Extant: uma grata surpresa

Um robô médico tem 100% de precisão quando administra uma vacina, mas não conforta uma criança que tem medo de agulha. Um androide repetitivo pode processar depósitos bancários, mas não compartilha da alegria quando o cliente compra sua primeira casa. Acontece que o verdadeiro vale estranho não é visual, é o vale da conexão genuína.” — WOODS, John

Muita gente mal sabia que Extant sequer estava para estrear. Para uma série que tem como protagonista a veterana do cinema Halle Berry, é uma série com pouca divulgação. E, acreditem, é uma grata surpresa. Ao contrário do que possa imaginar, a série bebe bastante da fonte clássica das ficções científicas dramáticas que o cinema já nos entregou. Quem não lembrar de 2001: Uma Odisséia no Espaço e A.I. — Inteligência Artificial em meio às cenas e dramas deste episódio, é porque ainda não viu estes filmes (sendo assim, corra e veja). E mesmo tendo dramas tão parecidos com estes clássicos, Extant consegue criar uma atmosfera única, rica e emocionante.

Acredito que o grande trunfo da série seja seu mundo. Um futuro não tão longe nem tão perto, a tecnologia sendo a parte primordial da vida e sem abandonar coisas simples, como passeio no parque com os filhos. É um futuro bem agradável, sem aqueles extremos que muitas das ficções nos mostram. Aliás, devem estar lá, mas não são relevantes para o desenrolar da trama. Apresentar um mundo somente através daquilo que é necessário foi uma ótima escolha, ao invés de perder tempo com horas de explicações sobre como o mundo gira hoje. É possível pegar pegar detalhes sobre a organização e funcionamento desse futuro na mais simples linha do diálogo.

Outro grande acerto da série foi quanto a não contar somente uma história, mas ainda sim envolvê-las na trama central. Queira ou não, a história é da Molly. Mas o drama de John e seus robôs humanos é tanto parte dela quanto corre à parte. Essa escolha pro roteiro funcionou perfeitamente, deixando a série para tratar de tudo sem necessariamente envolver a protagonista em todos os dramas.

Extant 1x01

E que drama, inclusive. A história principal é intrigante, mas a de John e Ethan foram as mais chamativas. Uma criança robô que é tão humana quanto nós sempre rende bastante pano para manga (agreguem aqui aqueles que ainda entram em prantos ao fim de A.I.). John é um vanguardista e Yasumoto reconhece o potencial de seu projeto. Trazer humanidade às máquinas é uma grande ousadia. Ele enxerga Ethan como uma criança normal, sem sequer nenhuma diferença. Para ele, uma “alma” é nada menos que vivência acumulada e julgamento sobre elas. Ele não está muito longe da realidade. Também é compreensível o medo que os membros do conselho possuem em relação a uma “revolta das máquinas”. Esse medo é algo bem comum para nossa raça, nos tornamos obsoletos em relação à nossa cria, seja ela robótica ou pura carne. Mas John não está errado em questionar a executiva:

Você tem planos para matar sua filha?” — WOODS, John

Molly possui dificuldades com Ethan, bem visíveis. A condição de máquina do garoto faz ela criar um bode expiatório para a relação distante e estranha que ela possui. Ela não o rejeita, mas como qualquer criança que passou um ano longe da mãe, esta conexão está distante. E Molly não quer aceitar a culpa desta distância, não acredita que o tempo longe os afastou. A culpa para ela é e sempre será da programação, da maquinaria. Não bastasse o imenso preconceito que o garoto terá ao longo da vida, logo a mãe utiliza de sua condição para maquiar outro problema.

Os problemas de Molly apenas estão começando. O tempo que passou na estação Seraphim mudou já drasticamente sua vida. Não bastasse as relações instáveis na sua família, ela está misteriosamente grávida. Que bebê é esse? É realmente um bebê? Mais ainda, todos os chefes na ISEA sabem que tem algo de muito errado lá fora. O suicídio de Harmon é algo que realmente marcou pra sempre as viagens para o espaço, mais ainda pelo mistério que agora toma conta de Molly.

A série nem sequer tenta expandir o mistério com a gravidez da personagem. Apenas sabemos que envolve algo muito além do que é possível compreender. A presença de um Marcus fantasma na estação é o mais intrigante, até porque ele não foi capturado pelas câmeras e, no fim, Harmon fala como se soubesse exatamente o que Molly passou na estação. Talvez uma raça alien que está tentando se salvar através da concepção de Molly ou, puxando ainda mais de 2001, talvez seja uma concepção que salve a raça humana. A abertura da série parece deixar claro que a história envolverá extinção, resta a dúvida sobre o que. Mais ainda, o nome da série é o termo biológico extante, que significa “o oposto de extinto”. É bacana como a série introduz significados até em seu título.

Uma série de ficção científica e drama é algo difícil. Este primeiro episódio foi um sucesso em colocar o espectador a par de tudo que é necessário para começar, enquanto ao mesmo tempo já desenvolve muito do seu próprio drama. Mas em se tratando de um mistério tão bem arquitetado, fica o medo sobre o ponto de chegada desta história. Mas se seguir o ritmo deste episódios, com certeza será uma excelente série e não somente “a série com a Halle Berry”.

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