Deus precisa salvar mais que o rei

Colírio para os olhos, Deus salve o Rei derrapa no texto.

Bastou apenas alguns minutos no ar para entender o investimento pesado que a Rede Globo fez em Deus salve o rei. Com cenários de tirar o fôlego, a nova novela das sete foi um grande acerto visual. É maravilhoso perceber que uma emissora brasileira consegue um nível de produção tão elevado em sua dramaturgia.

Mesclando imagens reais gravadas em diversos países com computação gráfica, os cenários de Deus salve o rei encantam pela plasticidade da ilusão do real. Fica complicado acreditar que boa parte daquelas tomadas aéreas não passam de efeitos visuais criados em computador. O cuidado foi tão grande que a novela teve seu primeiro capítulo exibido em salas cinematográficas, algo inédito para a teledramaturgia brasileira.

Além das imagens, os cenários dos reinos também encantam. Toda construída em estúdio in door, o que garante um controle total das condições climáticas a serem emuladas, a cidade cenográfica abrange os dois reinos fictícios da novela, Montemor e Artena. Os figurinos também são um universo à parte e impressionam pela riqueza de detalhes.

No entanto, de que adianta todo esse potencial visual e produção impecável se o principal, que é o texto, deixa a desejar. Daniel Adjafre construiu uma trama maior até que interessante e ecológica: a escassez de água. No entanto, isso foi abandonado logo nos primeiros capítulos para dar lugar a um dos maiores clichês das narrativas: o amor entre um nobre e uma plebeia.

Aliás, esse é um dos maiores problemas de Deus salve o rei: o texto soa clichê e datado. E comete o crime de levar-se a sério demais. Tudo soa como uma grandiloquência que os diálogos não dão conta. Chega a ser constrangedor ver atores como Marco Nanini declamar aquele texto quase primitivo.

Outro fator que pesa demais contra a novela é o elenco mais novo. Estão praticamente todos extremamente ruins. Rômulo Estrela não consegue convencer como o monarca Afonso. Sua química com Marina Ruy Barbosa é praticamente nula. O romance de ambos aposta no amor à primeira vista, mas soa tão artificial e forçado que não dá para acreditar no sentimento. E somam-se as atuações insossas dos dois atores e tudo fica superficial.

Mas ninguém supera Bruna Marquezine no quesito péssima interpretação. Na tentativa de parecer uma vilã, cheia de más intenções, Bruna soa robótica, engessada e mecânica. Sua personagem até que é interessante e nas mãos de uma Aline Moraes ou Marjorie Estiano, talvez ofereceria algum interessa. Mas o trabalho de Bruna afugentar e faz o espectador implorar para que ela saia logo de cena.

Apenas Johnny Massaro acertou o tom em seu Rodolfo fanfarrão, descompromissado e irresponsável.

As possíveis comparações a Game of Thrones, geralmente feitas antes da estreia, foram logo dissipadas e ficaram apenas na abertura: minimalista igual à série da HBO. Alguns chegaram a comparar as cenas de luta com as de Vikings, mas não podem ser associadas, até por conta do horário em que Deus salve o rei vai ao ar.

Deus salve o rei tinha tudo para trilhar os caminhos vitoriosos de sua ancestral Que rei sou eu?. Porém, ao apostar no drama solene e mal feito, derrapou feio e tem amargado na audiência. Nem a futura entrada de Tatá Werneck como esposa de Rodolfo segura o espectador. A Globo tem um grande problema nas mãos. Tanto investimento para morrer na praia?

Sobre o Autor

José Francisco

José Francisco, o Xico, é um apaixonado por filmes, séries, Madonna e funkos pop, não necessariamente nessa mesma ordem. Professor e nerd em tempo integral, cantor nas horas vagas, escreve para o Box desde setembro de 2012.

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