Legion traz o mundo dos heróis para mais perto dos humanos

“Algo novo está para acontecer”

Não é de hoje que as séries e filmes envolvendo super-heróis repetem a mesma fórmula. Há algumas exceções, mas a grande maioria os mostra como defensores da Terra, com seus super-poderes capazes de derrotar vilões que ameaçam a paz e a humanidade. Os enredos podem mudar, mas a estrutura, forma e gênero se assimilam ano após ano.

Deixe isso de lado ao assistir Legion, a nova série da Marvel exibida pelo canal FX (a primeira fora do círculo ABC — Netflix). O protagonista, David Haller (filho do poderoso Professor Charles Xavier) é diferente que qualquer outro que já vimos na TV ou no cinema: ele não confia nos seus super-poderes, e não acredita se quer que os tenha. Como parte da franquia X-Men, a série tem alguns elementos que os fãs vão reconhecer de longe: mutantes com habilidades específicas, um grupo que acolhe e desenvolve esses poderes, e uma organização do governo que quer acabar com eles. As semelhanças, porém, acabam ai.

Noah Hawley usa os poderes psíquicos de Haller para abordar as doenças mentais de uma maneira fora do comum. O rapaz é diagnosticado com esquizofrenia, mas a verdadeira natureza de seus poderes — que envolvem telepatia e telecinese — também não é claramente explicada, o que nos faz questionar: será que o herói da vez é realmente louco? A abertura do episódio, um prólogo da vida de David, cria uma distância de tudo que a FOX fez com a franquia até então. Uma mostra que Hawley, que também produz o premiado drama antológico Fargo, tem a liberdade criativa de levar essa história em algo mais psicológico e opaco que o brilhante e cheio de recurso universo cinematográfico criado para os mutantes.

A verdade é que a franquia X-Men está em uma posição estranha. Deadpool fez uma sátira hiper-violenta, mas não deixou de se aderir às convenções do gênero, enquanto X-Men: Apocalypse não teve a aceitação esperada do público, e falhou em quase todos os níveis. Ao focar na mente e no mundo aos olhos de David, Legion apresenta uma forma que ainda não foi vista pelos X-Fãs, abandonando o herói que quer salvar o mundo, mas aquele que antes quer salvar a si mesmo e compreender a variedade de dons que ele possui e que o cerca.

De início, o episódio parece um amontoado de fatos sem ordem, o que já cria uma distância dos filmes com sua preocupação de facilitar o enredo para o espectador. É o tipo de TV que a gente gosta, aquela que precisamos juntar as peças para entender o que realmente está acontecendo. Além disso, os eventos são narrados do ponto de vista de David, por isso são dispersos e não muito confiáveis. É um episódio que, ao invés de respostas, nos dá mais perguntas (quem é David? qual a sua história? qual a extensão de seus poderes?). É a intenção de Hawley, fazer o espectador mergulhar na mente de David e descobrir o que é verdade, o que não é.

Uma das diferenças da Marvel em relação à DC é se preocupar com tempo e espaço — as séries e filmes fazem parte de um momento na História Natural. Mas uma das características de Legion é se desplugar destes detalhes: mesmo que o design sugira que os personagens estejam na década de 70, há anacronismos, como tecnologias de ponta.

No meio da falta de sentido, há também um terreno sólido. Sydney Barrett (isso mesmo, uma referência ao ex-membro do grupo Pink Floyd) dá a David uma sensação de calma e estabilidade, que é transmitida pela iluminação das cenas. No final, Melanie Bird (Jean Smart) recruta o mutante para algo maior que sua jornada de autodescoberta: é hora de usar seus poderes em função de algo.

Não se sinta desapontado por Legion desfazer os laços com os quadrinhos dos X-Men, e deixar de lado os elementos que tantos amamos na franquia. É hora de abraçarmos essa jornada um pouco mais próxima dos “sentimentos humanos”: a chave da narrativa são temas como identidade, memória e emoção. Mesmo se a esquizofrenia de David é realmente parte de um poder mutante, é um problema da vida real, e algo que pessoas em todo mundo lutam diariamente. Os X-Men sempre representaram pessoas que não se encaixam no padrão, que se sentem perseguidas ou apenas diferentes, e a jornada de David nada mais é que se conectar com esse mundo de excluídos, enquanto determina o seu próprio espaço.

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