E se Beyoncé fosse branca e Adele, negra?

Romance ou consciência social? O Grammy prefere o primeiro

Não se engane: apesar de essas duas aí em cima terem sido declaradas protagonistas da categoria Álbum do Ano, o melhor disco de 2016 pertence a Sturgill Simpson, o mais desconhecido dos indicados. Recomendo a escuta do majestoso A Sailor’s Guide to Earth.

Também é bom lembrar que, assim como qualquer outra premiação, o Grammy reflete a opinião de um determinado grupo de pessoas em um determinado momento. Não dita verdade absoluta, mas pode ser incorporado a mensagens poderosas, atos políticos e desenham uma linha importante na história da indústria cultural.

Nada disso torna menos estranho ver o 25 de Adele ganhando do Lemonade de Beyoncé. Isso me fez pensar: em quantas categorias principais Beyoncé já venceu? Sabemos que ela domina as categorias ditas negras, para hip hop e R&B. Mas dos seus 24 gramofones, só três ou quatro foram nas categorias gerais sem definição de estilo, como Melhor vocal pop feminino para Halo, em 2010.

Até nas categorias mais próximas a comunidade negra, os negros precisam lutar por espaço, já que os brancos estavam dominando o hip hop até dia desses, tipo Macklemore e Ryan Lewis e Iggy Azalea — e mais lá atrás, Eminem. Não é que brancos não podem fazer rap e compor sobre suas experiências na perifa. Mas é meio estranho ver que a galera que popularizou um estilo vai sendo esquecida porque a Academia de música parou no tempo.

Fica a impressão de que brancos são bem vindos a tentarem coisas novas e embarcar em gêneros diferentes. Mas se os negros tentam transitar por faces diferentes das que esperam deles na música (R&B, hip hop, gospel), aí torcem o nariz. Vejam que Beyoncé apostou até em rock e sertanejo no seu disco. Quantos cantores negros de rock você conhece? E de sertanejo? Eles estão bombando no mainstream com sucessos acachapantes?

Com razão, Frank Ocean criticou o que ele chama de “parcialidade cultural” no Grammy. O cantor usou o exemplo de Taylor Swift com o 1989, que venceu Álbum do ano na edição anterior. Assim como Taylor, todos os outros artistas que levaram essa categoria na década atual são brancos (no caso dela, bem branca mesmo). Não importa o quanto Kendrick Lamar, The Weeknd, Rihanna e Beyoncé sejam aclamados pela crítica. Eles tem que trabalhar dobrado para chamar atenção.

A irmã de Beyoncé, Solange Knowles, twittou o texto de Frank após a vitória de Adele porque, provavelmente, sabe que as coisas seriam diferentes se a sua irmã fosse a Adele. Beyoncé nunca ter vencido a categoria mais importante da premiação não faz sentido de um ponto de vista superficial, mas quando vemos que a premiação tem quase 60 anos, dá pra imaginar que nem todos os votantes são hipsters do Brooklyn que ouvem música na internet.

Estou numa crise de relacionamento com a Beyoncé e Lemonade está longe de passar liso nos meus ouvidos, e mesmo sendo um conteúdo simplório fruto de uma propaganda dramaticamente manufaturada, foi um CD de maior impacto que 25.

Adele é excelente, mas está fazendo a mesma coisa que faz desde o início da carreira, sem mexer na fórmula. Parece sempre que está cantando a mesma música, em álbuns sem cara, com músicas aleatórias que ninguém sabe a qual disco pertencem. O esforço para se reinventar e amadurecer como artista não é obrigatório, mas é, no mínimo, aconselhável.

Se ela fosse negra, seria duramente criticada por se prender num estilo só e não sair da zona de conforto, como fizeram com Whitney Houston, para justificar o fato de ela ter menos Grammys do que merecia (aham, sei, foi por isso sim).

Já Beyoncé, se fosse branca, não teria a história de Lemonade para nos contar e estaria fazendo baladinhas românticas recheadas de baunilha, água e açúcar. Ela faria tudo o que a Adele faz — e teria o triplo dos Grammys que já tem.

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