Doctor Who 7×12 — Nightmare in Silver

Precisávamos de crianças, mas as crianças pararam de vir. Você nos trouxe crianças.” — Cyber-Webley

Primeiramente, é preciso que fique claro: não sou o maior fã dos Cybermen, seres capazes de superar apenas os Daleks na minha escala de vilões em Doctor Who. Considero ambos criaturas extremamente superestimadas e um tanto quanto constrangedoras como ameaças à segurança de qualquer um. Nem mesmo essa versão high-tec mudou meu ponto de vista em relação a eles (embora quase o tenha), principalmente pelas habilidades que simplesmente desaparecem de uma hora para outra, e um poder de adaptação absolutamente irrelevante quando o assunto é eliminar o inimigo.

Heresias à parte, Neil Gaiman, a meu ver, tem uma criatividade excepcional, com produções artísticas genuinamente brilhantes, mas nesta sua segunda aventura em Doctor Who, ele começa a se parecer muito com o vilão do episódio: mais promessas do que realizações. Apesar disso, ele nos entregou um episódio bem interessante e, embora leve demais enquanto preparação para o season finale, cumpre bem a função de nos preparar para o que está por vir.

Tenho esperanças de um finale excelente (em oposição ao da temporada passada). Espero não me decepcionar. Contudo, o mais importante foi a antecipação de uma parcela do embate que eu aguardava para o final da temporada. Quando a natureza lógica e fria do Doctor encara seu reflexo humanóide, o que se tem é uma interessantíssima disputa de máscaras capazes de colocar em cheque muito do que se supunha até então, revelando-nos, inclusive, o dilema constante na própria composição do personagem. A verdadeira identidade do Doctor não parece residir definitivamente em uma ou em outra, mas transita confortavelmente entre ambas, tornando-se muitas vezes difícil saber qual delas está falando. “O Doctor sempre mente.”, uma afirmação pertinente em tantos sentidos!

doctor who 7x12

Não que em algum momento sequer cogitássemos a possibilidade de que os sentimentos perdessem a luta contra a lógica. Aliás, a abolição do perigo real é uma marca fortíssima no legado de Matt Smith (com sua caracterização atrapalhada e brincalhona), perceptível não apenas, mas principalmente, ao lado de Clara, mais uma de suas acompanhantes meigas e cativantes.

É claro que as mortes e ameaças continuam, mas tudo retratado de maneira segura e limpa, nada muito contundente, pois não vemos nenhum dano real e palpável como as catastróficas ameaças enfrentadas pela décima encarnação. Quando o há, basta alguma resolução simplista e tudo se resolve de maneira tranquila. Talvez seja o roteiro refletindo a respeito disso quando o Cyber-Webley diz o texto com que abro essa review. Quem sabe a série originalmente voltada para as crianças esteja sutilmente problematizando o tanto que mudara e, por que não, tentando relembrar e reconquistar o público original. Seria Matt Smith a Mary Poppins sci-fi?

Apesar disso, como alguém de aparência tão frágil é capaz de suportar tamanha responsabilidade? Testemunha ocular de tanto sofrimento e tanta história, vê-se em uma constante luta para manter a serenidade. Tantas vidas em jogo, tantos sacrifícios feitos em sua honra, criaturas dispostas a partir em seu auxílio sempre que necessário, capazes de cruzar o universo pela mera menção de seu título. Título este sem dimensões reais mensuráveis para os leigos que o escutam, e de cujas incumbências solitárias é impossível fugir por muito tempo. Afinal, de quem se está falando?

Não importa o quanto demore, é sempre chegado o momento em que a liberdade da vida com a qual se sonha dá lugar às responsabilidades e ao peso de um título, ou, em casos específicos, de um nome. Para o Doctor, ao que parece, esse momento se encontra em Trenzalore.

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