House 8×22 — Everybody Dies [Series Finale]

O fim de House era visto por todos como um evento que simplesmente não podia dar certo. Mesmo assim, os fãs da série continuaram esperançosos de que o finale ainda podia encerrar toda a saga de Gregory House de forma à sustentar as expectativas criadas ao longo dessas oito temporadas.

Para quem esperava que que o título do episódio, Everybody Dies, predissesse a morte do protagonista, David Shore conseguiu surpreender a todos — mesmo que, no fim das contas, House realmente morra de diversas formas.

À primeira vista, a sinopse do episódio — de que House trataria de um paciente viciado em drogas que o faria refletir sobre seu passado e seu futuro — parecia incabível para o final da série. Tratar de um paciente que ninguém nunca viu, quando tantas coisas estão acontecendo, não soava como o tema a se tratar no encerramento épico que a série demandava.

Entretanto, House nunca foi uma série previsível. Woody Allen descreve, numa de suas entrevistas a Eric lax, que um roteiro que surpreenda o espectador deve ser como um truque de mágica: você faz com que a audiência olhe para uma coisa enquanto você faz outra. Desde a sinopse, o finale de House funciona dessa forma.

Apesar do caso de um novo paciente, da sentença que o médico recebeu no último episódio, e da morte eminente de Wilson, este é um episódio sobre House.

Estruturalmente, ele é simplesmente perfeito: seja analisado como um episódio só, ou como o epílogo de tudo o que foi dito e ouvido ao longo da série. Everybody Dies não deixa pontas soltas em nenhum aspecto — todos os assuntos que mereciam ser revistos, foram analisados de forma bastante conclusiva, da tristeza à sociopatia.

Usar os personagens mais memoráveis e suas respectivas personalidades para confrontar o discurso que rege a narrativa da série foi a melhor forma de fazer deste episódio um final incontestável para House.

Pela primeira vez, David Shore deixa claro o papel da equipe de diagnóstico dentro da alegoria de que Gregory House é, na verdade, Sherlock “Homes”. Se House é Holmes e Wilson é Watson (e os personagens de Conan Doyle terminaram aí), a equipe de diagnóstico nada mais é que as diferentes correntes de pensamento que o próprio House tem em sua cabeça.

Durante todos os momentos em que a existência e a composição da equipe foram contestados, a série deixa claro que o papel de cada membro é confrontar a linha de pensamento superficial do médico: dar a ele novas ideias, mesmo que sejam erradas.

É para isso que surgem os antigos personagens de House: ir contra todas as verdades que estão sedimentadas no seu consciente, afim de quebrar uma das maiores verdades postuladas pela série.

Apesar do episódio ter o nome de uma famosa frase do médico — “todo mundo mente” — o episódio final é uma luta que House enfrenta contra ele mesmo, a fim de provar que a ideia de que “as pessoas não mudam” está equivocada.

Ao longo da série, grandes situações consideradas impossíveis pelo próprio eixo discursivo de House foram subvertidas, como as trocas de equipe e até a vida de House à dois — não com Domenika, mas com a Cuddy, que teve um efeito prático e dramático em toda a série, seja enquanto durou ou mesmo após terminado.

Mas tudo isso teve como base as mesmas justificativas — tudo estava edificado sobre aquilo em que o protagonista acreditava. Desta vez, a série se volta, pela primeira vez, para um lado otimista da vida, encarando que, mesmo no pior dos cenários, vale a pena estar vivo.

Para uma obra que se vangloria de uma visão realista e pejorativa da sociedade, talvez mudar o foco da pergunta para obter novas respostas tenha sido o melhor (e talvez único) jeito de encerrar a série de uma forma memorável. Mesmo assim, o grande mérito ainda é de tê-lo feito de forma que o episódio não destoa do resto da série.

O eixo do episódio lembra os pensamentos lançados por Alain de Botton em seu livro Religião para ateus, de 2011, em que ele se propõe a analisar a vida e a nossa existência tendo como base a crença de que Deus não existe.

Em House, no entanto, os assuntos debatidos são a razão para se viver quando tudo está dando errado; o conceito de morte como escapatória dos problemas da vida; e a ideia de que nós, como seres vivos, tendemos a preferir a vida, mesmo nos cenários mais adversos.

Para esta série, falar sobre como nós sempre temos motivos para nos manter vivos (e, talvez, felizes) é um assunto terrivelmente delicado — afinal, a tendência desse discurso de aproximar de um livro de autoajuda é muito grande, e isso estaria irritantemente distante da obra e do seu propósito.

Para isso, como sempre em House, o episódio é dirigido através do diálogo do protagonista com ele mesmo em uma alucinação. Se os episódios importantes em House não são dirigidos pela subversão da relação médico-paciente, eles são dirigidos por alucinações metafóricas — quando não os dois juntos.

Desta vez, House vê antigos personagens que tiveram grande peso: Kutner, Amber, Cameron e até a esquecida Stacy Warner, ex-par romântico de House. O papel que cada um tem como subconsciente do próprio House não podia ser melhor.

Kutner enfrenta House como o seu verdadeiro eu, que não aceita a verdade recém-adquirida de que a morte pode ser o melhor remédio para os problemas. Ele também remete ao papel que o próprio House teve no episódio anterior, defendendo que nós temos, antes de tudo, o dever de ficar vivos.

Amber atua como a consciência do médico, tentando provar que o que ele está fazendo é estúpido, e o extremo oposto de tudo o que ele realmente acredita. Por isso o consciente de House está sempre tentando esconder coisas dela e, conforme dito nos próprios diálogos, tentando mentir para si mesmo, afim de acreditar que meias verdades devem ser aceitas como conceitos completos.

Stacy está presente como a Cuddy estaria — se David Shore não estivesse rancoroso com a saída egoísta dela do programa. Ela simboliza a ideia de que até mesmo House pode ser feliz, como ele já foi ao lado das duas. E que, mesmo tendo perdido as duas oportunidades (dezenas de vezes), ele ainda é capaz de conseguir. Com a cena do bebê, essa é a que mais periga cair na autoajuda — mas é interessantíssimo terem resgatado todo o passado da série nesse momento, trazendo uma personagem tão distante da realidade atual.

Por fim, Cameron — sinceramente, quem não gosta da Cameron? — vem para dizer que House está certo em querer morrer, como forma de dar fim ao seu sofrimento, que é a única verdadeira constante na série. A dor de House é ontológica, uma vez que gera a sociopatia e a objetividade que diferenciam House de todas as outras obras já vistas na TV.

Mas, da mesma forma que ela está ali para ser comiserativa para com o protagonista em seu momento de fraqueza, ela também o faz encarar que o momento para se render ao descanso não pode ser este, e que ele está ali pelos motivos errados. Cameron admite que House merece o descanso, e é aí que ele confronta ele mesmo, admitindo que ele não deveria estar ali.

A inversão de situação nesse momento é tão sutil e, de certa forma, tão complexa, que você mal percebe que um toma o lugar do outro na discussão. O personagem de House é um homem extremamente racional que sabe encarar cada propósito em sua origem. É espetacular a forma como toda essa profundidade psicológica é manipulada na medida exata.

O momento em que House desiste da morte e é obrigado pelo seu próprio subconsciente a tomar uma decisão mais corajosa e mudar, baseado nas coisas em que ele mesmo acredita, é o mais importante de todo o episódio e não podia ter sido conduzido de um jeito melhor.

O episódio ainda guarda momentos excepcionais, como a ideia de que a morte, como oposto à vida e tudo o que ela tem de ruim, também é o oposto a tudo o que ela tem de bom; e até estranhos, como as frases emocionantes que House solta em seus momentos de fraqueza (que chegam a soar ridículos e seriam até fora da realidade, não fosse ele voltar ao comportamento displicente de sempre, logo em seguida).

Em alguns momentos, a série se debate entre ‘contar a história deste episódio’ e ‘concluir a história de toda a série’, como no funeral do protagonista, onde a cena se divide entre três vertentes que se espremem no mesmo momento: enquanto a série se emociona ao se despedir do ídolo que todos amam na morte, ela também se obriga a se vingar do sociopata que todos amamos em vida, e ainda ri de si mesma num momento de constrangimento cômico que acaba levando Wilson ao encontro final com seu amigo.

Enfim, House se encerra cumprindo todos os requisitos do final de uma grande história: encarando seu passado, enfrentando um amargo presente e encontrando novas respostas para um esperançoso futuro.

Vindo de uma série que pregou verdades opressoras e mórbidas facetas da nossa realidade, terminar com mensagens de “seja feliz enquanto pode” e “você só vive uma vez” parece surreal. Mas House consegue subverter suas próprias regras e verdades e uma forma incrivelmente complexa e delicada, mantendo-se uma série coesa e circunspecta mesmo mudando o discurso que a fez uma das melhores séries já vistas na história da televisão.

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