Doctor Who 7×10 — Journey to the Centre of the TARDIS

Os segredos nos protegem, eles nos deixam seguros.— Doctor

Não estamos seguros!” — Clara

Journey to the Centre of the TARDIS foi um episódio frustrante. Desde 2005 eu aguardava ansiosamente pela possibilidade de conhecer algo além do cockpit. Já é possível imaginar minha ansiedade quando saíram o título e a sinopse do episódio. Não que eu ache viável um episódio inteiro mostrando dezenas de salas super criativas sem qualquer critério, mas ainda assim foi muito pouco. Perder-se por corredores durante quarenta e cinco minutos despertou, pelo menos em mim, a sensação de que era pouca história pra muitos minutos. Porém, que jornada introspectiva do Doctor seria essa se não penetrássemos também sua maravilhosa cabine policial? Além disso, uma viagem ao centro da TARDIS, como o nome não poderia deixar de sugerir, trata-se de uma viagem ao centro da série.

Em Hide, Doctor associa a TARDIS com o próprio tempo sem tratá-la apenas como uma uma mera máquina do tempo. Qual seria a razão desta mudança tão sutil senão uma importante alteração da perspectiva do personagem e da própria série? Após décadas de duração e para um viajante com séculos de jornada, não é de se espantar que o próprio tempo e a matéria se fundissem em um concentrado de memórias, fruto de uma jornada inimaginável a qual somos apresentados apenas a uma minúscula parte.

Desta forma, ecos, desde o passado mais distante aos eventos mais recentes, emanam pelos poros da caixa azul como um gravador infinito, armazenados em seus corredores e salas inumeráveis. Viajamos há anos não em uma nave autoreplicante, mas em uma ode ao próprio tempo em si, capaz de armazenar e reproduzir sua própria história. Como resultado desta dinâmica, a própria série moderna se baseia, principalmente nos últimos episódios, em uma constante revisitação dos elementos da série clássica.

Doctor Who 7x10

Para sermos lembrados desses detalhes o episódio teve sim sua importância. Quanto ao Doctor e sua jornada de autoconhecimento, porém, pouco foi revelado que eu não tenha comentado em reviews anteriores, principalmente no que se refere ao confronto com seu espelho-Clara (como exemplifico com o diálogo em destaque no início da review) ou, ainda, à supervalorização de sua própria vida em detrimento das demais, arriscadas por seus próprios desvarios. Desta forma, a meu ver, foi um mero episódio de reafirmações, embora um detalhe mereça certa atenção.

Somos constantemente obrigados a enfrentar nosso passado e nosso presente para que possamos caminhar rumo ao futuro. Sendo assim, é comum nos vermos diante de um estado de negação quando somos incapazes de enfrentar a verdade que se revela odiosa diante de nós, principalmente quando se refere a nós mesmos. Ao sermos encarados por um conflito iminente, muitas vezes fazemos uso dos mais insanos subterfúgios, qualquer botão amigável que seja, para adiar tamanho inconveniente e sermos capazes de continuar nos movendo.

Pertencente a uma lógica temporal sutilmente diferente da dos demais, na qual presente, passado e futuro tem limites muito menos sólidos, fugir se revela uma tarefa muito mais delicada, principalmente ao lado de criaturas tão efêmeras, de histórias tão curtas e destinos tão urgentes. Ao passo em que suas vidas tão sensíveis se revelam uma excelente distração para o deus do tempo, arriscá-las como costuma fazer torna-se um constante lembrete de sua própria personalidade controversa. Além disso, após tantas acompanhantes deslumbradas, e ainda que a atual já demonstre os sinais de sua conversão, são necessárias medidas desesperadas para manter de pé seu mundo maravilhoso quando uma ameaça se revela, ignorando as diversas falhas que embasam seu suspiro de alívio. Qualquer migalha de satisfação serve de apoio. “Você se sente segura?”

Por fim, surpresa alguma foi ver conferida tanta humanidade para uma máquina (ou seria uma aparente máquina que se revela humana), afinal, ela sempre foi tratada como algo vivo e em The Doctor’s Wife ganhou até mesmo um corpo, não é mesmo? Ciumenta, temperamental, cruel quando necessário, solícita sempre que possível: facetas de uma personagem fundamental a toda série, quiçá a verdadeira protagonista (ou tanto quanto o Doctor). Capaz de permanecer sempre fiel às suas estruturas fundamentais, enquanto varia sua aparência, foi até esse episódio injustamente esquecida e ignorada frente ao exército de coadjuvantes a visitarem suas dependências. Apesar de insatisfeito com o resultado, fico feliz por terem dado a ela essa oportunidade.

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