Doctor Who 7×14 — The Day of the Doctor [Especial de 50 anos]

Você foi o Doctor no dia que não foi possível se fazer o que era certo.” — Doctor

Partindo do princípio de que o Steven Moffat parece disposto a ignorar quase que completamente a mitologia de Doctor Who, assim como ocorreu na primeira parte da trilogia Of the Doctor, basta ignorar as falhas para se divertir bastante com o episódio. Basta ignorar o endeusamento que estão dando ao personagem com a ampliação inadequada de seus “poderes”, basta fechar os olhos para o precedente perigoso que está se abrindo com isso e basta fazer de conta que isso não tira todo o sentido de muito do que foi dito, feito ou decidido nas temporadas passadas.

O Doctor não é um deus e não deveria ser transformado em um. Ele é apenas um cientista superinteligente de uma raça alienígena repleto de apetrechos que erroneamente estão sendo associado com armas, como The War Doctor mesmo disse. Quem lembra da discussão entre Adelaide e o Doctor ao final do especial The Waters of Mars? River Song já havia alertado em A Good Man Goes to War que, com o passar das temporadas, sua personagem título foi lentamente se transformando em algo cada vez mais distante do que se propunha. Ele não deveria ser apenas um homem louco em uma caixa que certa vez decidiu vagar por aí conhecendo o universo?

Uma das maiores belezas de Doctor Who sempre foi a limitação imposta pela série ao universo de possibilidades que a TARDIS permitia. A ideia dos pontos fixos servia para dar a parcela de humanidade que torna o protagonista tão apaixonante, fazendo-o, apesar de sua posição privilegiada, experimentar o peso das inevitabilidades que marcam a existência: atos têm consequências com as quais devemos conviver pelo resto de nossas vidas. Sem eles, porém, o Doctor perde completamente os contornos humanos (“por parte de mãe”) para se tornar aquele que decide, baseado em seu código moral particular e muitas vezes instável, o que deve ou não ser alterado na história do universo. Quando tivermos sorte haverá seu júri de acompanhantes escolhidas ao acaso e que sempre acabam optando por uma visão mais Pollyana das situações, mesmo quando não fazem a menor ideia do que está em jogo.

doctor Who 7x14

Por que, por exemplo, as bilhões de crianças de Gallifrey deveriam ser salvas enquanto outras milhares de crianças morreram nos planetas devastados durante a guerra? Por que não salvar os Sycorax que foram dizimados pela Harriet Jones? Por que não mandar os Weeping Angels para um pocket universe (entendendo que sua “vilania” é apenas a particularidade de uma espécie alienígena que deveria ser respeitada como qualquer outra) ao invés de deixar os atos da Amy e do Rory quase aniquilá-los da existência? Por que não ir além e, no lugar de deslocar um planeta inteiro e destruir “completamente” uma raça, impedir que Davros criasse os Daleks, em primeiro lugar? A minha resposta: porque as crianças de Gallifrey foram mortas por ele. Era dele a responsabilidade por aquilo e uma mancha como essa não poderia permanecer na história de um “herói”.

De acordo com Clara, um herói não faria uma coisa daquelas, embora até aquele momento nada daquilo parecesse influenciar na adoração que ela ou qualquer um de nós tivesse por ele (eu sequer estou entrando no mérito de que, após aquela storyline absurda de The Name of the Doctor, ela deveria ter presenciado toda a existência do Doctor, inclusive a participação na Última Grande Guerra do Tempo e a queda do silêncio).

O Doctor é tão herói quanto é um deus. Pelo menos com o repertório que tenho desde seu retorno em 2005, a série inicialmente colocava nas atitudes heroicas do Doctor (ao proteger a integridade do tecido temporal) a imagem de uma obrigação que caberia ao último Senhor do Tempo. Portanto, ele não fazia tudo aquilo porque achava divertido, mas porque precisava ser feito e ele era o único que seria capaz (além de encarar como sua obrigação por ter destruído todos os outros). Sendo assim, é uma bobagem tremenda encarar o Doctor como uma espécie de Superman inglês com um impecável código de moral, já que as imperfeições eram o ponto alto da concepção do personagem. Desta forma, se ao admitir para Amy (no conveniente The God Complex) que não poderia salvá-la sempre, o Doctor cresceu como personagem, bastou o salvamento de um planeta para dar um passo atrás.

Da forma como eu coloquei até aqui parece que odiei o episódio, mas não é bem assim. Chegar à Última Grande Guerra do Tempo era inevitável no processo de autoconhecimento que o personagem vinha desenvolvendo desde o início da temporada e que aparentemente culminará em seu literal renascimento. Isso é metaforicamente belíssimo e bastante conveniente aos cinquenta anos da série, o que justificaria, como resultado dessa jornada, fazer algumas mudanças na mitologia do personagem para permitir que mantenha seu frescor e não caia na mesmice. O meu único problema foi com as opções para essas “mudanças” que, a meu ver, descaracterizam bastante o personagem que me conquistou alguns anos atrás.

Apesar de tudo isso, sem ser extremamente ranzinza e hipócrita, devo admitir que me diverti bastante com o episódio. Achei hilária a dinâmica entre os três doutores e o evidente choque de gerações. Admito que me emocionei com a resolução, ainda que isso não tenha me impedido de olhar meio torto para ela. Fiquei absolutamente fascinado com o retorno do meu Doctor e da minha acompanhante favoritos, principalmente porque Rose/Bad Wolf/The Moment serviu para mostrar o quanto Clara ainda precisará crescer para alcançar suas antecessoras. Visualmente, achei um episódio mediano, bem atrás de The Name of the Doctor, que teve um dos trabalhos de arte mais bonitos da temporada. Não sei bem como foi a experiência para quem acompanha a jornada do (agora não mais) Último Senhor do Tempo desde o início, mas eu senti falta de mais veteranos no episódio, embora conhecer Tom Baker tenha despertado ainda mais meu nervosismo por não ter assistido à série clássica ainda.

Em resumo, foi um episódio excelente para quem aproveita essa nova proposta do Moffat de focar na realização de um espetáculo audiovisual com um roteiro repleto de cliffhanger estonteantes e com resoluções mindblowing (independente da destruição mitológica deixada pelo caminho). Eu consegui aproveitar o episódio apesar do que já expus e acho que valeu a pena como homenagem aos cinquenta anos da série. Poderia ter sido um episódio melhor? Claro, mas levando em consideração as várias derrapadas dessa sétima temporada, tivemos sorte de não sermos bombardeados com coisa muito pior.

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