Do porquê Emerald City me intrigou

Precisamos falar de uma cidade de Oz que mais parece o mundo real.

É difícil mexer com um clássico sem quebrar alguns ovos. Esse era o meu maior medo com Emerald City.

O Mágico de Oz e todos os seus desdobramentos no cinema, na literatura e no teatro chamam atenção, mas é a primeira vez que uma premissa tão audaciosa ganha vida sem ter receio de chocar.

Vejam bem: o livro de L. F. Baum foi escrito em 1901, o filme estrelado por Judy Garland estreou em 1939, e Wicked (o livro) foi lançado em 1995. São eras completamente diferentes, com problemas e contextos bem distintos, mas a transcendentalidade desse universo ganhou formas que alimentaram muito bem o desejo do público. Não apenas uma obra de entretenimento, mas Emerald City traz a revitalização desse sentido questionador que a Cidade de Oz e seu idealismo fantástico carrega — com uma boa pitada de cultura pop.

Não é novidade para ninguém que estamos no meio de um tornado, que tem deixado nossas crenças de pernas para o ar. Um dos apontamentos da história de Dorothy Gale é a dualidade entre mágica e ciência. O que conhecíamos até aqui eram as aventuras da moça do Kansas pela Cidade das Esmeraldas, mas a série expande o olhar para o povo de Oz, principalmente as mulheres.

Exatamente

A personagem Tip luta contra a feminilidade recém descoberta, e se depara com dois modelos de ser mulher: a manipuladora e comedida Glinda, a bruxa boa do Norte, e a realista e hedonista Bruxa Ocidental.

É o primeiro indício de que as mulheres são subjugadas em Oz. Não é para menos que o Mágico quer suprimir a magia, dominada pelas bruxas da cidade. Ou seja, elas são sujeitas aos caprichos do homem no comando, controladas sob a coerção, medo e violência física. É o mundo de hoje: mulheres ainda precisam marchar e bradar pelos seus direitos, enquanto salários ainda são desiguais e portas nem sempre são abertas.

“Minha única escolha como uma menina é freira ou prostituta?” — Tip

Do que adianta anos de pesquisa sociais e científicas, provando que as mudanças climáticas afetam a vida humana, desconstruir as questões de sexualidade e gênero, quando ainda há pessoas que se recusam a acreditar? É a ciência duelando com a magia, com a crença. Em Emerald City, o Mágico usa a ciência para esconder sua impotência e promover a luxúria, enquanto a magia liga o povo aos seus costumes e ajuda a compreender o mundo, dá liberdade de pensamento. Isso não beneficia o líder do Estado, então deve ser suprimida.

A reflexão aqui é simples: ciência e magia, tecnologia e fé, podem coexistir. Precisamos dessas forças contrastantes para fazer a vida evoluir. Enquanto, para alguns, a religião e a crença traz força e um motivo, a ciência propõe desafios e respostas. Nenhum ponto de vista é mais certo do que o outro, e isso é algo que precisamos ouvir, refletir e assimilar mais do que nunca.

Acredito que a TV, o cinema, a arte num modo geral, tem o poder de mudar os conceitos. Mesmo que em escalas menores, dá para perceber que o mundo precisa de mudanças, que deve começar com nós mesmos. Devemos seguir nessa estrada de tijolos amarelos, e esperar sempre no melhor por detrás do muros cintilantes de esmeralda.

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