Gorda sempre faz papel de Gorda

Novo drama da NBC, This Is Us, fala de gordofobia, mas não deixa de ser clichê.

This Is Us mal estreou e já levou dois prêmios (Critics Choice Awards e People’s Choice Awards) e foi indicada à 3 Globos de Ouro. Todos merecidos, porque o novo drama da NBC, além de falar sobre família e relacionamentos — e ter Milo Ventimiglia e Mandy Moore — também trata de racismo, gênero e gordofobia. Não vou negar que estou apaixonada pela série, mas ela não deixa de ter os seus problemas.

Entre muitos outros assuntos que poderia falar dessa produção, o de hoje vai ser o mais óbvio pra mim. Kate, interpretada por Chrissy Metz, tem 36 anos e está muito além de ser gordinha — o termo que as pessoas mais se sentem confortáveis para tratar quem está acima do peso mas ainda não causa aquele incômodo estético em quem não tem nada a ver com a sua vida — Kate é obesa.

Além de obesa, Kate também é linda. Olhos claros, cabelo levemente ondulado, é inteligente, bondosa, canta muito bem, se preocupa com os outros e é divertida. Mas claro que o roteiro foca no peso. E por isso ela vai nos encontros do Vigilantes do Peso para tentar emagrecer, e lá conhece Toby, um cara ótimo, também gordo, que se apaixona por ela. E sua primeira reação ao conhecer o cara da sua vida é dizer que não pode se apaixonar por um gordo.

Tenho certeza que essa personagem foi escrita para ter inseguranças causadas por sofrer com obesidade desde criança, e ir lidando com isso gradativamente ao longo das temporadas (lembrando que This Is Us já foi renovada para mais duas). Mas gostaria muito de ver uma história em que isso não fosse um problema. Que uma pessoa gorda não fosse tratada como doente ou incapaz de ter um relacionamento feliz porque é gorda. Que ela mesma não se sabotasse porque coloca o seu peso acima de tudo.

olha que gata

Chrissy disse em entrevistas que seu plano é ir emagrecendo junto com a personagem nessa jornada, que, como ela, também sofre com isso desde criança. Na verdade por plano ela quer dizer que assinou um contrato que a obriga a fazer isso. E não tem nada de errado com um gordo que quer emagrecer — só espero de verdade que ela tenha feito isso porque realmente quer. Mas com tantos assuntos complexos sendo lidados de maneira tão leve numa série, fico decepcionada ao ver que o peso ainda é um tabu maior do que raça ou orientação sexual.

Veja bem, não estou dizendo que é mais difícil ser gorda, só que seria maravilhoso se a gorda fosse uma pessoa com problemas normais, como o emprego ruim ou falta de confiança, sem que nada disso estivesse necessariamente ligado à balança. Como o Josh de Please Like Me, série com um protagonista gay que fala principalmente sobre relacionamentos, sem em momento algum problematizar o fato de ele ser quem é.

Eu quero ver gordas sendo felizes como são, tendo orgulho do próprio corpo e interpretando papeis comuns no cinema e na televisão.

Quer saber quantos personagens estão acima do peso estão nessa série? Só Kate e Toby, todos os outros estão dentro dos padrões. Então é pra tratar de obesidade, mas só se a gorda quiser emagrecer. Só se ela entender como ser gorda é errado e lutar muito para reverter essa situação e finalmente ser feliz.

Não quero também tirar o mérito de Chrissy, que inclusive foi indicada como Melhor Atriz Coadjuvante (junto com Mandy Moore) no Globo de Ouro. Sua personagem é bem desenvolvida e cativante, e ela está fazendo um ótimo trabalho. O que me incomoda é o estereótipo que ela está representando.

Esse texto é mais para refletirmos porque a gorda feliz incomoda, como diz esse texto lindo da Polly, do Lugar de Mulher. Já vimos muitas gordas tentando emagrecer e sendo felizes eventualmente APESAR do peso. Também já vimos muitos gordos conquistando mulheres magras — outra problematização que vou elaborar mais outro dia — mas raramente o contrário. E não aguentamos mais os gordos engraçados. Queremos gordas vilãs, gordas antipáticas, gordas sensíveis, gordas de sucesso, gordas sendo felizes exatamente como são.

No fundo eu tenho aqui aquela esperança de que um dia Kate vai entender que não precisa ser magra pra ser feliz, que na verdade já tem tudo que precisa: ela mesma. Enquanto isso não acontece, sigo aqui criticando o clichê da gordofobia, que por mais que retrate sim muito do que as mulheres gordas enfrentam, não nos ajuda de nenhuma forma. A gorda que quer emagrecer ainda é socialmente aceita e amplamente representada. A gorda feliz é que é o problema.

Tess Holliday, uma gorda feliz sendo quem é 🙂

PS: Sei que não falo sobre isso nesse texto, mas gordas também tem problemas para se vestirem, porque é difícil ter estilo quando não se vendem roupas bonitas acima do manequim 48. Então se você é gorda, está lendo esse texto, e mora ou consegue chegar com facilidade em São Paulo, deixo aqui a dica do Bazar Pop Plus, organizado pela Flávia Durante, que tem muita roupa estilosa para gordas ❤

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