Doctor Who 9×09 — Sleep no More

Em Sleep No More, Doctor Who traz um episódio ousado, metalinguístico e que não agrada o público.

Espero que tenha gostado do show.Tentei torna-ló interessante. Todos os bits assustadores. Todos aqueles que desafiam a morte, monstros e um clímax apropriado para um grande final. Audiência compulsiva. Eu disse para não assistir.RASSMUSSEN, Gagan.

Serei enfático e direto: Os fatos do episódio foram reais?

A resposta é sim e não. E é ai que está a graça e a sacada deste episódio que mostrou-se ousado para os padrões clássicos da TV.

Escrito pelo veterano Mark Gatis, figura recorrente no universo de Doctor Who, Sleep no More é um episódio filler e que diferente dos anteriores não tem sua narrativa composta em arcos de episódios.

Doctor Who 9x09

Baseado no gênero cinematográfico found footage, que surgiu nos anos 80 e se popularizou como sub-gênero de filmes de terror, toda a narrativa torna-se, em um primeiro momento, uma interessante crítica ao poder e a influência de grandes corporações no modo de vida da humanidade, para em uma segunda camada tornar-se um verdadeiro ensaio sobre a metalinguagem do próprio ato da criação artística.

No século 38 o Doutor e Clara estão na estação espacial Le Verrier que orbita o planeta Netuno. O roteiro já nos primeiro minutos mostra sua riqueza de detalhes e proposta educacional ao nomear a estação espacial com o nome de Urbain Le Verrie, matemático e astrônomo frânces responsável pela descoberta do planeta Netuno.

A direção de Justin Molotnikov é eficiente em manter o clima de suspense e tensão, primeiro pela linguagem visual escolhida ao ter durante todo o episódio a narrativa contada através de planos subjetivos do ponto de vista dos personagens, com falhas de sinais e recordes de câmeras de vigilâncias. A paleta de cores frias e na sua maoria azulada contribui não só para o clima futurista que a narrativa pede como também ajuda manter o clima de tensão e suspense.

Assim, de forma coerente ao passo que a narrativa se desenvolve, o roteiro usa dos elementos da ficção científica para criticar o impacto que grandes corporações atualmente exercem no cotidiano humano, ao mostrar que a máquina Morfeus, através de alterações químicas no cérebro, consegue proporcionar ao indivíduo toda a experiência e benefícios de uma noite de sono em apenas 5 minutos.

Não obstante, a narrativa se preocupa em também criticar os avanços descontrolados do capitalismo e do uso da força do trabalho pelo acúmulo de capital. A máxima “Tempo é dinheiro” ganha impactos dramáticos ao ser pronunciada pelo cientística Rassmussen, criador na máquina Morfeus.

A partir do clímax, o final “em aberto” torna o roteiro mais rico e também traz a tona um diferente tipo de interação entre expectador e obra audiovisual. A partir da bagagem cultural, social, politica e religiosa de cada individuo uma nova e diferente leitura para a obra poderá ser proposta o que eleva o nível da discussão.

Em uma segunda vertente o episódio também serve como um ensaio sobre o processo de criação cultural que levemente flerta com as propostas experimentais.

Em sua definição, Doctor Who é um personagem fictício, assim todas as suas ações e narrativas são do campo ficcional e portanto não existem. O que existe é a emoção que você — enquanto espectador — sente ao ver o show. Alegria, tristeza, medo, tensão. Essas, apesar de não palpáveis, são emoções reconhecíveis e reais. E o mesmo torna-se o episódio.

Porém enquanto roteirista, Mark Gatis não se intimida e deixa explícita sua opinião através do depoimento de Gagan Rassmussen. A narrativa toda não existe no universo criado de Doctor Who, e assim torna-se um engenhoso plano dos Sandmans para, através do audiovisual, se espelharem pelo Sistema Solar.

Frustante ou não, o episódio também é rico em referências e metalinguagem com a própria série — não só no quesito educacional — ao mostrar quais os elementos podem compor uma mucosa ocular ou a importância do sono no sistema humano, como citar o segundo ato de Macbeth de Shakspeare e a famosa gag da segunda encarnação do Doutor.

Destaque para atriz Bethany Black, que vive a personagem 474, e já fez história sendo a primeira atriz transsexual em Doctor Who.

Sleep No More é sim um episódio interessante, ousado e inovador, que enriquece e traz diferentes maneiras de produzir TV, estimulando o espectador a ir mais além. A pensar diferente.

E o que você achou, leitor? Deixe abaixo seus comentários e teorias sobre o episódio, além de também dar a sua nota.

Semana que vem teremos Face the Raven e o retorno de Maisie Willians à série.

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