Magnifica 70 1×04 — Episódio 04

Magnifica 70 evolui em sua narrativa dramática e traz um gostinho de quero mais.

Seu teste foi uma merda, se você quer este papel me beija de verdade”. DUMAR, Dora.

É com certa alegria que começo a escrever esta review, pois finalmente Magnifica 70 mostrou um bom episodio. Como um todo é um episodio mediano, com erros e até enquadramentos estranhos, mas que em analise é bem melhor que seus anteriores, que chegaram a ter a menor nota que dei a um episódio aqui no Box de Séries.

A narrativa ganha certo dinamismo com a chegada de uma nova personagem, Helena, que se torna o gancho narrativo para conhecermos, em flashbacks, o passado de Dario e Vera, que agora atende pela alcunha de Dora Dumar atriz e estrela de A Devassa da Estudante.

Magnifica 70_Ep 04

Se no episodio anterior, com o surgimento de Walter uma nova dinâmica se montava na relação entre os irmãos Dario e Dora e sua tentativa de assaltar a produtora Magnifica, com a chegada de Helena temos mais um elemento nesta dinâmica que torna — de muito bom grado- incerto o futuro destes personagens, sendo um grande alivio para a trama, abrindo novas possibilidades que antes pareciam estar ligadas ao tratamento clichê e novelístico.

Interessante também se torna o aprofundamento dúbio de Vicente na historia, tornando-se um agente duplo. Ao mesmo tempo em que censura filmes tidos subversivos, ele também os produze e dribla os meandros da censura para liberá-los, acrescentando não só cenas como fizeram em A Devassa da Estudante como agora, neste Episodio 04, alterando falas e discursos para alinhá-los com a dita “boa moral e bons costumes”, e aqui destaco a seguinte frase em que Vicente altera em A Virgem Encarcerada:

Vamos fugir e construir uma comunidade baseada no amor livre. Frase claramente inspirada nas ideologias do movimento hippie que crescia e influenciava o mundo na época. Torna-se com a intervenção da censura:

– Vamos sair daqui e construir uma família cristã, cheia de amor.

E em tempos em que vivemos uma quase reforma politica e enfrentamos discursos fervorosos deturpados por uma casta politica que se dizem religiosos e influenciados muitas vezes pelos moldes do regime ditatorial, o cinismo da cena é ao mesmo tempo uma critica e uma metáfora tão interessantes que fica evidente a mensagem do cuidado que devemos ter nos discursos implícitos que nossas artes, sejam músicas, filmes, teatro ou novelas, nos passam diariamente. E mesmo esta opinião que aqui escrevo, deverá sim, ser questionada, com base sempre em argumentos, afinal nosso regime ainda é a democracia. E o estado laico.

Magnifica 70, como disse anteriormente tem seu grande trunfo na metalinguagem e as criticas que faz com a própria industrial audiovisual brasileira, e neste episodio, esta força se torna mais evidente, primeiro pela deliciosa menção de um dos filmes mais aclamados da indústria, Ultimo Tango Em Paris, de 1972 do diretor Bernardo Bertolucci, com Marlon Brando e a ainda novata Maria Schneider, filme este que ficou conhecido pela controversa “cena da manteiga” e pelas polemicas do elenco — E recomendo veemente que assistam a esse filme — , segundo pela maneira como Manolo realiza a seleção de casting para Minha Cunhada é de Morte, mostrando os famosos “teste do sofá” entre Dora e Helena que destaca o quote acima, e em terceiro ao mostrar como em 1970 a indústria brasileira do audiovisual ainda era amadora em alguns aspectos, ao trazer novamente Manolo incomodado com uma leitura de roteiro, um habito como bem disse Vicente, já ocorria na Novelle Vague francesa e todas as dificuldades envolvidas em um simples ensaio.

Ultimo tango em Paris

Analiso que os flashbacks em preto e branco ainda trazem mais malefícios que benefícios à linguagem estética, bem como a trilha que parece ter dado uma amenizada — ou será que nos acostumamos com ela? — e as atuações medianas de alguns, e chamo atenção para o estranho enquadramento, feito pela direção de Carolina Jabor para a cena em que Isabel bebia no casamento. Se a ideia era destacar o decote de Maria Luísa Mendonça, há formas mais elegantes para isto.

No fim Magnifica 70 parece conseguir achar um caminho agradável entre os próprios meios que criou e trazer um frescor a narrativa que nos empolga finalmente para saber o que vem a seguir.

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