Lemonade é o ápice artístico de Beyoncé

Em Lemonade, a cantora presenteia o público com o seu melhor trabalho até agora.

É raro um artista pop mainstream conseguir manter, ainda mais nos dias de hoje, uma imagem reservada e um certo controle sobre o que é dito na mídia sobre sua vida pessoal. Beyoncé se destaca, dentre outros motivos, por conta disso.

A cantora não só se resguarda sobre os boatos malucos envolvendo seu nome como só faz citação a eles da melhor forma possível: por meio da música. Sua arte é a única forma de contato com o público, e é por meio dela que a artista desce do pedestal e se mostra tão vulnerável quanto todos nós.

Em seu novo e ambicioso projeto, intitulado Lemonade, isso fica bem claro. Medo, raiva, insegurança, empatia, todos estes elementos são amarrados pelo recorrente tema da infidelidade, confirmando, quem sabe, alguns dos boatos malucos citados anteriormente.

Ela fala pelas mulheres, pelos negros, e principalmente por si mesma. Por meio de uma experiência audiovisual incrível, a cantora nos prova mais uma vez estar infinitos degraus acima de suas concorrentes do mundo pop.

Lemonade é o ápice artístico de Beyoncé

Pray You Catch Me: A balada profundamente emotiva abre o álbum de forma leve, quase como um aquecimento para o que está por vir. Os vocais maravilhosos, quase se fundindo ao piano de fundo, dão o tom instrumental em alguns momentos.

Hold Up: O clima já melhora um pouquinho na música seguinte, com uma pegada reggae irresistível e versos mais em forma de rap do que propriamente cantados. Os diversos compositores creditados se devem ao fato dos samples usados, que vão de Yeah Yeah Yeahs a Soulja Boy, numa mistura improvável que funciona perfeitamente bem.

Don’t Hurt Yourself: O primeiro susto do álbum, mas da maneira mais positiva possível. A bateria pesada, as distorções na voz, a guitarra, a participação de Jack White (!!!!!!), a letra revoltada e empoderada. Quando a música termina é como se um furacão tivesse passado por ali deixando um rastro de destruição. Merece ser ouvida no repeat.

Sorry: Uma das mais radiofônicas e comerciais do CD, mantém o empoderamento de sua antecessora mas de forma menos agressiva. No clipe que a acompanha é possível ver a tenista Serena Williams rebolando ao som da canção, exatamente da forma como nosso corpo faz quase inconscientemente ao ouvi-la bem alto no fone de ouvido.

6 Inch: A segunda participação especial do álbum se encaixa perfeitamente na proposta sexual dessa música. The Weeknd já é quase um especialista em fazer “canções para se ouvir durante o sexo”, e aqui somos presenteados com mais uma para essa playlist.

Daddy Lessons: Depois de se arriscar e acertar lindamente no terreno do rock em Don’t Hurt Yourself, aqui é o country o estilo escolhido. Beyoncé, texana, mostra que fez a lição de casa nessa produção dela mesma e que é, sem dúvidas, um dos pontos altos do álbum.

Love Drought: “Me diga o que eu fiz de errado” é uma das frases repetidas nesse R&B clássico com alguns elementos modernos, encaixando-o perfeitamente nos dias atuais. Os vocais suaves em contraponto às batidas mais pesadas próximas ao final dão certo.

Sandcastles: Uma das composições mais sensíveis do disco, casada ao piano leve de fundo, resulta num clima atemporal, dando espaço suficiente para que a voz da cantora se destaque de forma apropriada.

Forward: James Blake poderia aqui ter trazido com ele alguns elementos interessantes de suas músicas. Não fosse a duração curta (nem um minuto e meio), seria talvez a primeira filler do CD, o que acaba não acontecendo por praticamente servir como outro de Sandcastles.

Freedom: Toda a evolução que o álbum propõe culmina nesta faixa. É como se esse fosse o alto da montanha escalada ao longo da tracklist. Dado o posicionamento político adotado pela artista recentemente, era de se esperar uma participação especial de Kenrick Lamar, que veio justamente na canção perfeita para isso. Obra prima.

All Night: Se Freedom foi a chegada ao topo da montanha, esse é o momento de sentar e aproveitar a vista. Um reggaezinho despretensioso e gostoso de se ouvir, com letra romântica para fechar o ciclo depois de tanto sofrimento.

Formation: A música que causou revolta na mesma proporção em que foi enaltecida por milhares de outras pessoas serviu muito bem como aperitivo do que a cantora estava preparando para o CD. Apesar de parecer meio avulsa depois das outras faixas, resume bem a proposta do projeto, fechando da melhor forma possível.

Por incrível que pareça, as dezenas de referências, inspirações e estilos diferentes identificados neste trabalho não ficam perdidos. Tudo soa coeso dentro da proposta, principalmente por serem tão intrínsecos à cultura negra e às raízes da cantora, o que não torna essa mistura forçada ou sem foco.

Mesmo nas músicas em que o instrumental se destaca os vocais não ficam atrás, há espaço para as duas coisas e também para as letras poderosas e participações pontuais. Inclusive, chega a ser engraçado um álbum com o tema “traição” tão constante não ter participação dos vocais do marido da cantora, mas apenas de outros homens.

Desde o disco 4 Beyoncé vem numa crescente artística incrível. A cantora tem saído frequentemente da zona de conforto desde então, seja musicalmente ou até de maneira comportamental, cheia de atitude e ideologias importantes numa pessoa que serve de referência pra tanta gente no mundo todo.

O nível só sobe a cada projeto, está cada vez mais difícil para ela se superar, mas com base no que foi apresentado nos três últimos discos (contando este), seria estupidez duvidar da sua capacidade em se manter no topo.

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