Glee: uma série como nenhuma outra

Fazer parte de algo especial te torna especial” — BERRY, Rachel.

Tudo começou em 2009. A indústria voltava seus olhos para filmes como High School Music e Camp Rock, sucessos mundiais que arrecadaram milhares de dólares. Não demoraria muito para que as emissoras entendessem que produções musicais eram lucrativas e atraiam público. Ryan Murphy, Ian Brennan e Brad Falchuck ofereceram a Fox uma comédia sobre um grupo de alunos excluídos que tinham algo em comum: a música. Para o elenco, foram selecionados atores desconhecidos do público, como Lea Michele (Rachel), Amber Riley (Mercedes), Dianna Agron (Quinn), Cory Monteih (Finn), Chris Colfer (Kurt), entre outros. Além deles, foram selecionados preparadores vocais e coreógrafos. A fórmula para o fenômeno chamado Glee estava criada.

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Gravidez na adolescência, auto-estima, esportes, drogas, triângulos amorosos, relações familiares, traições, competição de egos, enfim, todos os elementos para se produzir uma série adolescente estavam nas narrativas planejadas pelos roteiristas. Porém, Glee contaria suas histórias de uma forma diferente: utilizando hits dos anos 80, 90 e 2000 regravados pelo próprio elenco e criando disputas entre corais de escolas americanas. Em maio de 2009, o episódio piloto foi exibido, sendo elogiado pelo público e crítica, com audiência média de 10 milhões de espectadores só nos Estados Unidos. Resultado: a série foi a primeira da fall season 2009/2010 que teve garantida a produção de uma temporada completa. Nada mal para um programa estreante.

As ótimas performances musicais (You Can’t Always Get What You Want, Push It, Somebody to Love e Keep Holding On são alguns exemplos) eram o chamariz para atrair novos telespectadores. Sabendo disso, os produtores se arriscavam ainda mais ao produzirem mash-ups (junção de duas músicas) e colocando composições de estilos completamente diferentes em um mesmo episódio. Não havia medo de errar, mas sim coragem de inovar.

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Com um roteiro afiado, cheio de referências da cultura pop e piadas irônicas, a série crescia cada vez mais. Adolescentes de todo mundo esperavam ansiosamente pelos lançamentos da tracklists semanais. Os atores que um dia foram desconhecidos, se tornaram ídolos ao redor do mundo, participavam dos programas de Ellen Degeneres e Oprah Winfrey, estampavam capas de revistas, CDs e materiais de merchandisings, e eram seguidos onde estivessem. Não havia mais dúvidas: Glee era um sucesso absoluto.

A repercussão foi tamanha que a Fox renovou a série por mais três anos, embora a primeira temporada ainda estivesse no ar. Esta é uma manobra realizada somente com programas que possam garantir a emissora alto faturamento e audiência. A responsabilidade era grande, e a decisão foi correta.

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Um ano depois e com um Emmy e Globo de Ouro, a série exibiu um episódio logo após o Super Bowl, programa de maior audiência dos Estados Unidos e com o maior valor publicitário no mundo. Artistas pediam que suas músicas fossem regravadas e faziam participações especiais, atores do cinema queriam sair para cantar nos corredores do McKinley High e até Barack Obama parava para assistir e receber Rachel Berry e companhia na Casa Branca. Glee conquistou uma popularidade singular, de dar inveja a qualquer emissora de TV.

A atração era uma mina de ouro. Regravações como Don’t Stop Believing (Journey), baixada mais de 1.422.000 vezes, estiveram no topo da Billboard, principal ranking musical do mundo. A FOX tinha em suas mãos um produto musical extremamente lucrativo em uma época onde as gravadoras buscavam soluções para conter a pirataria.

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Além das performances de hits de Madonna, Michael Jackson, Bruno Mars, ABBA, entre outros, a série recriou espetáculos da Brodway e cenas de filmes musicais, como O Mágico de Oz, Footloose e Grease, mas isso era pouco. Canções originais, como Loser Like Me e Light Up The World, foram escritas para a série e fizeram tanto sucesso quanto os covers que colocaram a atração em evidencia.

A tela da TV não era suficiente. No término da segunda temporada, o elenco saiu em turnê pelos Estados Unidos, gravou um filme e lançou um reality show para recrutar novos talentos. Mesmo fora do ar, a série sempre se manteve em evidência. Glee virou referência e por causa disso, outras atrações do gênero foram criadas, como Nashville e Smash. Porém, nenhuma delas teria o sucesso e fama da pioneira.

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Com a formatura dos principais personagens no final da terceira temporada, Glee precisou se renovar mais uma vez. Para esta nova etapa, forma escalados nomes como Melissa Benoist (Marley), Jacob Artist (Jake) e Becca Tobim (Kitty). Kate Hudson e Whoopi Goldberg também participaram desta nova narrativa, que abordou temas como prostituição, abuso sexual, nudez, bulimia e violência escolar. Tudo estava seguindo para um novo caminho, onde todos os personagens amadureceriam e se tornariam adultos. Porém, havia algo errado. Cory Monteih se afastou das gravações para se tratar do vício em drogas, e a falta de um dos protagonistas prejudicou a qualidade dos roteiros, reescritos de última hora para suprir a ausência de Finn Hudson.

O que seria temporário se tornou permanente. Cory faleceu uma semana antes do início das filmagens da quinta temporada; uma série de comédia estava em luto e seus produtores tinham uma decisão a tomar. A emissora, os criadores de Glee e Lea Michele (namorada do ator na época) decidiram continuar o programa mesmo sem Monteith. Entretanto, a qualidade dos capítulos e a audiência despencaram. Personagens com potencial para contar ótimas histórias, como Marley e Jake, foram esquecidos. Participações especiais de peso, como Demi Lovato e Adam Lambert, não tiveram o destaque merecido. Narrativas do elenco recorrente não foram encerradas. Uma série que sempre teve storylines planejadas com antecedência se perdeu dentro de si mesma.

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Para tentar reverter o problema, o núcleo escolar foi excluído após os excelentes episódios 100 e New Directions, e Nova Iorque se tornou o local abordado na série. Não deu certo. Ryan Murphy e sua equipe estavam com um problema grande e uma temporada final, encomendada antes dessa reviravolta, deveria ser produzida.

Em meio a diversas dificuldades, Glee voltou para sua despedida e trouxe de volta ao Mckilnley High todos personagens que estavam na Big Apple. O último ano mostrou novamente o New Directions em ação por meio de ótimas performances musicais. Os novatos Noah Guthrie (Roderick), Laura Dreyfuss (Madison), Marshall Williams (Spencer), Billy Lewis Jr (Mason) e Samantha Marie Ware (Jane) interpretaram personagens carismáticos que relembraram o início da serie. Foi muito bom rever as competições musicais, marca registrada que a diferenciou de tantas outras obras do gênero.

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Após 121 episódios, 726 performances musicais e seis temporadas, Glee fechou as cortinas do palco do Mckinley High onde aconteceram competições, amores, conflitos e alegrias, porém, deixou acesas suas luzes e provou que “é necessária muita ousadia pra olhar ao seu redor e ver o mundo não como ele é, mas como ele deveria ser. Um mundo em que um quarterback se torna melhor amigo de um gay, e a garota nariguda acaba na Broadway. Glee é sobre imaginar um mundo assim, e achar a coragem para abrir seu coração e cantar sobre isso” (Sue Sylvester).

Glee ditou tendências. Quebrou barreiras e emplacou mais sucessos do que muitos cantores que buscam um lugar nesta indústria tão competitiva. Apresentou ao público composições de qualidade e um elenco singular. Criou uma nova forma de contar histórias e de promover um produto cultural. Mostrou que ser diferente é bom e que, mesmo com tantas dificuldades, “o show tem que continuar… Em todo lugar… Ou algo assim…” (Finn Hudson).

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