Dexter — Esfaqueando a sociedade

Parece até fácil apontar as sujeiras dentro da nossa sociedade — a qual se diz tão moderna e humanitária. O problema mesmo é encontrar argumentos que justifiquem tais críticas.

Se vocês pararem para pensar, muitas séries de TV trazem essas alfinetadas incrustadas em sua narrativa de uma maneira bem sutil, quase imperceptível. Porém, existem outros shows — poucos, infelizmente — que têm como foco principal essa amostra da verdadeira face da população, bem como suas mazelas, seus defeitos, suas fraquezas, etc.

E por que eu começo um texto sobre Dexter falando a respeito de como a nação é defeituosa? Porque a história do serial killer mais famoso da atualidade é, acima de tudo, um retrato muito bem humorado e ácido da sociedade contemporânea. Algo bem parecido com as obras de Allan Ball eu diria, mas que agora, é mostrado a partir de um ponto de vista singular, de alguém que não tem obstáculos sentimentais para não fazer críticas, de alguém que veste a carapuça do convívio social e não nega, de alguém que se prova a viver sob as regras impostas pelos próprios regrados. Dexter faz com que ríamos de nós mesmos… e isso é um elogio a essa obra magistral.

Quando eu comecei a ler o livro do Jeff Lindsey, Dexter — A mão esquerda de Deus, eu poderia jurar que isto seria apenas uma retrospectiva da primeira temporada da excelente série homônima do canal Showtime. Ledo engano. O livro que deu origem ao programa mais cultuado dos últimos anos não somente possui todos os elementos característicos a quem já assiste ao show, como também consegue te colocar dentro da mente de Dexter Morgan de uma maneira única, um tipo de aprofundamento psicológico que só quem se joga de cabeça nas páginas entenderá.

A história em si é, basicamente, a vista na primeira temporada da série e para quem não conhece, aqui vai uma básica introdução: Dexter Morgan trabalha como perito (especialista em sangue) na polícia de Miami. Ele é, aparentemente, como qualquer outro cidadão normal, tem sua casa, família, emprego, amigos, etc. Porém, tudo isso não passa de uma fantasia que ele veste para esconder sua verdadeira personalidade, alguém que jamais seria aceito pelos demais: a de um serial killer. E por ser um, não pense você que ele sai por aí matando quem ele tiver vontade somente para saciar sua sede. Dexter possui um código de conduta, um modo operandi chamado “Código de Harry”, que lhe foi ensinado pelo seu pai adotivo, Harry Morgan, quando este notou a particularidade de seu filho ainda criança.

O “Código de Harry” impede que Dexter escolha suas vítimas ao acaso. Como seu pai era um policial, este ensinou ao pequeno Morgan que só se deve matar quem merecer, ou seja, aquele que prejudica de alguma forma o bem-estar das pessoas. E foi assim que conhecemos a primeira vítima de Dexter apresentada no livro, um padre pedófilo, situação que realmente é de deixar qualquer um com vontade de fazer justiça com as próprias mãos. Por isso é de se esperar que você comece a idolatrar um homem que mata os seus comuns, fato que para a maioria, é inaceitável.

Essa fácil aceitação de algo mal visto é que te deixa mais boquiaberto, e Jeff Lindsay merece todos os méritos por mostrar o lado “do mal” de um jeito tão convincente que às vezes muda quaisquer preceitos ideológicos e humanitários do leitor ou do telespectador. Porque Dexter tem um carisma tão grande, e ele apresenta razões tão consistentes em relação aos seus atos, que quando se nota, você está torcendo e vibrando quando ele está esquartejando uma vítima.

Os outros personagens são também de suma importância a obra, afinal são deles que provêm as ácidas críticas de Dexter. Por falar nisso, é bom lembrar que o livro é narrado em primeira pessoa, o que facilitou a subjetividade da trama, mostrando assim o que se passa na mente do Morgan.

The Ice Truck Killer, Deb, Rita, La Guerta, Doakes e muitos outros já conhecidos pelos fãs da série se encontram na trama do livro, e percebe-se que os produtores adaptaram da forma mais fiel possível a história original. Tanto é que nem me incomodou o fato d’eu imaginar os atores ou ambiente do programa ao folhear das páginas.

Dexter, por possuir esse vício de matar, diz-se desprovido de sentimentos e, por isso apresenta pensamentos racionais em relação ao comportamento da sociedade. Ele tem uma incrível habilidade de observação, que junto a sua mania de perfeição, nos dá uma clara e verdadeira análise do jeito de ser das pessoas, mostrando que as verdadeiras estranhas são elas. E que ainda, elas não se diferem muito dele, afinal mentir, sorrir para agradar, usar máscaras para esconder características não tão aceitas pelos demais, entre outros quesitos que já fazem parte dessa “festa à fantasia” que é o nosso meio, não são elementos que encontramos apenas em Dexter Morgan, ele só tem o trabalho de nos tapear com sua luva de pelica.

Dexter — A mão esquerda de Deus é um livro essencial para qualquer fã do personagem. Ele já está disponível em várias livrarias do Brasil, assim como suas continuações.

E antes d’eu dar adeus, quero dizer obrigado a todos os que leram, acompanharam e/ou comentaram a The Box Is On The Table, já que devido a motivos de força maior, esta é a última edição que escrevo. Eu só tenho a agradecer a lindona da Ana e aos demais colegas daqui do Box de Séries, que é, sem dúvida, o mais completo e criativo portal sobre seriados de TV da internet. Agora fiquem com meu tchau… e até a próxima, cults!

Sobre o Autor

BOXPOP

Site especializado em cultura pop, fundado em agosto de 2007. Confira nossos podcasts, vídeos no youtube e posts em redes sociais. Interessados em contribuir como autor no site podem entrar em contato: contato@boxpop.com.br

Deixe um comentário

clique para comentar

OUÇA O BOXCAST

VIDEOCAST

Confira o que achamos da versão ilustrada de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban em português.

Wanessa tá de clipe novo. E o clipe define o que "é ruim mas é bom".

The Handmaid's Tale voltou!!! O que rola de novo nesta temporada? Descubra mas SEM SPOILER!

SEJA UM PADRINHO!

Contribua!