Em Havoc and Bright Lights, Alanis encontra sua luz.

Em Havoc and Bright Lights, Alanis fala sobre maternidade e temas existenciais sem muita inovação.

Havoc and Bright Lights não é diferente do que a Alanis já fez. Em sonoridade, se assemelha muito ao trabalho anterior — também pudera, ambos foram produzidos por Guys Sigsworth. O forte está nas temácias, parte que traz toda a diferença já que a cantora possui um manual estrutural de como escrever suas poesias.

É natural que na carreira de cantoras o público espere por mudanças de temáticas e até sonoridade após a chegada da maternidade. Esse é o caso. Havoc é o primeiro álbum de Alanis desde o nascimento de seu filho e também desde seu casamento com o rapper americano Soul Eye. Mas nem a maternidade e nem o casamento dominam os temas.

Alanis fala sobre ser uma celebridade pedante, sobre como é mais fácil e perigoso buscar solução de tudo em calmantes, sobre feminismo, evolução e conviver em grupo. Todos temas muito atuais e significativos para a época na qual vivemos.

Seus grandes destaques acabam sendo Edge of Evolution, a já oficialmente lançada Guardian, e as recentemente vazadas Lens e Woman Down.

Guardian

Quando Alanis anunciou sua gravidez, meu primeiro pensamento egoísta foi “Pronto, lá vem um álbum chato sobre como um filho estraga a carreira de uma roqueira”. Quando foi anunciado Guardian, uma canção sobre seu filho, como primeira música a ser lançada eu já gelei… Até que ouvi a música.

Fingindo sanidade em meio ao caos
Você vai além do que é ser humano
Já eles, são fantasmagóricos e desolados,
Quem olha por você, nessas situações?

Passa longe de meu pior pesadelo. Um pianinho singelo a conduz até a chegada do refrão forte e marcado por guitarra, com letra fácil de decorar. A música segue a estrutura de uma típica canção morissética, começando com duas estrofes, um refrão, uma estrofe, um refrão, momento desacelerado com estrofe ritimada e um refrão para finalizar. E não deixa de ser linda.

É o tipo de canção que diz “voltei, e tenho coisas diferentes para contar”.

Woman Down

É talvez a mais agitada e pop do CD, até um pouco convidativa para dançar, contanto que a sua dança seja pular gritando um refrão gostoso. Woman Down não inova na letra, mas reafirma alguns pontos.

A próxima a ser atingida é sua filha
Que é estranha a todo esse conceito
Ela estabeleceu um novo limite
Sobre o abuso que tolerará

Começa com um sampleado tão repetitivo quanto a estrutura da letra, mas é bem gostosinho. Fala sobre as mulheres que um homem pode ter vandalizado com seu comportamento machista, passando por sua mãe, irmã, esposa e chegando à filha, que já é um tipo diferente de mulher — que coloca este tipo de comportamento à prova.

Uma das melhores do álbum. Letra e tradução completas aqui.

‘Till You

Dedicada a seu marido, esta é a primeira balada do CD. Suave e muito simples, é uma narração sobre o que Alanis passou e como se sentiu até chegar ao amor de sua vida. Letra bonita e apaixonante. Como todo CD dela tem uma potencial trilha na novela, não me espantarei se essa for a escolhida.

Seu entre-refrão é gutural e viajante, quase uma canção de ninar de tão tranquila. Mas entre as dedicatórias que seu marido já recebeu, a letra de Into a King é de longe muito mais bonita.

Celebrity

É uma canção sortuna com clima de protesto e lição de moral. Só que à toa, né? Por mais que a gente viva na era da comunicação e novas celebridades sejam geradas a torto e a direito, esse tema já foi tão exaustivamente abordado que nem mesmo o gigante gap entre um album e outro da cantora é motivo para voltar a martelar a tecla.

Acaba soando muito mais a ressentimento do que algo realmente importante a se dizer. Frases como “Sou uma macada dançarina, tatuada e sexy” fazem a canção parecer polêmica barata, feita para gerar pauta durante a divulgação de lançamento — o que tem funcionado muito bem, diga-se de passagem.

“Faça de mim uma celebridade
Meu reino pela fama
Diga me quem eu tenho que ser
Para começar a ser famosa”

A sonoridade é ótima, com uma guitarra fina e agulhada, um ritmo levemente oriental e uma boa percussão. O ritmo do canto é interessante e diferente do usual para os álbuns da Alanis. No máximo se assemelha a So Called Chaos (do álbum homônimo, 2005) e Versions Of Violence (Flavors of Entanglement, 2009). Mas a letra realmente escorrega feio.

Emphaty

Com um piano gostoso, Emphaty traz mais material pessoal da cantora, que se abre sobre suas mais diferentes maneiras de ser, das quais ela até mesmo teve vergonha. Mais segura, hoje ela agradece àquele que a entende e tem afinidade com ela.

Obrigado por me notar,
Me sinto um pouco menos abandonada
Obrigado por me entender,
Me sinto preenchida pela sua empatia,
Essa intimidade

O refrão tem um quê de folk, ainda que levemente. Deixando o refrão de lado, a música pode fazer a alegria dos fãs que interpretarem a letra como um recado a eles. Mas, como tudo que Alanis escreve, com certeza Emphaty carrega um pouco do micro e do macro. Portanto, algum relacionamento em especial deve estar conectado ao poema.

Lens

Outra guiatarra que empolga na coleção de novas músicas é Lens. Também com letra trabalhada em algo que varia do específico ao amplo, ao mesmo tempo, a letra fala sobre o choque de opiniões. Seja em um relacionamento entre duas pessoas ou em um grupo delas.

Como pessoas parecidas podem ter visões tão diferentes sobre algo? E como isso poderia ser uma experiência rica, se fosse visto com as lentes do amor fraterno? Linda mensagem, com sonoridade muito mais gostosa de se acompanhar do que Guardian. Poderia facilmente substituir esta, como primeiro lançamento do álbum.

“Seu discurso soa mais convincente que o meu
Mas apesar de funcionar muito bem para você,
Só o que vejo é que não estamos conectados”

Segue rigorosamente a estrutura Alanis Morissette de fazer hits, mas nunca seria um. Afinal, os anos 90 já se foram e para uma música fazer sucesso hoje em dia, infelizmente ela precisa trazer uma mensagem besta em um refrão chiclete. Essa aqui exige demais das pessoas. É linda!

Spiral

Esta é praticamente um ET dentro do CD e não faz o menor sentido como junção de letra e melodia. Ou eu sou mesmo muito literal. Seu ritmo é diferente de qualquer canção de Alanis, que soa feliz ao cantar o poema — ou seria poEMO??? Se liga:

“Não me deixe aqui, com meu senso crítico
Pois ele faz o melhor que pode para acabar comigo
Quando estou a sós, com essa negatividade
Eu preciso da sua ajuda para dar a volta por cima”

Tapes (Flavors Of Entanglement) de novo! Só que bem controverso. Como percebe, ela canta que não quer ser abandonada, citando destrutivos pensamentos e vozes negativas em sua cabeça (sua autocrítica, talvez até sua educação católica). Já é estranho sentir Alanis feliz em uma música. A experiência de percebê-la euforicamente transbordando empolgação ao cantar uma letra dessa é simplesmente bizarra.

Começa como um potencial rock, com uma guitarra ascendente. Mas o compasso da bateria fode com tudo. O refrão a la anos 90 chega a ser tão cantarolante quanto uma música antiga do Foo Fighters, na qual a última silaba de um refrão era repetida com várias vocais e o clipe poderia se passar numa montanha-russa. Bring me doooooooouuuoooooowwwnn! Bring me dooo-ow-owwww!

Numb

Aí vem aquele sentimento
Eu corro dele, busco por um remédio
Não posso lidar com isso
Prefiro voar por aí, confortavelmente entopercida

A mistura de guitarra com violino em um clima pesado e de desespero cria um clima poderoso para esta canção de letra sufocante. Você realmente imagina uma fuga alucinada de alguém que tenta escapar de todas as maneiras, pelo caminho errado. Inspira um clipe cinematográfico.

Traz um tema recorrente e atual. Nem todas as canções da Alanis são estritamente pessoais, no sentido de que falam sobre sua vida. Mas acabam sendo, pois expressam sua opinião sobre um assunto. É o caso desta, que retrata o consumo desenfreado de medicamentos, uma maneira aparentemente fácil, mas também perigosa, de enfrentar os problemas — afinal não resolve, apenas anula.

Havoc

Perdoar é compreender que
Há que se firmar o compromisso um milhão de vezes
Para manter em pé esse frágil castelo de cartas

A dualidade está presente no DNA do álbum, uma vez que ele se chama Havoc and Bright Lights. Enquanto Guardian retrata a luz da maternidade e a proteção, Havoc explora as fraquezas, a impulsividade, a inconsequência e a destruição — aqui, seguramente em relacionamentos, mas em outras músicas na insegurança pessoal. É uma letra poderosa para qualquer ser humano que já tenha causado uma decepção amorosa.

Lembra muito a melodia de Not All Me, mas ao contrário desta, Alanis assume sua parcela de culpa. Tem um grupo de cordas tímido e um piano manso.

Win and Win

Um violãozinho num ritmo doce suavizando uma simples lição de moral aprendida em qualquer cursinho de catequese. A mensagem pode ser traduzida a várias situações, de proteção ambiental, profissional ou até mesmo relacionamentos — o forte de Alanis.

A melhor parte está entre os refrões, com os efeitos de voz da cantora que suavizam tudo. Não é o grande destaque do álbum, mas merece certa atenção. Vai dando clima de encerramento ao material.

Enquanto batalharmos com nosso poder
estaremos separados, não olhando através de tudo
Pois somos Eu e Eu
Somos ganhar e ganhar
Somos iguais, uns aos outros

Receive

Não é de se espantar que depois de tantas letras sobre sua autocrítica e sua maneira de amar, Alanis escreva algo sobre aprender a se cuidar, a receber o amor que merece e a aceitar esse retorno. Receive deixa bem claro que a cantora já sofreu por se doar, mas isso está mudando. E que refrão gostoso de se cantar! Chega a ser revigorante.

“Hoje é dia de cuidar de mim, de cuidar do que sinto
Hoje é dia de aprender, aprender como aceitar”

A guitarra começa com uma certa melancolia, como quem acorda para a rotina. Mas o refrão muda tudo, como alguém que decide dedicar o dia a se fazer feliz, a aceitar o que os outros têm a lhe oferecer e se julgar merecedor de receber. Bem construída, com uma bateria certeira.

Edge Of Evolution

Começa com um barulhinho quase tão irritante quanto videogames dos anos 80, mas logo isso fica para trás, pois começa uma bateria indicando a virada. O refrão chega com guitarras arranhadas e efeitos melancólicos de voz. A combinação de sons é de bom gosto e super delicada, como cristais soprados pelo vento.

Simplesmente emocionante! Uma das melhores músicas do álbum, em letra e melodia. Na mira para encerrar o punhado de inéditas e deixar os fãs ainda com vontade de mais e mais.

Aliás, se você está na vontade e ansioso para os shows que Alanis fará aqui em setembro, fica a dia de uma playlist esperta do show recente (e completo) da cantora em Viena.

Todos os vídeos deste post fazem parte desta playlist, que você pode assistir na íntegra aqui.

Sobre o Autor

Avatar

BOXPOP

Site especializado em cultura pop, fundado em agosto de 2007. Confira nossos podcasts, vídeos no youtube e posts em redes sociais. Interessados em contribuir como autor no site podem entrar em contato: contato@boxpop.com.br

Deixe um comentário

clique para comentar

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

OUÇA O BOXCAST

VIDEOCAST

Lidio Mateus, o brazilian singer da internet, comenta todos os bafos e segredos de sua carreira.

Tem série nova na HBO e os bastidores dela foram recheados de TRETAS. A gente conta todas neste vídeo.

Esse é o filme que vai ganhar o Oscar de filme estrangeiro. Neste vídeo comentamos Parasite. Assista!

SEJA UM PADRINHO!

Contribua!

OUÇA ACABEI DE LER