Legalzinha, 3% já estreou mofada

Era 2011. O piloto de 3% bombou no Youtube e no Orkut. Era uma série que contava sobre uma sociedade mais rica que escolhia 3% dos jovens de uma sociedade pobre para mudarem de lado. Fiquei ensandecido. Eu mandei o link para todos os meus amigos no MSN — parece que foi ontem. Mais curta, mais original e com menos grana, 3% contou com divulgação massiva e todo mundo na internet cobrou o resto da história. Cinco anos depois e com dez milhões a mais no orçamento, a espera se materializou na primeira produção brasileira da Netflix.

Logo, o principal problema da série é o timing. Se lançada em 2011, 3% teria sido o estopim responsável por Jogos Vorazes, Maze Runner, Divergente, Elysium e todas essas produções que apresentam uma visão futurista da luta de classes. Só que como esse cano de filme infanto-juvenil estourou antes do projeto se concretizar, a ideia, antes inovadora, chega ao grande público com cheiro de mofo e cara de ultrapassada.

Em seus oito episódios, 3% escancara muitas imperfeições, mas sempre com motivações para que o espectador continue tentando gostar e apreciar a primeira inserção do Brasil no serviço de streaming que dominou o mundo. Gravada no Itaquerão, em São Paulo, a estética não chega a convencer mas não provoca um incômodo que a torne impossível de assistir. Já nas provas, a coisa muda de figura: os cenários deixam as cenas mais pulsantes, eletrizantes e provocam tensão. Faltou grana, mas não faltou vontade de acertar. A trilha sonora é ótima. Apesar de não casar sempre com o enredo, sempre é hora de ouvir Elza Soares.

Mesmo lenta e com algumas cenas desnecessárias, muito explicativas e com enrolação de sobra, 3% não te deixa cansado justamente pela premissa da história, essencialmente curiosa e peculiar, que te faz especular quem vai conseguir ou não. É como se gravassem o ensino médio e nós pudéssemos ver nossos amigos fofocando sobre quem passaria no vestibular entre os que se matam de estudar e os que só dormem em sala. O delírio da série é para além da realidade palpável, mas você provavelmente presenciou muitas daquelas provas na sua vida, onde a glória é para poucos e a imensa maioria desfruta o fracasso.

Brasil para poucos e sociedade distópica já eram moda em 1933 nos quadros de Tarsila do Amaral

Explorando a meritocracia, o anti-utopismo, a desigualdade e a eugenia, 3% triunfa mais pelos acontecimentos do que pelo texto, às vezes engessado demais, cru e sem poesia. Carente de imprevisibilidade mas com plot twists ligeiramente empolgantes, a produção arrisca com seus testes bem pensados e os personagens bem construídos, que nos fazem torcer e desconfiar ao mesmo tempo, odiar e sentir pena num mesmo minuto. Esse maniqueísmo fluído é um dos golaços de 3%. O teor político é assustador e, como diria a sábia internet: Meoooooo isso é muito Black Mirror!!!

Numa Amazônia Subequatorial (a abertura sugere que tudo se passa no litoral do Pará) pobre e sem recursos, todo mundo saiu da favela gigante para entrar no Processo com roupas rasgadas e sujas, mas com dentes branquíssimos e pele de pêssego. O cuidado de produção existiu, mas se provou incompleto. Não colou. Os gráficos e efeitos especiais estão longe de ser hollywoodianos, mas se for parar pra pensar: nem os de Hollywood às vezes são. Tem série americana, como Revenge, que fez coisa muito pior. Acho a crítica rasa e não creio que prejudica o produto final.

Com a suposta heroína Michelle em mãos, Bianca Comparato prova mais uma vez (as outras foram em Sessão de Terapia e A menina sem qualidades) que é, ao lado de Alice Braga e Morena Baccarin, a brasileira que mais se adapta a linguagem e entende o jeito de fazer série, com uma atuação afiada, permeada de sutilezas e evitando o exagero das linearidades das atuações de novela e TV, típico dos atores brasileiros. Com personagens cheios de camadas, a série traz ainda ótimas figuras centrais além de Michelle, como Joana, Rafael e Fernando.

Como um filhinho de papai com família de tradição no Processo, Rafael Lozano é um deleite horripilante em 3%

Se por um lado os cortes de cenas vagas e vazias somariam fácil um episódio ou dois, o roteiro fez milagres no quarto e no quinto capítulo da série. Em Portão, a aflição de ver adolescentes enfrentando sua própria redenção de Ensaio sobre a cegueira é para prender qualquer um na tela, com uma atuação meticulosa de Rafael Lozano (que já é incrível desde Sessão de Terapia). Interpretando um lobo em pele de cordeiro, o ator promoveu uma mudança catastrófica e cheia de nuances em Marco, personagem cordial e polido que virou um psicopata com cara de clássico do cinema. Mesmo acontecendo tudo rápido demais, foi um dos pontos altos da série.

Água, o quinto episódio, é profundamente emocional, triste e incorpora a sensação de desesperança na qual a série se alicerça com pouco esforço e sem forçar demais a barra. Juntou toda a falta de lirismo que os outros episódios insistiram em manter, coroado com uma participação de luxo de Mel Fronckowiak, que em minutos longos forneceu explicações sobre o passado e o presente do Processo. João Miguel ultrapassou a perfeição de suas habilidades de ator nesse episódio, mesmo com os diálogos nem sempre ao seu nível.

Injustamente ignorada na TV brasileira, Mel Fronckowiak deixou gostinho de quero mais na série da Netflix

Há ainda falta de ganchos e atuações canastronas de coadjuvantes, mas quando foi a última vez que vimos algo do gênero no Brasil? Isso já vale alguns perdões. Incipiente, 3% é um ótimo passatempo, mas provavelmente não vai ser um divisor de águas na história das produções brasileiras ou mesmo da Netflix. Além de válida, a iniciativa encara um horizonte com possibilidade de crescimento, mesmo com o orçamento apertado e texto esburacado. Se os 97% restantes continuarem assim, é melhor refazer a conta antes da segunda temporada.

P.S. Alguém viu a série em inglês? Se não, vale assistir pelo menos 5 minutos. A dublagem é absurdamente maravilhosa e até dá um up em atuações duvidosas. É chocante.

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