“LaLaLand” é poesia cantada sobre a coragem de sonhar

Nós crescemos ouvindo que sonhar é de graça. Mas por que ninguém avisa que realizar um sonho pode custar tão caro? Foi por isso que LaLaLand (2016) decidiu fazer esse trabalho sujo. Ele avisa — e não com um sopro no ouvido numa manhã fria ou uma cutucada nas costas vindo da mão macia da nossa mãe. LaLaLand é o despertador estridente, barulhento e incômodo, que você quer desligar ou apertar no modo soneca, mas sabe que não pode.

Qualquer texto de qualquer autor vai ser insuficiente para descrever o filme depois que David Sexton, do Evening Standard, profetizou: “Não se fazem mais filmes assim” — e de fato, nem na minha imaginação mais palpável, eu apostaria dizer que um musical desse tamanho e com esse espírito seria feito e, além disso, abraçado pelo mundo, considerando a época em que vivemos.

O diretor e roteirista Damien Chazelle veio fresco do sucesso Whiplash (2014) e cada toque da sua genialidade de noviço renascentista é potencializado na sua nova obra, já munida de aclamação universal, plateias arrebatadas e críticas de dar inveja. Sua câmera e seu texto não decepcionam em nenhum segundo, cheios de referências bárbaras.

A história da barista aspirante a atriz, Mia (Emma Stone), e do pianista que planeja salvar o futuro do jazz, Sebastian (Ryan Gosling), tinha tudo para ser piegas e cheia de clichês. Mas Chazelle desviou de todas essas balas. A história é grandiosa, mas cativante na pureza dos detalhes, minuciosos e simplistas sem serem simplórios. Acolhedora, mas sem ingenuidade. Cada linha do roteiro tem a preocupação de nos manter com os pés no chão, sem nos enganar mas ainda deixando a gente caminhar pelas estrelas, sabendo que a chance de cair a qualquer momento é grande. Foi esse equilíbrio, acredito, que rendeu ao filme todo seu sucesso.

A cena de abertura, colossal e gigantesca, é uma sequência sem cortes de coregrafias, batidas e movimentos de câmeras que parecem espadas se embainhando sozinhas. Ela levanta o patamar e o padrão esperado do resto do filme. Com uma direção fina e enérgica, Chazelle dança junto com os figurantes e nos faz querer estar presos num trânsito em Los Angeles, no meio de todos aqueles aspirantes a artistas. Como isso é possível? Fácil: cinema.

O cinema nos faz querer estar em lugares que nunca pensamos em pisar, cantando músicas em línguas que não sabemos falar e beijar pessoas que acabamos de conhecer na rua. O realismo virou tão obrigatório no cinema mainstream dito de qualidade, que a fantasia ficou para filmes de heróis impossíveis de provocarem identificação (e com muito efeito especial e pouca poesia).

Mas LaLaLand não quis se conformar com isso. O filme dá espaço e incentiva o sonho como se ele fosse uma qualidade rara num mundo descrente demais. Nos leva a uma experiência em que a prioridade não é pensar que essa história poderia ter acontecido com você e só. Na verdade, o filme te faz refletir: e se essa história tivesse acontecido comigo? Ou pior: já aconteceu? O que eu fiz? O que eu faria?

Com cara de antigo e todo gravado em CinemaScope, o filme tem uma fotografia lavada e chapada, com cores vivas, que ativam um poder sensorial agoniante em quem assiste, dando vontade de printar tudo e fazer quadros das cenas para botar na sala. Mas aí de vez em quando um celular toca e um alarme de carro aparece, para lembrarmos que o filme se passa nos dias de hoje. O musical não foi esquecido. Ele ainda só não tinha se vestido de moderno. LaLaLand é atemporal. Seria elogiado tanto em 1950 quanto em 2025.

Muito sutil, o filme não duvida da inteligência do espectador e deixa, em cada diálogo aberto, a subjetividade de quem assiste brilhar. Quem decide o quão profunda ou boba foi a frase é a plateia, tão protagonista do filme quanto Mia e Sebastian.

O final é de deixar o coração na boca. Mas sem ele, nada teria valido a pena. Peculiar, arriscado e imprevisível, deixou a plateia da minha sessão sem reação e o climão que ficou na sala poderia ter sido cortado no ar com uma faca, de tão sólido e presente que se mostrou — assim como o roteiro durante as duas horas de filme.

As canções são tão bem encaixadas na história que os haters de musicais podem assistir e, com boa vontade, até se esquecerem de que se trata de um gênero tão desapreciado e mal falado. Se os personagens pouco expressam as dores e alegrias de sua alma prosando, é na letra de cada música que descobrimos o que se passa pelo coração atribulado de Mia e Sebastian, que acompanhamos na folhinha durante um ano, em estações que desejaríamos que nunca acabassem.

O casal de protagonistas tem química e é simpático. A todo momento, Emma e Gosling fazem parecer que é fácil rodar tantos pratos, numa rapidez harmoniosa, em cima de varas de malabarismo que parecem que vão envergar em momentos de silêncio. Mas aí eles fazem uma piadinha com aquela expressão facial de sem vergonhice única. E então se entendem com o público, que sai da trincheira com uma bandeira branca e rindo, como se nada tivesse acontecido. A presença de ambos é tão completa e espaçosa que o longa-metragem se deu o luxo de não ter coadjuvantes.

Eles se amam, mas amam mais ainda os sonhos que sonharam, e se ajudaram e se apoiaram, sem medo de precisar um do outro. O quão sortudos Mia e Sebastian foram de terem se encontrado? O quão azarados foram Mia e Sebastian de terem se encontrado, no momento em que se encontraram?

Não é tarefa fácil acreditar que nós aceitamos o amor que achamos que merecemos. É uma questão que faz a gente perder o sono, se desconcentrar no trabalho e achar que somos estúpidos. Se a gente não fantasiar, não sonhar, como seguir em frente? É muito difícil. Isso é o que filme tenta nos lembrar. “Romântico”, como Sebastian nos alertou, não deveria ser falado como palavrão. E muito menos “sonhador”.

Muito escapista em tempos de engajamento forçado, LaLaLand pode ser facilmente acusado de cínico e alienado, especialmente nos Estados Unidos, por ser o maior sucesso do ano, em plena transição Obama-Trump. Mas o seu significado vai além do que os muitos Oscars que irá receber podem representar: é uma homenagem à Hollywood antiga, aos românticos e aos sonhadores (desde os fracassados até os bem sucedidos).

Nem sempre somos acordados da melhor forma. Nem sempre arrumamos a cama que queremos dormir. Às vezes, vamos para debaixo do cobertor sabendo que o próximo dia será ruim. Mas de qual outra forma nós sonharíamos sem, apesar de tudo, dormir? LaLaLand é um sonho pintado no aconchego de um travesseiro, materializado em uma tela imensa que nem a mais fértil imaginação poderia pincelar igual. Porque assistir é melhor do que sonhar. Melhor: viver é melhor do que sonhar.

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