Mais uma na multidão

HQ nacional faz pensar sobre nossa dimensão no mundo atual e do que devemos valorizar para viver melhor.

Sugestão de música para ouvir lendo esse texto: Nomes de Homem (Verônica Ferriani)

Somos muitas pessoas e, ainda assim, estamos sós. Correndo contra o tempo para superar expectativas, para alcançar objetivos, para chegar lá. Mas onde fica esse lá?

A insatisfação nos molda, nos impulsiona. “Topo tudo pra chegar no primeiro lugar, que eu não sei onde é, mas deve ser melhor do que aqui”. Nos frustramos, porque nada nunca parece ser o suficiente.

E assim o tempo vai passando…

Viver em uma grande cidade, hoje em dia, significa exercer diversos papéis. Por mais diferentes que sejamos, temos algo em comum com quem nos cerca: habitamos um mesmo espaço. Isolados nas nossas diferenças, mas unidos na experiência em comum de viver em uma grande cidade no século XXI. Muitos estímulos, pouco contato. Desejo de conexão e um isolamento cada vez maior.

Foto da HQ "Onde as gaivotas fazem seus ninhos", que tem tons alaranjados e é a ilustração de várias casas e gaivotas voando. Ao lado, um adesivo com a ilustração de um bondinho e a frase: o bondinho que vai é o mesmo que volta.
Foto Carol Vidal

Um viajante, uma imigrante, uma executiva e um menino de luto, à primeira vista, não parecem ter muitas afinidades. Mas na HQ “Onde as gaivotas fazem seus ninhos”, da paraibana Minna Miná, esses quatro habitantes de uma mesma cidade buscam algo em comum: pertencimento.

De forma muito habilidosa, a autora trata da questão da solidão, tão comum ao nosso estilo de vida. São necessárias poucas palavras para que a história seja compreendida. Na verdade, essa é uma obra para se sentir, para apreciar usando mais do que a razão. A proposta é observar o mergulho interno feito por cada personagem, enquanto recebemos o convite para fazermos o mesmo.

As cores das ilustrações, em tons predominantemente amarelos e marrons, dão um ar nostálgico e melancólico que combinam bem com a atmosfera que a história pretende passar. Mesmo procurando um objetivo em comum, esses personagens não se conhecem. São mais um na multidão.

Ler essa HQ dá a dimensão do quanto cada um de nós é um mundo à parte. Quantas pessoas com as quais cruzamos nas ruas diariamente não devem ter histórias e vivências semelhantes às nossas. Temos a tendência de focar nas nossas diferenças, o que gera todo tipo de conflito, enquanto poderíamos aproveitar e valorizar o que temos em comum. Seria, assim, muito mais fácil respeitar as divergências. Falta empatia, sobra egoísmo.

Ainda que as experiências dos quatro personagens não conversem diretamente com a nossa vida, é possível identificar aspectos comuns. Todos, em maior ou menor grau, queremos achar o nosso refúgio em meio ao turbilhão da vida. Pertencer é inerente à nossa vivência. Nosso mundo é um mundo de relações, e é praticamente impossível (e desaconselhável) abrir mão disso.

A literatura, de certa forma, é um importante canal de pertencimento, de dar espaço a diferentes vozes (por mais que há quem tente esvaziá-la de diversidade). E ler “Onde as gaivotas fazem seus ninhos” foi quase uma experiência catártica para mim, pois me lembrou que esse desejo de encontrar um lugar no mundo não é exclusividade minha.

Pertencer é também entender que nossas experiências são particulares, mas não precisamos vivê-las sozinhos. Abandonar o isolamento e olhar para o lado é uma maneira de vencer a solidão. E lembrar que a busca por um ninho é um constante caminhar. Não tem a ver com permanecer ou alcançar, mas como viver.

Sobre o Autor

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Carol Vidal

Carioca que mora em Salvador. A paixão pelas palavras a fez estudar Jornalismo, porém, esse tipo de texto não supriu sua necessidade de colocar em palavras o que acha da vida; seu coração bate mesmo é pela Literatura. Tem textos publicados em revistas literárias, além de uma zine independente.

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