Das 100 músicas mais tocadas nas rádios brasileiras em 2016, só 9 não são sertanejas

Às vezes jogar 50 reais na cara de alguém vale mais que mil palavras

Tenho uma pergunta para você. Você que não anda muito de carro, não tem rádio em casa ou alimenta os ouvidos só pelo YouTube e Spotify: você tem consciência de que a música sertaneja tomou o poder no Brasil?

O Marco Antonio Barbosa fez um texto excelente aqui no Medium — um poderoso abridor de olhos daqueles que, sutilmente, te impactam sem pedir licença. Há um novo boom da música “sertaneja” no país que está enterrando os outros gêneros. E a lista das 100 canções mais executadas nas rádios em 2016 não deixa dúvida: tá tudo dominado.

A primeira música não-sertaneja que consta no ranking é “Cancún”, de Thiaguinho, em 20°. Em 52° lugar, com o reggaeton pop “Sim ou Não”, vem Anitta em parceria com o colombiano Maluma. Ela e Thiaguinho são os únicos artistas fora do sertanejo a emplacar mais de um hit na lista. O sucesso “Bang”, single do terceiro álbum da musa carioca, lançado em 2015, aparece em 91° lugar.

Anitta é um dos nomes de maior exposição da música nacional no momento. Logo, não é difícil ficar chocado com esses dados a primeira vista. A verdade é que ela e a sua arte encontram terreno no gosto de uma parcela jovem, urbana e cibernética do público que consome música no Brasil. E ainda assim, ela não está disputando esse território sozinha.

O hit “Infiel”, de Marília Mendonça, foi a segunda música mais executada nas rádios em 2016. O vídeo no YouTube tem 254 milhões de visualizações, só 10 milhões a menos que “Bang”. Se na internet Anitta é rainha, nas rádios ela é, com muito esforço, uma baronesa. Como eu contei aqui esses dias, ela é inteligente e soube correr atrás do prejuízo.

Dos 53 milhões de brasileiros ouvintes de rádio, 28% estão entre os 30 e 39 anos, segundo pesquisa da Abert. 65% escutam rádios em aparelhos convencionais. Isso significa que a presença massiva dessa mídia, especialmente fora das grandes metrópoles, deu a esse novo momento do sertanejo envergadura para ser um fenômeno universalizado, para todas as idades, cidades e plataformas.

Wanessa saiu das músicas eletrônicas em inglês e apareceu entre as 100 mais de 2016 com a sofrência “Coração Embriagado”

Não foi a toa que as irmãs Simone & Simaria e Wanessa (agora novamente Camargo) largaram seus ritmos originais — o forró e o pop, para embarcar nessa onda. Especialmente no caso das mulheres, havia uma brecha de mercado que Paula Fernandes não foi capaz de suprir sozinha quando apareceu em 2011. E a tendência é que cada vez mais mulheres apareçam para engrossar essa estatística.

Numa estratégia que parece ser inspirada no foquismo de Che Guevara, as gravadoras encontraram em incontáveis duplas e solistas a matemática perfeita da pulverização de vários sucessos diferentes para lugares diferentes do Brasil, juntas em diversas parcerias em CDs, DVDs e videoclipes, que versam sobre chifre, balada e pegação. É tanta gente que às vezes sabemos a letra de cabo a rabo sem ao menos saber quem está cantando.

Na música internacional, o buraco é ainda mais embaixo. Os únicos gringos da lista são Justin Bieber, em 66° lugar com “Sorry” e Ed Sheeran, com “Photograph” em 76°. O excesso de Jovem Pan e Mix FM podem até nos alienar, mas os dados não mentem: os artistas internacionais estão carentes de penetração na grande massa brasileira. Quando muito, estouram com uma música que foi trilha sonora do casal principal da novela da Globo (e tem que ser das 7h ou das 9h).

Além das músicas de Bieber, Sheeran, Thiaguinho e Anitta, completaram a lista da resistência: “Dependente”, do Sorriso Maroto (77°), “Bom”, de Ludmilla (87°) e “Deixa em Off”, da Turma do Pagode (98°).

Marília Mendonça e Henrique & Juliano: parcerias ampliam raio de alcance dos artistas

Essa dominação do sertanejo universitário é fruto da democracia que a internet estabeleceu na indústria cultural, onde o público tem mais poder de demandar o que a grande mídia vai fazer bombar. Arrebatando festivais lotados pelo Brasil, agradando gaúchos e goianos, paraenses e paraibanos, os caras e as moças carregam para onde vão legiões de fãs, entre caipiras e geeks.

Se muito se falava em 2010 que isso era apenas um fenômeno de nicho, 2016 provou que mesmo numa nação de dimensões continentais, é possível unificar a audição de um país em torno de um estilo musical. O ano passado nos proporcionou 91 motivos para não duvidar disso.

E você? Também curte um modão ou dirige com o som desligado?

Sobre o Autor

Avatar

BOXPOP

Site especializado em cultura pop, fundado em agosto de 2007. Confira nossos podcasts, vídeos no youtube e posts em redes sociais. Interessados em contribuir como autor no site podem entrar em contato: contato@boxpop.com.br

Deixe um comentário

clique para comentar

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

OUÇA O BOXCAST

VIDEOCAST

Lidio Mateus, o brazilian singer da internet, comenta todos os bafos e segredos de sua carreira.

Tem série nova na HBO e os bastidores dela foram recheados de TRETAS. A gente conta todas neste vídeo.

Esse é o filme que vai ganhar o Oscar de filme estrangeiro. Neste vídeo comentamos Parasite. Assista!

SEJA UM PADRINHO!

Contribua!

OUÇA ACABEI DE LER