Cult: a série do CW dentro da série do CW

Ousadia sempre representou a marca registrada de canais a cabo na indústria televisiva americana. Prova-se isso ao analisar o número de séries para o público mais maduro em tais canais; sempre abusam do sexo, palavrões, violência e outros elementos que apenas emissoras selecionadas eram permitidas a explorar.

O ano de 2013 inicia um pequeno marco na TV aberta, com uma leve infecção da mesma ousadia no grande público em seu horário nobre. The Following se consagrou como a pioneira da mínima revolução (leia O que achamos de The Following: Suspense, internet e assassinatos em série!), e mesmo apresentado uma premissa extremamente similar com a produção de Kevin Williamson, a CW lançou Cult, uma série com enredo de TV privada, abordando assassinatos, cultos sanguinários, conspirações doentias recheados com um suspense que entretém.

cult-tv-poster34

O jornalista investigativo Jeff Sefton (eternizado como Alaric ) aprendeu a não se importar pelas obsessões de seu irmão Nate, especialmente quando ele afirma que um show de TV de sucesso está prestes a prejudicá-lo. Entretanto, Nate desaparece misteriosamente, o que leva a Jeff a investigar a série Cult e seus fãs.

A única pessoa disposta a ajudar Jeff em sua busca é Skye, uma jovem assistente, que também parece suspeitar dos acontecimentos recentes ligados à produção. A narrativa da série é centrada no jogo de gato e rato entre o líder de culto carismático, Billy Grimm, e o detetive Kelly Collins, algo que se tornou uma obsessão entre a audiência. Parece que alguns dos fanáticos levaram a história a sério, o que leva a acontecimentos extremos no mundo real; Cult ultrapassa as barreiras da ficção e se arquiteta cada vez mais na realidade

Essas coisas fogem do controle. — Nate

cult-cw-600x336

Cult é inteligente, e eu ainda não sei dizer o porquê disso. Talvez minhas considerações sobre a sagacidade da série tiveram suas raízes na leve crítica social que fora implantada de forma clara: o poder de persuasão da TV sobre mentes frágeis. Mesmo assim, sua inteligência não é fruto disso, e ainda que tal alfinetada tenha sido ótima, os méritos não são poucos.

Carisma de personagens, dinamicidade, suspense satisfatório e conversações ligeiras se mostram um conjunto infalível contra o arrastar duro e o fluir difícil do episódio.

Aplausos para a equipe por trás de Cult, tanto diretor quanto roteiristas. A escolha de seus atores foi impecável, cada um deles trazendo a essência certa para cada tipo variado de cena. Uma grande competência também é uma das qualidades das mentes por trás do roteiro; mesmo com diálogos simples, nada filosóficos ou poéticos, é possível ser cativado pela simplicidade.

A trama dividida em duas camadas é o que culmina na dinâmica. Acompanhamos Jeff e Skye (dupla com química ótima, por

content_pic (1)

sinal) na iniciativa de investigação em cima do programa enquanto no plano ficcional do ficcional temos um jogo gato e rato se desenvolvendo entre Bill e Kelly. De fato, as cenas são encaixadas de forma eficaz e soaram minunciosamente calculadas para o estabelecer do mistério. Quando um cliffhanger era deixado no plano “real”, o corte para a camada ficcional aterrissava e se despedia também com um gancho para exploração tardia. A atenção mantinha-se constante durante todo o episódio, o que já engloba o elemento que citei entre as qualidades: suspense intrigante.

Ao considerar minha avaliação do piloto acima, supõe-se que nem tudo foi um mar de rosas e um piloto digno apenas de elogios. E não foi. Generalizando, as maiores críticas no piloto de Cult foram duas: fator non-sense/confusão e ausência de um grande acontecimento. Não importa o quanto gostei do piloto, sou bem franco ao apontar defeitos de séries que gosto (aprendam, fãs ignorantes e fanáticos) e não posso negar que Cult foi vítima de defeitos e sofreu com os mesmos. As críticas são sensatas, porém dependentes de cada ponto de vista.

Sim, o roteiro brincou com a confusão. Tal jogo tão ambíguo pode ser perigoso e ao mesmo tempo cativante. Algumas informações são jogadas ao público e a troca de cenas ocorrendo de forma rápida podem sim interferir no entendimento de alguns pessoas e não, ele não é um recurso pouco usado. Um exemplo disso: American Horror Story em seus episódios iniciais (tanto o piloto quanto o primeiro de Asylum) abusam, desabusam e abusam de novo desse efeito. Pretty Little Liars também tem esse trunfo na manga como a receita de fazer suspense. Particularmente, amo esse efeito ‘what?’ pra criação de um efeito mais misterioso.

cult

Já dizia meu cardiologista que tudo em excesso é ruim. Não se pode aproveitar só disso para criar suspense e cair no uso vicioso da brincadeira, como Pretty Little Liars faz e se estabelece na qualidade duvidosa atual. Pessimismo não é uma característica forte minha, mas analisando a CW em suas decisões, sabe-se que a emissora espreme fórmulas até que elas se desfaçam… Cautela é indispensável.

O que estilhaçou uma estrelinha dourada na avaliação de Cult foi a ausência de algo maior. Teoricamente, Cult não deixou um porquê para acompanhar a série em sua próxima semana.

Alguns dirão que os 3 ou 4 minutos finais podem ser classificados como ganchos para exploração futura e muitos dirão que aqueles pequenos eventos foram o grande ‘boom!’ do episódio. Sim, foi um pouco dos dois, mas o nome dessa enigmática mistura é bolha. O que vimos ao final não foi um ápice ou uma explosão de fatos, tudo foi uma reciclagem “sensacionalista”.

A bolha é o ultimato final onde tudo é angustiante e surpreende e é empurrado abaixo de nossa garganta com um gosto enganador de que todo o episódio tenha isso super elaborado, ou seja, uma experiência ótima. Ignora-se o fato do episódio todo ter sido chato para alguns e excelente para outros; a maioria sai satisfeito com um final traiçoeiro.

Você é o próximo! — Bill

Em suma, Cult cumpriu seu papel entre acertos e erros. Os personagens foram apresentados e levemente aprofundados, as promessas se estabeleceram e o potencial foi mostrado. Como uma série de apenas 13 episódios, o principal objetivo é manter-se ágil, sem lenga-lenga e uma abordagem direta no assunto. Se tratando de uma série sobre cultos e assassinatos, a presença da violência e um suspense mais intrigante tem de manter-se constantes para que tudo não se passe de algo bem light para o que é proposto.

É certo a força da série ficou, em grande parte, no papel, uma vez que o piloto apenas pincelou os assuntos que serão abordados e aprofundou-os bem superficialmente. O potencial nós vimos e Cult tem uma vida promissora, mas a imprevisibilidade da CW pode guia-lá de duas maneiras: levando-a para um patamar de qualidade elevadíssimo. Ou levando-a para cavar sua própria tumba.

cult_key_art_003_FULL

Observação do colunista: Você não é o único que achou Cult um plágio de The Following. Primeiramente, antes de você acusar algum funcionário da CW de ter furtado a mochila e dado uma bisbilhotada no roteiro de Kevin Williamson enquanto ele estava distraído com The Vampire Diaries, saiba que Cult era um projeto da THE WB e foi engavetado quando o canal virou nossa diva e deusa CW.

Ou seja, se você guardou o veneno durante o texto todo pra encher o peito e defender The Following, meu riso diabólico pra você, meu querido leitor.

Observação do colunista #2: Acredite no poder da bolha; enquanto assistia The Following, a decepção me acompanhava, mas o final fez tudo parecer excelente. O efeito foi passageiro; já no segundo episódio tudo desvaneceu e abandonei-a essa semana… Ops, acho que acabei de descobrir parte da inteligência de Cult.

Sobre o Autor

Avatar

BOXPOP

Site especializado em cultura pop, fundado em agosto de 2007. Confira nossos podcasts, vídeos no youtube e posts em redes sociais. Interessados em contribuir como autor no site podem entrar em contato: contato@boxpop.com.br

Deixe um comentário

clique para comentar

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

OUÇA O BOXCAST

VIDEOCAST

Analisamos o feed de Instagram da dona do pop.

A poc de Cavaleiros do Zodíaco será mulher em remake da Netflix.

Confira o que achamos da versão ilustrada de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban em português.

SEJA UM PADRINHO!

Contribua!