El Camino é tudo o que eu não sabia que precisava

Breaking Bad: da série ao filme. Que expectativas El Camino tem para cumprir?

Minha experiência com Breaking Bad foi intensa. Somente assisti à série após o seu término, por muita insistência de um amigo, que ameaçou me dar spoilers caso eu não fizesse. E eu odeio spoilers.

Eu vi o primeiro episódio num domingo à noite… Daí  o segundo, o terceiro… Enfim, concluí a série em menos de um mês (trabalhando, estudando e mantendo uma vida social relativamente ativa).

De alguma forma eu me envolvi muito com todos os personagens e com o capricho da produção. Fiz prints de várias cenas (Que fotografia! Que uso maravilhoso das paletas de cores!), ouvia as músicas no repeat, repassava mentalmente os diálogos (Que roteiros!). Então ao chegar no último episódio entrei em um processo de luto. Na verdade eu me senti lendo Shakespeare, por toda aquela tragédia se abatendo na vida dos personagens que eu tanto queria bem. Foram consequências cruas e extremamente coerentes com tudo o que havia sido exposto ao longo da jornada.

Confesso que tive uma crise moral ao ver Breaking Bad. Eu, que sempre gostei de anti-heróis e, inicialmente acreditava estar acompanhando a história de um, percebi que na verdade, eu estava torcendo pelo cara que estava se transformando gradativamente em um grande vilão. Antes do Coringa de Joaquim Phoenix, havia Walter White enquanto estudo de personagem.

E havia, claro, Jesse Pinkman.

Aquele moleque maroto que, contra todas as possibilidades, havia se tornado o braço direito de um homem que ele tanto admirava e, sem perceber, afundava em um relacionamento abusivo. Se ao acompanhar Heisenberg, podíamos ver o nascer de um vilão, em Jesse enxergávamos a anulação de uma personalidade cheia de vitalidade. Era o abusador esmagando o entusiasmo e redirecionando uma energia que podia ser construtiva, para a autodestruição.

Ao término do episódio final, eu estava aos prantos (e fazia algum tempo que eu não me emocionava tanto com uma série). Havia a sensação que eu só sentia com meus livros preferidos: ouvindo “Baby blue” eu percebi a tristeza que me abateu era, nada mais que saudade.

Naquele momento eu acreditava que sentia falta dos personagens, das músicas, das cores… Até que El Camino chegou.

Quando subiram os letreiros de El Camino, eu entendi que a saudade que senti no final da série não era dos personagens, mas do Jesse. Porque todos os outros tiveram seus arcos fechados, mas não ele.

Tentei ver o filme sem expectativas quanto ao roteiro, mas as que foram sendo criadas no decorrer da narrativa foram plenamente satisfeitas. Não senti falta dos grandes personagens, mas sorri ao ver os coadjuvantes. Não me importavam grandes reviravoltas ou cenas de ação, mas enchi os olhos ao ver as autorreferências nas cenas.

Imediatamente lembrei do controverso “episódio da mosca” (Fly, 3×10) o ritmo contemplativo, as estratégias, o foco no objetivo. Em sua essência, Breaking Bad estava ali me preparando para, finalmente, dizer adeus àquela história.

Sim, ainda resiste um resquício daquela crise moral, afinal, Jesse fez coisas horríveis ao longo de sua jornada e eu continuo torcendo por ele. Mas isso é coisa que posso levar para a terapia (o melhor lugar para tratar sobre isso, acredito).

Eu não esperava El Camino. Eu nem sabia que precisava desse filme… Mas o importante para mim, enquanto fã, é que terminei sem aquela dor de saudade. Porque, no fim, eu só queria saber que o Jesse ficaria bem. E mesmo sabendo que isso é impossível para o personagem, pelo menos sei que ele está livre para dar um passo adiante.

Sobre o Autor

Ana Paula Souza

Ana Paula Souza

Psicóloga por vocação, Cientista da Religião por curiosidade e bailarina por paixão. Às vezes metáforas descrevem o mundo melhor que dissertações.

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