Dercy de Verdade… ou parte dela!

Dercy Gonçalves foi uma pessoa fascinante. Ou melhor, ainda é. Pois uma pessoa como Dercy nunca se vai totalmente. Alguém assim, com uma carreira de 86 anos, que se cruza com a própria criação e história do entretenimento brasileiro, merece ter sua vida eternizada. Uma pena que Dercy de Verdade não seja a homenagem que ela merecia.

É louvável que a Rede Globo, uma emissora tão tradicional e com uma programação extremamente rígida, ouse em novos formatos. Até alguns poucos anos atrás, minisséries na Globo significavam basicamente novelas curtas, podendo durar mais de 40 capítulos.

Hoje em dia, esse formato foi transformado nas novelas das 23h, com duração de 60 episódios. A emissora passou a experimentar formatos de 13, 8, até 4 capítulos, que permitem um texto mais conciso, enxuto, sem enrolação, e uma produção mais bem-cuidada. Só que cada história necessita de um formato e duração diferentes. O primeiro grande erro de Dercy de Verdade foi tentar mostrar esses 103 anos de vida, e 87 de carreira, em apenas 160 minutos.

Apenas 2 horas e 40 minutos para contar a história de Dercy acabou gerando um roteiro extremamente picotado, sem uma história contínua que ligasse os eventos e fizesse sentido. Uma das funções de uma biografia é mostrar a fundo quem foi a pessoa, como foi a sua criação, os eventos que a moldaram e transformaram na personalidade que o grande público conhece. Dercy de Verdade passa pouquíssimos minutos mostrando a infância e vida familiar de Dercy. Ao invés disso, decide pular quase que diretamente para o início de sua vida profissional. Os conflitos familiares, a razão por Dercy ter ganhado a fama de puta desbocada que, mais tarde, usaria nas suas apresentações no teatro, nada disso é mostrado a fundo.

Esse ritmo, que consequentemente prejudica a edição do programa, segue-se por toda a minissérie. Não vemos as dificuldades na vida de Dercy. De suas tentativas e decisões como, por exemplo, iniciar um show próprio, já pulamos para o resultado. As próprias escolhas dela não são justificadas, pois o seriado não nos mostra a fundo quem ela é, não a ponto de explicar porque a atriz faz o que faz. Uma pena, pois a vida dela é fascinante e as suas dificuldades até conseguir finalmente se consagrar no palco merecem ser contadas.

Essa pressa não se dá somente pela curta duração da minissérie. Maria Adelaide Amaral, responsável pelos roteiros, poderia ter focado apenas em parte da vida de Dercy, ou contado sua história a partir de um foco específico. Mas decidiu, dentro da homenagem à artista, focar grande parte do tempo em histórias engraçadas, mas não relevantes, e em cenas de peças e espetáculos.

Chega a incomodar o tanto de vezes em que a minissérie alterna entre cenas de diálogos e cenas de Dercy cantando, atuando, ou contando histórias. Se podemos assistir a própria Dercy em gravações de suas obras, porque uma minissérie que se propõe a contar a vida da atriz passa tanto tempo reconstituindo suas atuações? Ocupa tempo, empobrece o resultado final e tira o ritmo do programa.

Acredito que há uma ótima obra a ser feita contando a evolução do entretenimento no Brasil, do teatro tradicional e de revista do começo do século XX, passando pelos shows de variedade, o rádio e nascimento da TV. É uma ótima história, esquecida pela maioria das pessoas e, nesse ponto, foi excelente ver em Dercy de Verdade parte dessa evolução. Mas, ao alternar o foco tanto entre a vida pessoal e a artística da atriz, o seriado acabou virando uma dramatização pobre de ambos os lados.

O roteiro peca também por praticamente ignorar a vida de Dercy Golçalves pós-ditadura. Suas dificuldades financeiras, seus programas em outras emissoras e a transformação de maior humorista do país para apenas uma “velha desbocada”, como muitos a viam nos últimos anos, é parte importante da sua história e seria, certamente, mais interessante do que outras histórias que a série preferiu mostrar.

Fora o foco narrativo, não há muito o que criticar. Heloísa Périssé está excelente como a jovem Dercy, não apenas imitando a atriz, mas criando uma personagem própria que, mesmo assim, lembra em muito os trejeitos de Dercy. Fafy Siqueira, que faz Dercy mais velha, também é competente, apesar de, por vezes, parecer brusca e grossa demais.

O restante do elenco é competente, mas sofre do mal da maioria das produções da Globo: escalação extremamente repetitiva e, por vezes, com atores que não combinam perfeitamente com o personagem (Samara Felippo, por exemplo, interpretando uma adolescente 14 anos depois de ter estrelado Malhação). Já a reconstituição de época, produção e música são extremamente bonitos apesar de, de novo, relembrarem muito algumas outras produções de época da emissora, como a novela Chocolate com Pimenta.

Devido à sua grade fechada, há muitos anos, a Rede Globo relega suas excelentes minisséries, biografias de artistas e seriados para o final do horário nobre, impossibilitando que suas excelentes obras sejam assistidas pelo grande público. Apesar de tudo, Dercy de Verdade merece ser vista, sim. Somos um país fincado na tradição das novelas e ainda engatinhamos na produção de minisséries e seriados. Mas aprendemos cada vez mais e fazemos programas cada vez melhores.

Dercy de Verdade não é uma minissérie ruim, apenas esquecível e aquém dos padrões de qualidade da emissora que a produziu. Com um roteiro decepcionante e um enfoque questionável, nem preciso dizer que uma pessoa como Dercy Golçalves, com um século de vida e quase isso de carreira, merecia muito mais!

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