Grammy 2017 reflete ano ruim do mainstream e aposta no óbvio

As premiações de música já tiveram dias melhores. Com tudo tão homogêneo na indústria fonográfica, anda meio difícil de traduzir a pluralidade escondida da produção musical de um ano em apenas cinco indicações por categoria.

Pra driblar o erro, a Academia optou pelo básico, juntando vários “sucessos” comerciais que provocaram buzz durante o ano passado. A classe A do sistemão dominante brilhou, mas faltou aquela qualidade recém-desabrochada que as premiações nos deveriam ajudar a descobrir.

Em 2011, Justin Bieber foi indicado a artista revelação, já com hits bombados e promoção exorbitante. Poderia ter vencido pelo barulho que causou na época, mas assim como Drake, Florence + the Machine e Mumford & Sons, Justin perdeu para Esperanza Spalding, uma multi-instrumentista talentosa do jazz underground que ninguém conhecia. Ela, mais do que os outros, precisava do empurrão que só um Grammy dourado e esnobe pode oferecer.

Fica a impressão, quando olhamos pra trás, que o Grammy desistiu de escutar discos e resolveu escutar somente rádios e o ranking do Itunes. Os votantes ficaram preguiçosos? Talvez. Mas a música mainstream de 2016 definitivamente não ajudou. A lista genérica e básica de indicações é só um espelho.

Formação bem-sucedida

Na frente do resto, Beyoncé conseguiu nove indicações pelo álbum Lemonade, que apesar de não ter nenhum hit ou música marcante para a carreira dela, fez muita gente achar que ela era uma nova mulher, uma nova artista, com nova imagem e novas intenções.

Rindo dos haters

Discreta e quase robótica, Beyoncé quase não dá entrevistas, não viraliza vídeos discursando e pouco fala sobre o que faz e o que pensa. Ela manda seu recado pela música — e pelo visto, todo mundo estava muito disposto a ouvir e entender. O momento não poderia ter sido mais adequado e o Lemonade chegou com frescor inebriante aos ouvidos da cultura pop.

Mais genuíno e difícil de digerir que seus outros trabalhos (todos premiadíssimos), o sexto álbum de Beyoncé é diferentão, mas peca no seu objetivo se comparado com alguns irmãos que o precederam, como o Janet Jackson’s Rythim Nation 1814. Só o tempo pode provar se o disco é oportunista ou avant-garde e visionário. Ganhando ou não o prêmio de álbum do ano, Lemonade já tem apoio da crítica o suficiente para deixar qualquer fã morto de orgulho.

A canção Don’t hurt yourself (sample de When the levees breaks, do Led Zeppelin, com uma letra ruim) rendeu a indicação controversa de melhor performance de rock. Já Formation, o maior êxito do álbum, concorre a Gravação do Ano e Canção do Ano (a primeira para a melhor produção e a segunda, melhor letra e composição). Mesmo com competição pesada, Beyoncé deve garantir no mínimo uns três gramofones: o mais merecido deles seria por melhor performance pop solo, pela deliciosa Hold Up (que também é um sample).

Telefone mudo

Todos imaginavam que Adele iria peitar Beyoncé no número de indicações, mas ela acabou pagando caro por sua falta de versatilidade. O seu último CD, 25, seguiu direitinho a receita dos outros dois (19 e 21), com quase todas as músicas iguais, com poesias melódicas e muito charme britânico. O álbum mais vendido do ano rendeu a Adele cinco indicações.

E o Grammy de melhor pessoa fofa fazendo careta vai para…

Adele vai enfrentar Beyoncé nas três principais categorias dessa edição e a mais almejada por ela com certeza é a Canção do Ano, que celebraria suas habilidades como compositora. Hello não é uma letra pra deixar ninguém de queixo caído e parece até linear demais considerando o estilo da Adele, mas ela é tão querida pelos votantes (e por todo mundo) que fica difícil dizer não pra essa carinha de anjo de voz tranquilizante.

Alguém explica?

Anti, da Rihanna, é melhor que todos os CDs indicados a álbum do ano. É um disco redondo, conectado, que conta uma história e deixa legado. Rihanna não se reinventou, mas repensou a ideia de si mesma em músicas fortes e colossais, que dialogam entre si. Beyoncé dispensou os vocais e prezou pela sonoridade em Lemonade, mas Rihanna abraçou ambos como se fossem um só em Anti. O resultado é poderoso.

O single que comanda o trabalho, Work, infelizmente depõe contra todas essas qualidades. Talvez isso explique porque o hit, em parceria com Drake, conquistou indicações importantes e o álbum foi ignorado. Os votantes não se deram ao esforço de ir além da imagem de sempre, da Rihanna de sempre. Uma música que chegou ao primeiro lugar das paradas falou mais alto que todas as outras 12 menos conhecidas.

Mas a gente se amarra, né?

Love on the brain, uma das melhores e mais originais faixas dessa década, passou despercebida. Kiss it better e Needed Me foram lembradas. A verdade é que, independente do número de vitórias, a impressão que fica é que o Anti merecia muito mais repercussão.

Dentes de leites

Esse Grammy deu um espaço significativo para as estrelas teens e a criançada ficou louca com a lista de indicados. O farofão Purpose, de Justin Bieber, um compilado de eletronic dance music (EDM) produzido por DJs hypados que lotam festivais, foi indicado a álbum do ano. A joia rara da coroa, Love yourself, aparece entre as melhores composições do ano e seria uma agradável surpresa se fosse a vitoriosa.

Como o ‘Norvana’, Justin uniu todas as tribos

O CD, que paga de ousado mas que qualquer bom mixador poderia fazer, foi um pulo importante na carreira de Bieber, que mesmo ainda sendo visto como garoto problema, conseguiu alçar novos públicos — incluindo um bem difícil na música pop: os homens héteros, que debochavam dele e das fãs até dia desses, e agora dançam Sorry na balada com os amigos gays. O que o Skrillex e Diplo fazem é maravilhoso, mas eles não são celebridades e nem personificam ou aspiram desejos de idolatria. Justin, sim. E só por sacar isso antes de todo mundo, ele já merece um Grammy.

Pedalando rumo a 1 milhão de cópias vendidas

Creditado por alguns como o disco que salvou o pop de verdade em 2016, Dangerous Woman era um álbum que merecia Ariana Grande como intérprete. Jovial, descolado e quase um atestado de emancipação, Ariana poderia ter ido além, mas fez o que achava que podia e faturou indicações valiosas para a sua carreira.

Cravejado com a produção de Max Martin, o CD é melhor que o antecessor My Everything (recheado de grandes sucessos) e está ligeiramente equiparado ao álbum de estreia Yours Truly (quando ela ainda “só” era a nova Mariah Carey). Bom de ouvir e repetir, o CD mereceu o reconhecimento do Grammy.

Demi conseguiu primeira indicação após cinco discos lançados

Demi Lovato anda meio sumida, afogada entre sua personalidade encrenqueira e falta de espaço na mídia. Seu último álbum, Confident, se esvaziou rápido após a explosão de Cool for the summer. O status de “nova diva” já vinha demonstrado sinais de esgotamento quando de repente… ELA FOI INDICADA A MELHOR ÁLBUM VOCAL DE POP.

É importante lembrar que o “vocal” no título da categoria não existe para glorificar os vocais da Demi (que são até bons), mas sim para diferenciar da categoria Melhor álbum instrumental de pop. Dito isso, Confident é bem produzido e palatável. Essa indicação talvez seja o suspiro que Demi precisava para se concentrar no que ela faz de melhor: música. Só assim para ela esquecer as distrações. Ela vai se lembrar que as pessoas lembram dela apesar de tudo e que sabem de seu valor.

Raplândia

Tupac Shakur, rapper considerado lendário e admirado por todos os outros rappers, nunca ganhou nenhum Grammy. Kanye West já ganhou 21. E a Academia resolveu indicá-lo para mais oito esse ano. Sempre na crista da onda e um perseguidor incansável de polêmicas, Kanye conseguiu promover The Life of Pablo sem dificuldades, um CD ok, que está longe de ser o próximo Graduation.

Como assim o Tupac nunca ganhou?

Assim como Kanye, o canadense Drake, que tem encantado cada vez mais gente, também conseguiu oito indicações. O álbum Views é excelente e tem muitas músicas (uma delas se chama Grammys). A estética da era é bem formulada. A persona de palco de Drake, apaixonante. Ele está no momento dele de sair de mãos cheias.

Por que esse homem faz isso com a gente?

Não foi dessa vez

Revival, de Selena Gomez, passou despercebido. Do time das divas mirins, ela ficou de fora e ninguém na internet curtiu. O CD, pop até o último fio de cabelo, merecia pelo menos uma indicaçãozinha. Foi uma pena mesmo. Já o Fifth Harmony não foi lembrado nem pelo CD 7/27 ou pelo hit Work from Home, facilmente encaixável em melhor performance pop de dupla ou grupo.

A gente também ficou chocado, miga

Justin Timberlake, aclamado por Can’t Stop the Feeling, também não deu as caras. Shawn Mendes, Troy Sivan e Alessia Cara, com trabalhos consistentes e populares, foram esquecidos na hora da escolha para Artista Revelação.

No mais, assim como qualquer premiação, o Grammy é a opinião de um seleto grupo de pessoas materializada em um troféu caro. É importante? Muito. Qualifica algum artista como bom, ruim ou melhor que outro? Não. É tudo na vida? Mas não mesmo. O Grammy 2017 rola dia 12 de janeiro, com apresentação de James Corden. Não dá pra perder (na verdade até dá, mas a gente não vai).

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