É hora de falar bem de Os Dez Mandamentos!

Sucesso de audiência, crítica e faturamento, novela da Record é um acerto nunca antes visto na história da emissora.

Os fãs da séries americanas sabem como é: mesmo com tudo sendo ficção, a gama de assuntos e gêneros é diversificada o suficiente para deixar qualquer um perdido. Tem série de ação, de ficção científica, de monstro, de vampiro, dramalhão, de época, infantil, policial, etc. Não falta opção.

No Brasil, a coisa é um pouco diferente. A maioria das produções são novelas e quase todas abordam os mesmos temas, com histórias contemporâneas de amor, com heróis e vilões, no maior estilo folhetinesco de sempre. Não a toa, as poucas novelas diferenciadas, principalmente as da Globo, costumam cair no gosto do público.

Mas de uns anos pra cá a coisa veio mudando de figura, já que o SBT buscou se especializar nas novelas infantis para a toda a família (Carrossel, Chiquititas e atualmente Cúmplices de um Resgate) e a Record adquiriu o know-how nas produções bíblicas, com 5 minisséries (A História de Ester, Sansão e Dalila, Rei Davi, José do Egito e Milagres de Jesus) que serviram de treinamento para uma novela que marcaria história na TV brasileira.

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Os Dez Mandamentos é a sexta trama com Vivian de Oliveira como autora principal e sua quarta produção bíblica. A telenovela épica aborda 4 livros da Bíblia — Êxodo, Levíticos, Números e Deuteronômio — contando a saga de Moisés do nascimento até a morte.

A superprodução chegou num momento em que as produções da Globo para o horário nobilíssimo (Babilônia e A Regra do Jogo) decepcionaram na audiência, com tramas extremamente realistas, que se distanciam do escapismo fantasioso que boa parte do público brasileiro busca ao chegar em casa para sentar na frente da TV.

Capaz de captar o espírito do seu tempo, Vivian de Oliveira passou quase 100 capítulos sem grandes acontecimentos na novela, contando as histórias de personagens novos e já conhecidos, o dia a dia dos escravos e da realeza no Egito, além do quarteto Moisés, Zípora, Ramsés e Nefertari.

O sucesso de audiência de Os Dez Mandamentos é explicado pelo fato de que há um tipo de público à espera de produtos novos, que fujam do convencional. Há quem diga que os números do Ibope refletem somente a influência da Igreja Universal sobre o seus fiéis. Mais do que tacanha, considero esta visão também estreita. Quase todo mundo que conheço que assiste a novela, incluindo eu, não tem vínculo com nenhuma religião ou igreja. Novela boa é novela boa!

Topei sem ter certeza. Originalmente seria uma minissérie de 40 capítulos, mas achei que teria fôlego para ser uma novela de 100, 150 capítulos. A história é muito rica, dá margens para criação. Os 50 primeiros capítulos no ar foram os 2 primeiros capítulos de Êxodo. Onde tem brecha para colocar eu aproveito! Os eventos bíblicos são fieis. Às vezes vou avançando aqui e tenho que encaixar ali pra montar o quebra cabeça do mundo que criei.” — Vivian de Oliveira

Longe de ser tão conservadora como dizem, a novela teve traições, racismo, prostituição, tentativa de estupro, mortes e violência, tudo dentro de contextos que não subestimaram a inteligência do telespectador. Somou-se a isso a liberdade da autora de criar personagens e enredos que não estão escritos na Bíblia, o que deu um tom rejuvenescedor para a história, já tão contada e conhecida há séculos. Com linguagem coloquial e arcos narrativos inspirados nos arredores do livro sagrado, a novela ficou longe de ser uma “reconstituição” e marcou um golaço ao ser uma “obra baseada/inspirada”.

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Grande exemplo disso foi Yunet, que serviu de óleo para fazer a engrenagem da novela rodar durante mais de 2 terços da trama. A personagem que não existe na Bíblia foi fruto da criatividade da autora e deu um tom de folhetim brasileiro que só uma vilã megera como ela poderia ter dado, ainda mais sendo encarnada por Adriana Garambone. Sem dúvida a melhor performance da novela.

Colabora também para o sucesso o texto da novela. Simples, sem preciosismos ou sutilezas, nada fica nas entrelinhas. Tudo é muito bem claro, explicado, definido, deixando o telespectador ciente da história que está acompanhando, o que deixou as reviravoltas da trama mais surpreendentes.

Outro fato é o horário, já testado anteriormente. Com Os Dez Mandamentos, a Record elevou em quase 100% sua audiência na faixa das 20h30, que agora voltou a ser o horário de novelas da TV brasileira, já que até a Band se rendeu ao antigo termo “novela das 8” com as produções turcas. A ramificação do público entre jornais, programação infantil e afins ficou mais evidente — deixando a novela sempre acima dos 20 pontos recentemente, incluindo a vitória tripla na segunda-feira (02) em cima da Globo no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte.

Também ajudou muito a alta carga de romances e amores impossíveis na novela, com destaque para Moisés e Zípora, que receberam diálogos bem escritos e atuações inspiradas de Guilherme Winter e Gisele Itié, com química e entrosamento de sobra por parte dos dois. Por fim, o alto custo de produção proporcionou efeitos especiais, cenários e figurinos de rara aparição na TV brasileira. Foi a novela certa no momento certo.

Capaz de abarcar todos os públicos e reunir a família, o fenômeno enfrenta muito preconceito de uma gente careta que mal deu chance para a novela: preconceito por ser baseada numa história bíblica, por ser da Record, por não ter um elenco estrelado e por causa do suposto público alvo da trama. Todos, obviamente, perderam uma grande novela que será um marco de referência para a teledramaturgia por muitos anos. Uma pena!

Resultado de 2 anos de muita pesquisa histórica, a novela contou com consultores especializados em Egito e no povo hebreu, e ao contrário de algumas acusações (de quem não assiste a novela), contou sim com reis e rainhas negras da África em mais de uma ocasião, com destaque para o Rei Jahi, interpretado por Rocco Pitanga, assim como parte dos personagens da realeza do Egito que também são negros, incluindo a Princesa Radina.

Quando a Record estreou a trilogia dos mutantes, Caminhos do Coração (2008), muita gente torceu o nariz para os absurdos da novela, mas os índices de audiência elevados da trama mostraram que havia um público pronto para acompanhar histórias com temáticas diferentes, fora da repetição usual dos folhetins.

O desgaste do formato com as inúmeras opções dos serviços de TV paga, on demand e streaming deve impulsionar todas as emissoras a tentarem mais, ousarem mais, perseguirem o público que hoje corre da TV aberta. E nisso, Os Dez Mandamentos deu aula. Tanto é que a Record já pensa em abrir um segundo horário de novelas para exibir Escrava Mãe e já começou a pré-produção de Josué e a Terra Prometida, continuação da história que está em exibição.

Vivian de Oliveira deve engranar ainda ano que vem o projeto da série Reinos, chamada de Game of Thrones bíblico nos bastidores, que deve contar a guerra dos 12 reinos de Israel pelo poder. Enquanto isso, Benedito Ruy Barbosa está escalado para escrever um novelão fantasioso e bastante açucarado para substituir A Regra do Jogo ano que vem.

Velho Chico será bem no estilo de outros sucessos do autor, como Pantanal, Renascer, Rei do Gado e Terra Nostra. Basta saber se vai dar certo. Esse é o lado bom da livre concorrência, não é? Desperta a vontade de melhorar para agradar a clientela.

E você, Boxer? Assiste a saga de Moisés? Se sim, conta pra gente aí nos comentários, quero saber sua opinião. Se não, corre que ainda dá tempo, a novela está na #DécimaPraga e, apesar da barriga que está esticando a novela por “forças ocultas” do Ibope e GFK, ainda tem muita intervenção divina pela frente.

Os Dez Mandamentos vai ao ar de segunda a sexta, às 2oh30, na Record.

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