Mad Men: Inventando verdades

Pessoas nos dizem quem elas são, mas nós ignoramos isso porque queremos que elas sejam quem devem ser.” –DRAPER, Don

Teoricamente, leitor, as definições de Publicidade e Propaganda possuem uma leve e sutil diferença. Publicidade, derivado do latim “publicus”, genericamente significa divulgar, tornar público um fato ou uma ideia, com o propósito de condicionar para o ato da compra de um produto ou serviço. Já a palavra Propaganda, por sua vez, com origem no termo latim “propagare”, quer dizer enterrar, plantar, relacionado às mensagens politicas e religiosas, compreendendo a ideia de implantar uma crença.

Por isso não se engane, a arte da Publicidade e Propaganda é uma arma poderosa (e perigosa!) que, segundo o teórico Philipp Kottler, usa de apelos visuais, auditivos e sensoriais para aguçar nosso extintos mais básicos. Afinal, quando você leitor sente sede, necessariamente você não precisa saciá-la com uma Coca-Cola bem gelada. A Publicidade mascarará uma necessidade que e a tomaremos como verdade.

Está é a premissa de Mad Men, premiada série da AMC ambientada em Nova York no início dos anos 60, criado por Matthew Weiner, com produção da Lionsgates Television que foi ao ar pela primeira vez em 2007.

Elenco de Mad Men - Quinta temporada (1)

Na trama, acompanhamos o cotidiano do misterioso Don Draper (John Hamm) e dos membros da fictícia empresa de Propaganda Sterling e Cooper. Mas por onde começar a descrever esta obra do audiovisual que ao todo ganhou 4 Prêmios Globo de Ouro e 15 Prêmios Emmy, sendo considerada a Melhor Série Dramática por quatro anos consecutivos ( 2008, 2009 2010 e 2011)? Como descrever um roteiro que trabalha com o não dito? Como avaliar sem superestimar esta obra?

Estas são perguntas que me faço constantemente ao assistir a cada episodio, e é, sem dúvida, nos próprios episódios e nos detalhes que encontramos as respostas: Mad Men é aquela rara série que junta com maestria um roteiro bem elaborado sem menosprezar a capacidade intelectual do espectador, trabalho de arte que preza o mínimo dos detalhes e criativo, capaz de reinventar suas próprias influencias sem soar como meras cópias, e por fim atuações exemplares.

Começamos pelos roteiros, que trazem em sua trama uma sólida autenticidade histórica, que ao longo das temporadas acompanhamos como fatos historicamente importantes (outros nem tanto) dentro do cenário político e cultural afetam o cotidiano dos seus personagens, seja no ambiente social ou empresarial. Como: a morte de Marilyn Monroe, o lançamento de mísseis em Cuba, a luta pelos direitos dos negros e o fim da segregação, o lançamento do filme Bye Bye Birdie, o assassinato do presidente Kennedy, a Guerra no Vietnã , a ideologia da geração Beat e a revolução sexual. Esses são fatos presentes que concedem verossimilhança nas discussões e debates que o roteiro propõe, tão atuais e do nosso século como o poder das mídias e da comunicação de massa, o consumismo desenfreado, o preconceito racial e sexual, o feminismo, o que consideramos arte, os perigos do tabagismo e do alcoolismo e o papel da Propaganda nas campanhas políticas.

O roteiro ainda trabalha com um recurso de estilo pouco usado, o que gostaria de chamar de “dito nas entrelinhas”. As informações ao longo dos episódios são dadas a nós, espectadores, mas nunca são de graça ou mastigadas, e aqui a apreciação da obra se dá ao público mais atento, pois informações às vezes cruciais (ou referencias) são dadas por detalhes em uma fala, ou um quadro ao fundo da tela. Outro recurso de roteiro (que em termos técnicos é bem arriscado se não for bem feito) é trabalhar com os conceitos e repertórios do espectador, já que muitas vezes é você, leitor, que construirá a historia de certos personagens. E isto, necessita ser dito, não é um erro, e sim um elemento riquíssimo, possibilitando um leque para várias interpretações, afinal seis meses podem se passar de um episódio ao outro e cabe a você construir o que de fato aconteceu.

MADMEN

Ainda no ambiente do escrito, Don Draper é outro mérito à parte, e o personagem principal embarca na onda dos anti-heróis. Draper não é nenhum príncipe encantado cheio de moral e princípios, muito pelo contrário, a construção do personagem é tão bem articulada que hora nos deparamos e o admiramos por ser um homem criativo, audacioso, ambicioso e um bom pai, mas também nutrimos sentimentos de repulsa e asco pelos seus vícios, os adultérios, o desrespeito com a sua mulher e os segredos de um passado obscuro que esconde até da própria família. É claro que a outra metade do mérito do protagonista é pela atuação de John Hamm, dando a seu personagem sempre um ar de seriedade, sobrancelhas cerradas que pouco sorri e impõe um andar austero e firme.

Elisabeth Moss é outro achado à parte, dando vida à ingênua Peggy Olson, que inicia como a secretária de Don e é uma das personagens mais cativantes. Ambiciosa, está determinada em tornar-se a primeira redatora mulher da empresa. Peggy acaba despertando o interesse do recém-casado Peter Campbel (Vincent Kartheier), jovem gerente Junior de contas, mimado, que apesar dos seus talentos é mantido na empresa pelo fato de ser membro de uma família do alto status social de Manhattan. A linda January Jones (que, sim, lembra uma Grace Kelly!) dá vida à depressiva Betty Draper, mulher de Don, que como toda boa dona de casa dos anos 60 tenta manter as aparências em um casamento não sólido. Destaque também para Christina Hendricks, que encanta a todos como a femme fatale Joan Holloway, gerente de escritório, que apesar de inteligente e sagaz é frustrada com sua vida profissional.

O trabalho de arte acaba sendo a grande cereja final desse bolo, que é atento aos detalhes de todas as roupas, cenários, maquiagens e acessórios fielmente recriados: Desde os vestidos, a mobília, os modelos dos carros, cortes de cabelo, copos, cinzeiros, até as artes gráficas de pin-ups da época. E aqui o departamento de arte ganha pontos para algo que pouco se comenta: o enquadramento de cenas.

madmen

Reparem que, como recurso técnico, para manterem o ar misterioso, austero e encantador de Don Draper, facilitado pela aparência de galã de Johm Hamm, o personagem na maioria dos quadros é visto em meia luz ou em quadros contra-plongeé (quando a câmera filma o objeto de baixo pra cima), sempre evidenciando os tetos luxuosos dos cenários , enaltecendo ainda mais seu personagem. Há ainda quando a câmera é usada em um elegante travelling (movimento de câmera em que esta se desloca de seu espaço sobre trilhos), que sai de um cenário a outro, às vezes para revelar fatos importantes ou para construir cenas de reflexão.

Já a abertura, um clássico à parte criada pela produtora Imaginary Forces, faz uma homenagem às aberturas repletas de arranha-céus do designer gráfico Saul Bass para o filme North by Northwest, de Alfred Hitchcock, de 1959, e o pôster para o filme Um Corpo que Cai, do mesmo diretor, de 1958.

Mad Men poster 5

Mad Men atualmente está em sua última temporada, que foi divida em duas partes, é será finalizada em 2015 (você pode conferir as reviews aqui no Box. O seriado é exibido nos EUA pela AMC, no Brasil é exibido pela canal pago HBO e pela rede aberta na TV Cultura, com um total de 13 episódios.

E se após todos estes argumentos, leitor, você ainda não se convenceu em assistir Mad Men, lhe resta apenas abrir uma gelada Coca-Cola e saciar sua sede. Confiram abaixo a abertura da série.

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