Magnifica 70 1×01 — Episódio 1

Magnifica 70 homenageia a história do cinema brasileiro em sua estreia, mas derrapa em roteiro previsível.

Falar qualquer uma fala. Quero ver é falar pelada! ” MANOLO.

Há um misto de alegria e expectativa em analisar e iniciar uma nova série, principalmente quando trata-se de uma obra de seu país, pois nunca saberemos, caro leitor, o que poderemos encontrar neste percurso.

Em Mil Novecentos e Setenta e Três — 1973- o Brasil vivia sobe o regime da Ditadura Militar. Governado pelo General Emílio Garrastazu Médici a mãos de ferro — tanto que historicamente seu período na presidência ficou conhecido como Anos de Chumbo — o Brasil vivia o ápice da ditadura.

Censuras a liberdade de expressão política e cultural eram cometidos, torturas e assassinatos a presos políticos aconteciam com frequência nos porões do DOI-CODI. Porém foi, também, um ano paradoxal, já que é neste período que as Pornochanchadas, produto cinematográfico puramente brasileiro que misturava comedias com erotismo, florescem e ganham popularidade.

Conhecido como Boca do Lixo, a região localizada no bairro da Luz em São Paulo, principalmente na Rua do Triumpho, recebeu a herança histórica de produções cinematográficas da década 30, tornou-se então, o principal polo na produção das pornochanchadas, sendo este um período — e região — que lançou grandes nomes na cultural nacional como o diretor Carlos Reichenbach e atriz Vera Fischer, por exemplo.

Magnífica 70

Este é o pano histórico que envolve Magnifica 70, nova série da HBO que estreou ontem, dia 24, em sua programação tanto no Brasil como no México.

Criado inicialmente para ser um filme, Claudio Torres, Renato Fagundes e Leandro Assis trazem a sua criação interessantes nuanças históricas do período.

Seu ponto máximo vai para a direção conjunta de Claudio Torres e Caroline Jabor, que consegue passar ao telespectador a sensação verossímil desejável, nos fazendo crer que de fato estamos em meados dos anos 70, tanto nas cenas internas quando nas cenas externas com auxílio da Equipe de Arte em um trabalho, também, excelente.

Torres e Jabor conseguem esta sensação nos detalhes dos acessórios, como as máquinas de escrever no Departamento de Censura, os carros de época, os figurinos e até o habito de fumar em pleno expediente, algo muito comum em 1970. Nas cenas externas a direção é sabia em trazer planos não muito amplos, conhecidos como Planos Gerais, conseguindo a sensação temporal através da simplicidade de uma esquina com um Fusca ou um Gordini passando.

Entre um momento e outro da projeção, Torres faz verdadeiras homenagens a história do cinema nacional, como no início ao situar ao telespectador o que seu personagem principal, vivido por Marcos Winter, faz, trazendo o mesmo censurando a obra O Mulherengo, filme de Fauzi Mansur que foi lançado em 1976, ou em outra grande homenagem, trazer José Mojica, o eterno Zé do Caixão, filmando um dos seus filmes no cemitério ás 3hrs da manhã.

Interessante também é obserávamos a interpretação de Marcos Winter — Para mim o eterno Juventino da novela Pantanal — que dá vida ao protagonista, Vicente. Trabalhando como censor no Departamento de Censura Federal, Winter através de seus trejeitos, mãos tremulas e voz contida consegue dar ao seu personagem uma mescla de desejos reprimidos e culpa ao se deparar com o filme A Devassa da Estudante, e ficar extremamente perturbado com sua protagonista, Dora Dumar — vivida por Simone Spoladore que merece os créditos por tentar — que muito lembra sua falecida cunhada, Ângela.

O roteiro a partir da metade da projeção perde seu impacto por querer trazer em um único episódio todas as tramas que pretende trabalhar ao longo dos 13 episódios da temporada, algo que poderia ser gradativamente trabalhado, caindo assim em uma trama novelesca e previsível.

Vejam que em único episódio, o roteiro escrito a seis mãos- e talvez seja esse o problema-, já entrega de cara as relações interpessoais dos personagens. Fica mais que evidente que Vicente vive com Isabela (Maria Luísa Mendonça) um casamento de aparência e culpa, em decorrência do caso extraconjugal do protagonista com a falecida cunhada, Ângela. O que fica implícito neste caso é a frequente pergunta: Quem matou Ângela?

Dora é outra personagem que também sofre deste mal pois a dúbia relação com Dario (o interessante Pierre Baitelli) poderia ser melhor explorada, afinal de que adianta trabalhar toda uma cena dando a intenção de que os dois eram amantes, para na cena seguinte desconstruí-la com a informação de que na verdade os dois são irmãos? Este era um fato que poderia ser usado mais adiante na obra e que traria grande impacto dramático.

Assim é mais que notável que Dora e Dario estão juntos para roubar Manolo, vivido por Adriano Garib em um arquétipo que não traz desafios ao ator — e que também tem um relacionamento de aparências com Dora, vejam só! — e sua produtora, a Magnifica, que consegue financiamento para os seus filmes através de Caixa 2 e lavagem de dinheiro.

Magnifica 70 veio para mostrar que as produções brasileiras conseguiram de fato se aprimorar nos quesitos técnicos para obras televisivas fora do eixo já consagrado, mas perece ao não conseguir se livrar, em um primeiro momento, das amarras narrativas de telenovelas.

Fica a expectativa para o próximo episódio de como Vicente conduzirá seu casamento com Isabela e sua notória obsessão com Dora Dumar, além de esperarmos mais destaques para os grandes veteranos Paulo Cesar Pereio e Joana Fomm — a terna Perpetua de Tiêta — e um registro mais notorio da repressão ditatorial do período. Acompanharemos, pois apesar do roteiro morno, há um indicio de folego para uma boa e interessante obra como registro histórico.

E você, o que achou da estreia?

Sobre o Autor

Avatar

BOXPOP

Site especializado em cultura pop, fundado em agosto de 2007. Confira nossos podcasts, vídeos no youtube e posts em redes sociais. Interessados em contribuir como autor no site podem entrar em contato: contato@boxpop.com.br

Deixe um comentário

clique para comentar

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

OUÇA O BOXCAST

VIDEOCAST

Lidio Mateus, o brazilian singer da internet, comenta todos os bafos e segredos de sua carreira.

Tem série nova na HBO e os bastidores dela foram recheados de TRETAS. A gente conta todas neste vídeo.

Esse é o filme que vai ganhar o Oscar de filme estrangeiro. Neste vídeo comentamos Parasite. Assista!

SEJA UM PADRINHO!

Contribua!

OUÇA ACABEI DE LER