Doctor Who 7×09 — Hide

Você(s) é(são) o único mistério que vale a pena resolver.” — Doctor

Com um dos roteiros mais ricos dos últimos episódios, foi difícil escolher apenas uma frase para iniciar essa review. Além disso, para quem leu a do episódio anterior, parece claro que eu antecipei algumas questões muito mais aprofundadas em Hide: os reflexos que a fase mais sombria do Doctor tiveram sobre sua vida e sua personalidade.

Dividido entre sua glória sombria e a culpa silenciosa, Doctor, encouraçado por disparates e mentiras, permanece inerte em seu universo particular, talvez implorando por ajuda, enquanto tenta, acompanhante após acompanhante, ser levado de volta para casa. Não um lugar físico que possa chamar de lar, mas o retorno para um estado de reconhecimento de si mesmo. O desejo cada vez mais forte de ver-se e reconhecer-se o aproxima tanto da natureza humana em aspectos tão fundamentais, embora nos mínimos detalhes é que se revele sua natureza alienígena.

Enquanto o isolamento do viajante do tempo se desintegra diante de seus olhos, e seu maior medo o espreita pelas sombras, o momento de enfrentar seu terror máximo se aproxima a cada passo do caminho, quando se verá diante do conflito tão adiado, porém inevitável: o de enfrentar o monstro do seu passado e, consequentemente, a si mesmo. Clara é uma das chaves. Representando um ponto crítico na dinâmica iniciada por Rose Tyler, em que o filho da morte precisava ser constantemente relembrado da vida, parece se aproximar o momento da “prova final”: fugir ou lutar, viver ou morrer, amar ou não.

Doctor Who 7x09

Após uma série de acompanhantes enfeitiçadas pelo maltrapilho, encantadas por seu comportamento esquizofrenico, por sua excentricidade, por seu escape ao cotidiano, ao banal, surge Clara com uma postura óbvia e revolucionária: olhar para os destroços deixados pelo caminho. Após um grupo de “ferramentas vivas”, usadas para suprir suas deficiências enquanto humanóide, tentando a todo momento alimentá-lo com o minimo de humanidade que lhe falta, mas não deveria, Oswin chega não apenas como um farol, mas como um completo estraçalhar nas paredes de sua fortaleza de cartas.

Desde The Bells of Saint John, mas principalmente após Cold War, Clara revela sua natureza transgressora em relação às suas antecessoras. Aparentemente imune aos efeitos contagiantes da insanidade do Doctor, é capaz de brilhantemente lembrar de sua natureza frágil e mortal frente ao caos e aos perigos em que a Tardis a coloca. Não há (talvez ainda) a cumplicidade e a sincronia experimentada por Doctor e Rose, Martha, Donna, Amy e, por que não, Jack, Mickey, Rory, etc. O distanciamento evidenciado por Clara e seus questionamentos plausíveis, mas ainda assim inéditos, trazem à tona um Doctor inquieto, cuja mente em constante batalha contra a ignorância, traz seus nervos à flor da pele.

Mas a regra número um é que o Doctor sempre mente, correto? E não teria como ser diferente. Conhecedor do universo do início ao fim, desbravador das galáxias, moldado, e de coração endurecido, pelos horrores da guerra, faltariam palavras para traduzir a “verdade” para meros fantasmas ou provocaria o caos no universo. Além disso, situação complexa a do iluminado, pois, ao conhecer mais que os outros, toma por eles decisões vitais, ocultando-lhes as repercussões de tais atos.

Mentir, neste contexto, é um mero mover de peças para o alcance da vitória premeditada, ou para a redução dos estragos. Porém, contraditório ou parte da farsa, olhar ao longe faz com que escape o que está perto, tornando-o lento para os detalhes que estavam diante de seus olhos desde o início. Talvez por isso não funcione sozinho, para que algo o force a olhar para baixo, para perto, ou para que tenha sempre alguém convencendo-o da imagem divina que criou para si, enquanto salva-o de afogar-se em sua própria arrogância. Ah, Clara Oswin Oswald, neste ponto revela-se completamente inadequada, afogando-o em um mar de fantasias estilhaçadas.

Por fim, a frase com que abro essa review representa perfeitamente o arco inesperado tomado pelo episódio. Do nascimento ao fim do mundo, da guerra à paz, do companheirismo ao amor. Embora a tradução tire um pouco da ambiguidade, já conhecemos de longa data a obsessão do Doctor pela humanidade (grande parte da estruturação do personagem), mas poderia mesmo sua sede pelo conhecimento estar satisfeita após revelar o mistério da humanidade ou de Clara? Seria essa frase uma inconsciente declaração de amor ou mais uma mentira? Não o digo com o anseio por um relacionamento amoroso para o Doctor, o que empobreceria em muito o personagem e a série, mas, por associação, talvez, uma declaração de amor a algo além de si mesmo e de seus desejos, uma prova de sua evolução rumo à humanidade que tanto deseja. Para isso, portanto, não há como fazê-lo sozinho, pois “todo monstro solitário precisa de um(a) acompanhante.”.

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