Lost: quando um bom início não resulta em um bom fim

Dez anos?!? É isso mesmo? Já se passaram dez anos desde que eu programava meu velho vídeo cassete (que ainda existe, by theway) para gravar os episódios de Lost na madrugada da Rede Globo (porque eu era um pobre rapaz latino americano sem dinheiro no bolso para ter um computador/TV por assinatura) e assisti-los no dia seguinte quando eu chegasse da Rádio (sim, eu trabalhei em uma emissora de rádio).

Video Lost

Hoje, quando eu penso em Lost, meu coração se enche de um misto de alegria e decepção indescritível tal qual uma mulher recém-divorciada se lembra com ternura de como o casamento começou bem, com um homem a amando, e terminou em uma disputa judicial para descobrir quem ficaria com o cachorrinho sharpei (porque eles eram um casal rico que tinha mais de mil conto para investir em um cachorrinho sharpei).

É inegável que em sua primeira temporada Lost tenha deixado sua marca indelével no mundo televisivo, subvertendo a narrativa e estabelecendo um novo formato de se fazer série, copiado aos borbotões em séries atuais (até mesmo O Rebu usou desse artifício, apesar de que a original da década de 70 já fazia isso e se você pensar que Lost surgiu depois dos anos 2000 surge o fato de que a série de J. J. Abrams pode não ter sido tão original assim ).

Em sua primeira temporada, Lost estabeleceu uma identidade narrativa singular, digna de Arquivo X, por exemplo. Flashbacks, conflitos, tensão, mistérios, referências pop em uma engendrada colcha de retalhos. Isso deixou qualquer um grudado na televisão.

E então surgiu a segunda e, para mim, a melhor temporada de Lost. Aqui, finalmente, estabeleceu-se o que chamamos de MITOLOGIA DE LOST. Por mais que afirmasse que sabiam exatamente tudo desde o início, foi nesta temporada que os roteiristas começaram a traçar a linha geral da série e decidir os rumos que ela tomaria. É nessa temporada o surgimento da Dharma, os sobreviventes da cauda, a escotilha e o misticismo envolvendo “Os Outros”. Depois a série começou a dar sua enrolada e flertar com a ficção científica.

Mas o fato é que a velha máxima de que “fez a fama e depois deitou na cama” pode ser aplicada a Lost. A partir de sua quarta temporada, a série mergulhou em um espiral de autodestruição e nem se importou com isso. Os fãs, que eram os que deveriam reclamar, estavam tão entorpecidos que engoliriam qualquer merda que fosse servida desde que fosse apresentada em um bom prato. E foi exatamente isso que aconteceu.

Ah, esses fãs criam alternativas para tudo…

E fã é um bicho tão estranho que os roteiristas não precisam explicar muita coisa não. Qualquer incoerência apresentada seria rapidamente explicada por um deles. Bastaria soltar alguns easter-eggs nos episódios e já bastaria. Assim, aquela pataquada de deuses egípcios, física quântica, espiritismo, templo, luz mística saindo através de um buraco e um rolha (SIM, UMA ROLHA!) tampando o buraco, ganharia um status metafórico nunca antes visto na história desse país.

Sempre ouço um ou outro desilusional dizendo que Lost é uma grande metáfora. Para os que afirmam isso, recomendo que estudem um pouco mais (#LuGenroFeelings) e descubram o que é uma metafórica. A metáfora pega uma situação concreta, do mundo real, que o espectador pode entender, e a lança à luz de um entendimento maior. Igual ao que eu fiz no segundo parágrafo dessa #GONGSHOW. Só que em Lost não existe isso, porque não existem situações reais. O que existem são as teorias que os fãs formulam, mas sem um fundamento concreto. E, quando qualquer um formula o que quiser, isso não é uma boa coisa.

Bendito os que acreditam cegamente em tudo o que os roteiristas pregam ou encontram justificativas para os furos do roteiro, pois a estes pertencem o reino dos Céus. (Mt. 5:33)

Lost é igual a essas igrejas neopentecostais que exigem uma boa dose de fé de seus fiéis. E não, não estava esperando que tudo fosse redondamente solucionado, mas um pouco de coerência narrativa não faria mal a ninguém.

E esses são apenas um dos pontos que me fizeram brochar com a série. Nem me atrevi a analisar os valores interpretativos de boa parte de seu elenco, a começar pela Evangelina Lily, que mais parece um nome de álbum da Mariah Carey e tinha uma propensão a ser protagonista de novela produzida pela Televisa.

Os dez anos de Lost podem ser vistos com criticidade e não com a histeria coletiva de alçá-la ao panteão das séries. Neste, só existe uma única trindade absoluta formada por The Sopranos, Six Feet Under e Breaking Bad. O resto foram apenas os profetas que abriram espaço para Jesus e podem se contentar com isso.

Jura que você acha Six Feet Under perto da perfeição? UHUL!

Para encerrar, cito Lulu: “Não vou dizer que foi ruim / Também não foi tão bom assim / Não imagine que te quero mal / Apenas não te quero mais”.

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