Magnifica 70 1×02 — Episódio 2

Em segundo episódio, Magnifica 70 cai no erro do caricato.

Crítico não sabe de nada.” VICENTE.

Começo essa review com a frase acima propositalmente. Críticos não sabem de nada. E em parte esta frase é sim verdadeira.

Admito que mesmo não sendo um profissional da crítica do audiovisual, cabe a nós (olha eu já me incluindo no clube dos críticos) ao analisarmos uma obra audiovisual trazer ao leitor, no caso você, argumentos, sejam técnicos, históricos ou curiosos, que enalteçam — ou não- a obra analisada em questão.

Isto posto, quando finalizei o Episodio 02 de Magnifica 70, uma grande dúvida me veio a tona: Seria este episódio um grande ode às produções audiovisuais do Tipo B ou um grande erro de aplicação técnica?

Quem já leu minhas reviwes por aqui no Box de Séries — Mad Men, Downton Abbey e Doctor Who -, sabe muito bem minha posição frente ao entendimento de uma obra. Oras, ele nunca será pleno e completo, pois tudo dependerá, como sempre afirmo, do conhecimento social, cultural e político de seu receptor. Sendo assim, a critica acaba por ser apenas a visão geral de apenas uma pessoa, no caso deste texto, a minha. E veja que aqui no Box trouxemos até textos opinativos com diferentes visões da tão polêmica cena de Game of Thrones de algumas semanas atrás, a fim de oferecermos diferentes pontos de vista. Mas não é este o foco. Não mesmo!

Magnífica 70

Pela nota que atribuí ao episódio desta semana, fica evidente que minha opinião vai de encontro à segunda indagação. Mas por quê?

Simples: porque diferentes das obras audiovisuais do Tipo B de baixo orçamento que eram feitas para divertimento sem muita pretensão, Magnifica 70, apesar de abortar esta temática com as famosas pornochanchadas, é um material, um produto que se leva a sério.

O Episódio 02 inicia-se com alguns dias, diria até poucas semanas, de diferença no tempo dramático ao encerramento de seu episódio anterior. A Devassa da Estudante foi liberada pela censura é sucesso de público e crítica. O roteiro feito a seis mãos consegue, entre uma cena e outra, através da consultoria histórica de Alfredo Sternheim, trazer nuanças verossímeis da época, inserindo uma nota curiosa aqui e ali.

Não deveremos nos espantar, pois em 1970 de fato alguns filmes de pornochanchadas foram sim sucesso de público e crítica. Interessante também torna-se a cena em que descobrimos que Vicente, agora envolvido com produções cinematográficas, liberou o filme O Anjo Loiro, obra que realmente existiu com direção de Alfredo Sternheim, baseado no livro Professor Unrat, de Heinrich Mann, e lançou Vera Fischer, ainda mocinha, à carreira de atriz.

O roteiro encaminha também para um ponto interessante: a relação dos irmãos Dario e Dora, que juntos planejam roubar todo o dinheiro da produtora Magnifica, tendo um início não muito favorável aos dois. O roteiro deixa implícito certa tensão entre os dois, quase sexual, incestuosa, mais por parte de Dario do que de Dora, que fica mais evidente quando este se dirige ao cinema para ver a atuação da irmã.

Como disse na primeira review, o grande forte de Magnifica 70 são suas construções cenográficas históricas, principalmente as cenas externas, que são muito bem feitas. Chega a encher os olhos e isto é mais evidente neste episódio. Porém, nem tudo são flores.

A trilha sonora se mostrou o grande problema deste episódio. Quando bem usada, a trilha é um forte elemento para enriquecer a trama e trazer ao espectador diferentes tipos de experiências sentimentais, seja tensão, susto, riso ou compaixão. Percebem que a trilha em si, ouvida separadamente, é linda — em especial a musica de abertura Meu Sangue Latino com Ney Matogrosso.

O grande erro é a aplicação da trilha em momentos equivocados nas cenas, como por exemplo em diálogos que poderiam muito bem ocorrer sem ao auxílio da trilha e teria o mesmo efeito desejado. Tive a impressão que em alguns momentos a trilha estava mais alta que os próprios diálogos, é isto em uma produção audiovisual é inconcebível, pois atrapalha não só o entendimento da obra como a concentração do espectador.

Também é falha a narração em off que Vicente faz ao construir um novo roteiro, repleto de efeitos “boom”. Efeito este que ocorre quando o microfone está com o grave muito alto. Reparem, pois toda vez que palavras com B,P, T e D são ditas, elas estouram o som, causando o efeito indesejado. E se isto já é imperdoável em um espetáculo teatral que ocorre ao vivo, onde imprevistos acontecem, imaginem em uma obra audiovisual em que há tempo nas ilhas de edição para se verificar estas questões.

Outra questão técnica que muito me chamou a atenção foi o uso exagerado de focos e closes, que sofrem do mesmo caso da trilha sonora. Na intenção de criar uma tensão dramática, o uso exagerado acaba por quebrar o efeito, trazendo incômodo para a narrativa.

Anjo Loiro

Curiosa também é a ideia do diretor Claudio Torres ao usar como efeito estético as cenas de flashback em preto e branco. Um recurso também interessante, mas dispensável. Notem que neste episódio, quando Vicente tenta construir um roteiro para o próximo filme, embasado em suas experiências entre conhecer sua mulher, Isabel, e o assédio da cunhada, Ângela, dois momentos históricos importantes são mostrados, e que poderiam ter mais impacto dramático se a cena fosse colorida.

O primeiro é quando Vicente presencia uma repressão por parte dos federais a estudantes manifestantes e acaba sendo preso. O segundo momento é quando, inconformada com a morte da filha, Dona Lúcia — Joana Fomm ótima — é submetida contra sua vontade a tratamento de choque, evidenciando bem o poder repressor do governo de Médici.

No fim, Magnifica 70 parece sofrer do mesmo mal dos filmes que tenta muito a sério representar e não nos empolga para saber o que acontecerá nos próximos episódios. Mas isso é apenas uma crítica. E críticos não sabem de nada.

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