Inacreditável é a minissérie que você não quer, mas precisa ver

Série agridoce choca com uma realidade muito comum: o estupro.

É tarde da noite. Uma moça dorme pacificamente em sua casa. De repente, um homem mascarado invade sua casa, a amarra, tira fotos dela nua e a estupra.

Por horas e horas e horas. Ao chamar a polícia, começa toda a burocracia. Junto com exames e depoimentos, começam questionamentos. Poderia ser a realidade de qualquer mulher não só nos Estados Unidos, como em várias partes do mundo (incluindo o Brasil), mas é o primeiro episódio da minissérie Inacreditável, da Netflix.

Com incríveis oito episódios, a minissérie protagonizada pelas vencedoras do Emmy Toni Collette (United States of Tara, O Sexto Sentido) e Merrit Wever (Nurse Jackie, The Walking Dead) traça dois paralelos entre investigações de estupro. Primeiro vem o padrão, com policiais mal preparados que não sabem conduzir uma investigação. Depois, somos apresentados às investigadoras Rasmussen (Collette) e Duvall (Wever, na melhor atuação de sua carreira) e sua completa entrega para resolver os crimes.

Os detalhes do quão tenebroso é o processo de denúncia de um estupro, desde os depoimentos falados e escritos, passando pelo exame de corpo e delito e terminando com o exame de estupro, são exibidos quase na íntegra.

Também são mostrados os preconceitos, as dúvidas e as suposições feitas às vítimas. Um cruel retrato da vida real. E também uma amostra do porquê apenas 10% dos crimes sexuais são notificados no Brasil.

A verdade é que as pessoas não acreditam quando um crime desses acontece. Primeiro por que a visão de um estuprador é sempre o homem na rua. Mas na realidade, 68% dos casos de estupro no Brasil são cometidos por pessoas próximas à vítima, como amigos, cônjuges ou familiares.

Quando os outros 32% acontecem a primeira pergunta costuma ser “mas o que ela estava vestindo?”, como se a roupa fosse motivo para esse tipo de crime. Outro ponto comum é o julgamento do caráter da vítima, questionando se ela não queria e depois decidiu dizer que não.

Em todos os casos, a mulher tem sua vida escrutinada, sendo sempre tratada como a culpada. A mulher, que já foi violada, não só fisicamente durante o ato, como também nos exames para comprovar o estupro, onde colhem amostras de seus órgãos genitais, de sua pele, de sua boca, de suas unhas, tem seu caráter posto à prova e de quebra, sofre com a desconfiança e o preconceito de todos.

O estupro é o único crime que carrega esse tipo de situação.

Se você for assaltado, ninguém vai falar “ah, mas você estava se oferecendo…” Se você sofrer um sequestro-relâmpago, ninguém vai te acusar de estar esbanjando dinheiro. Porque a vítima de estupro ainda é descreditada?

A minissérie é baseada na história real de Marie Adler. Em seus oito episódios a obra mostra todas as consequências negativas de denunciar um estupro.

E o final te trás uma sensação agridoce. Assim como a realidade. A vida imitando a arte ou a arte imitando a vida? Não importa, o que importa é que você não pode perder a oportunidade de ver uma das melhores estreias do ano.

Inacreditável
Criado por Susannah Grant, Ayelet Waldman e Michael Chabon.
Baseado no artigo “An Unbelievable Story of Rape“.
Elenco: Toni Collette, Merrit Wever, Kaitlyn Dever.
Estreou na Netflix em 13 de setembro de 2019.

Sobre o Autor

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Michele Bernardes

Professora, tradutora, escritora, geek e nas horas vagas viciada em séries. Ex-SOS Sailor Moon. Escreve no Soul Geek e no BOXPOP.

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