Doctor Who 7×03 — A Town Called Mercy

O que houve com você? Quando matar se tornou uma opção?” — Amy

O ponto mais irônico de A Town Called Mercy, para mim, é a extensão de sentido do grande enigma proposto pela temporada passada. “Doctor Who?”. O próprio Steven Moffat, em uma entrevista sobre a temporada atual, admitiu que o Doctor se transforma de acordo com seus acompanhantes. Além disso, talvez o aspecto mais chamativo dos gallifreyan, além dos dois corações, seja a regeneração, com sua consequente mudança de corpo. Sendo assim, o quão interessante é notar como a pergunta temida pelo Silêncio se adequa, também, a própria forma do Doctor olhar para si.

Depois de tantos séculos mudando por todos, física e psicologicamente, quem é o Doctor? Um assassino a sangue frio? Um poderoso guerreiro, como diz o povo das Florestas Gama? Um deus responsável por equilibrar o destino do universo como forma de expiação? Ou, quem sabe, um simples crianção maltrapilho com mais poder do que deveria, viajando para conhecer o universo? O complexo de Deus é claro, mas a que ponto podemos dizer que conhecemos alguém de quem sequer sabemos o nome? Sua reflexão, momentos antes da morte de Isaac, seria mesmo algo interior ao personagem, despertado pelas palavras de Amy, ou simplesmente um retorno ao personagem adequado à sua acompanhante ruiva?

Se inicio essa review com perguntas demais para uma série fundamentalmente infantil, é apenas porque vejo nesse terceiro episódio a tradução em palavras da crise de identidade exposta, mais recentemente, pelos eventos em Demon’s Run. De acordo com River, o Doctor, naquele momento, desceria o mais baixo, mas em momento nenhum previu seu retorno ao “equilíbrio”. Mesmo que tivesse a intenção, sequer poderia fazê-lo, já que a filha de Amy e Rory, embora digna do coração de Doctor, não parece conhecê-lo mais do que os outros. Pelo contrário, ela própria afirmou ter sido inevitável deslumbrar-se por alguém que já conhecia tudo sobre ela. Portanto, seu amado sweetie poderia, assim como para os outros, não passar de um personagem milimetricamente delineado para ela.

Toda a trama ao redor do Dr. Kahler-Jex não passou de um grosseiro retrato de nosso querido protagonista. “Olhar para você, Doctor, é como olhar para um espelho”, disse Kahler-Jex, mas sequer seria necessário. Ambos são filhos de guerras cruéis, levados ao limite de seus códigos morais para o alcance do bem maior e atormentados pela eternidade (literalmente, no caso do Doctor) por todas as vidas que tiraram direta ou indiretamente. Matá-lo, naquele momento, entregá-lo ao julgamento do pistoleiro, foi apenas um esforço desesperado de calar aquele reflexo, entregando a si mesmo para a purgação de tantos crimes, mas um si mesmo presente no outro.

Vejo o condenado pistoleiro como a síntese das vítimas em um levante contra seus opressores. O Silêncio construindo sua grande arma, os Daleks tornado-se mais poderosos a cada batalha e os experimentos científicos dos Kahlers. Chegamos, assim, ao aspecto chave do episódio, a escolha do cenário: o velho oeste, símbolo da opressão branca contra os nativos da região, dizimados pelo progresso.

É preciso lembrar, ainda, que o próprio xerife pediu a proteção do criminoso, sacrificando-se por isso, não apenas como forma de gratidão, posto que nenhuma gratidão chegaria tão longe, ainda mais naquele período histórico, mas pela clara identificação com o assassino, compartilhando seu temor em relação ao peso em seus braços. Chamar um lugar nascido neste contexto de Mercy é, sem dúvidas, o detalhe mais irônico do episódio. Estariam eles metaforicamente implorando por misericórdia aos seus algozes? O Doctor ainda usa o nome da cidade para se remeter à sua própria misericórdia em relação aos inimigos, reafirmando o complexo de Deus característico do último senhor do tempo. Inclusive, o pistoleiro não ameaça apenas o cientista, mas todo o povo daquela cidade, embora seja, ele próprio, o único verdadeiramente superior ao demonstrar misericórdia pelos habitantes da cidade.

Por sorte, o Doctor parece estar voltando aos trilhos pacíficos com os quais estamos acostumados, caso contrário de nada adiantaria fingir-se de morto, pois acabaria provocando novamente todos os eventos da temporada anterior. Faltam apenas dois episódios para a despedida entre o Doctor de Matt Smith e sua Rose Tyler, salvo as devidas proporções. Mal posso esperar!

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