sua primeira temporada é abolir o típico papel de vilão e mocinho. É impossível não se sentir cativado pelos ideais da Liber8 quando seu líder, Kagame, dá as caras. São os antagonistas da série que lutam pela liberdade, enquanto a protagonista luta para manter o futuro como está, com suas devidas razões. É neste momento que o espectador se sente divido entre sentir compaixão por Keira ou aceitar a revolução da Liber8. Por mais que o grupo tenha métodos terroristas, seus atos contra as grandes corporações, o governo e todas as suas fraudes fazem deles o salvador da população.

Não somente isso, a maneira como a série trata as questões da viagem no tempo é outro grande ponto forte. Em nenhum momento fica esclarecido se as atitudes dos personagens no tempo atual modificam o futuro ou se tudo faz parte do destino. E, claro, a série comete outro sucesso em cutucar o espectador em se questionar sobre isso o tempo todo. Mas seus momentos grandiosos são quando um evento da história não é impedido, quando os personagens se colocam a questionar se devem continuar lutando ou não, já que não parece ter efeito sobre o andamento da história e estão todos amarrados pelo destino inevitável.

Seus personagens principais são bem elaborados, mas os secundários são uma pequena falha da trama. Imersos em clichês básicos e até mesmo uma leve dose de estereótipo, mas isso não os diminui nem um pouco. O próprio roteiro trata de trabalhar eles de forma que quem assiste se esquece deste ponto e consegue ficar cativado por eles. Mas é inevitável que três personagens ali presentes sempre roubam o palco.

Continuum_4

Kagame é o maior deles, sempre que aparece para discursar os ideais da Liber8 é uma emoção gigante. Um discurso revolucionário que consegue fazer a população adotar a causa e lutar contra o governo e as grandes corporações. Fora seu grande conhecimento e charme que sempre carregam as multidões. Keira e Alec, por serem os personagens centrais, sempre tem um pouco a serem explorados. Seja um questionamento, um conflito interno, a saudade da família e o medo do futuro.

E sua segunda falha é a maneira procedural que uma parcela dos episódios segue. Todos eles têm a sua relevância e contribuem ao menos um pouco para a trama central, mas são histórias em paralelo que dificilmente se juntam ao arco principal da trama. Porém, são ótimas de se acompanhar, em nenhum momento estes episódios estragam a diversão de acompanhar.

Infelizmente, vários destes elementos foram deixados um pouco para trás na segunda temporada. A própria Liber8 está fragmentada em discursos e guerras entre si. Enquanto isso o lado emocional dos protagonistas estão mais a frente, ao mesmo tempo que as questões sobre tempo moveram para o fundo, mesmo depois da gigantesca revelação que aconteceu no fim da primeira e início da segunda.

Uma pedra lançada em uma praia pode se tornar uma tsunami no outro lado do mundo. Você, Alec, é esta pedra. E eu estou observando, da praia, no outro lado do tempo, a tsunami vir.” — Kagame

Em sua terra de origem a série conquistou uma legião gigante. É fácil de se notar ao entrar em seus blogs e sites que realizam um jogo entre os fãs, nos mesmos moldes de Lost, até mesmo um fórum onde os membros da Liber8 se reúnem para elaborar seus planos, além de outras mídias como uma história em quadrinhos. Para tristeza dos fãs muito disso é inacessível por pessoas fora do Canadá, ao tentar entrar em algum deles você pode encontrar uma bela mensagem de “Este conteúdo está inacessível para o seu território”.

Continuum é uma ótima série, inevitável. Sabe lidar bem com tudo aquilo que apresenta, personagens cativantes, até mesmo efeitos especiais que são um show a parte. Muito bem estruturada e ótima de se acompanhar. Para fãs de ficção científica é mais do que um prato cheio, para outro tipo de público ainda é uma história boa que não deveria deixar de lado.

Sobre o Autor

Avatar

BOXPOP

Site especializado em cultura pop, fundado em agosto de 2007. Confira nossos podcasts, vídeos no youtube e posts em redes sociais. Interessados em contribuir como autor no site podem entrar em contato: contato@boxpop.com.br

Deixe um comentário

clique para comentar

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

OUÇA O BOXCAST

VIDEOCAST

Lidio Mateus, o brazilian singer da internet, comenta todos os bafos e segredos de sua carreira.

Tem série nova na HBO e os bastidores dela foram recheados de TRETAS. A gente conta todas neste vídeo.

Esse é o filme que vai ganhar o Oscar de filme estrangeiro. Neste vídeo comentamos Parasite. Assista!

SEJA UM PADRINHO!

Contribua!

OUÇA ACABEI DE LER