MDM 6×03 — The Collaborators

I will destroy you!” — Campel, Trudy

Assistindo a esse episódio de Mad Men me veio à cabeça a promessa que Matthew Veiner, o criador da série e um dos roteristas desse episódio, fez semanas antes da estreia dessa sexta temporada: “esse sexto ano agradará a audiência por se tratar de uma jornada para entendermos Don.” E nesse terceiro episódio ele começa a entregar isso de maneira definitiva.

Dirigido por John Hamm, astro da série, em sua segunda incursão atrás da câmera — depois do razoável “Tea Leaves” da temporada passada -, o episódio mostra um amadurecimento palpável do ator enquanto diretor, explorando ângulos mais ousados e tomadas mais profundas.

Encontramos o elenco em 1968, quando a embaixada dos EUA no Vietnam era capturada por Vietcongs e a Coréia do Norte capturava o navio Uss Pueblo, ambientando (uma das características mais interessantes do seriado) seus personagens nas tensões de guerra que se formariam entre eles.

No escritório, quem imaginava que Herb, da Jaguar, desapareceria estava enganado. Ele vai à mesa da Joan ser asqueroso, nos lembrando que essa mulher sensacional teve que dar para esse suíno, fazendo a ruiva pagar caro por ter ganho a conta da importante montadora de carro e parte das ações da SCDP. Um preço que ela supera apenas depois de um gole de wisky no escritório de Dick.

Herb realmente só perde no episódio. Querendo convencer os outros acionistas da Jaguar a modificar as estratégias de propaganda já combinadas, ele busca ajuda dos membros da SCDP e o que se vê é Don planejando uma campanha voltada para a venda dos chiques carros Jaguar para donas de casa e caminhoneiros, sendo obviamente recusadas pelos demais acionistas.

É uma bela desconstrução ver Don fazer exatamente o contrário do que fez em seis temporadas: não querendo vender!

A diferença de tratamento com o sexo feminino é retratada com Peggy. A personagem, que aprendeu a ser exigente e perfeccionista, se vê temida por todos em seu novo ambiente de trabalho e se sente alienada por isso. Essa postura, apreciada e exaltada em Don — que ensinou seu “método” a Peggy- é vista como defeito. Ver a personagem tentando motivar seus empregados é um dos pontos altos do episódio.

Um novo arco envolvendo Peggy nessa temporada começa quando ela obtém informações de um dos desenhistas da SCDP sobre o descontentamento dos famosos Ketchup Heinz com seus atuais publicitários. Essa informação, dita de maneira informal, atiça o novo chefe de Peggy, que fica dividida ao perceber que suas ações podem ser vistas como punhalada nas costas pelo seu antigo colega. O chefe de Peggy resume bem o clima da publicidade e das américas de 1968 com uma frase:

-Guerras são ganhas dessa maneira! O erro do seu amigo foi te subestimar!”- Ted

E então, Peggy manterá a confiança de seu amigo ou correrá atrás do famoso Ketchup? Estará ela pensando, depois de sair da SCDP: eu vou embora, mas VOU TRAZER MUITO MAIS GENTE COMIGO!

Enquanto Trudy (a fantástica Alison Brie, de Community, sendo sensacional também em dramas — e peitos) e Pete entretêm visitas, num encontro em sua casa no subúrbio, ambos são assediados por seus convidados. É interessante notar como Trudy desvia graciosamente enquanto Pete mostra-se mais receptivo. O desenrolar do pequeno caso de Pete com uma vizinha obriga Trudy a mostrar que de boba e passiva, como se pensava até então, ela não tem nada. Numa das melhores cenas do episódio, a dona de casa estabelece termos às indiscrições do marido! E quem pensou em divórcio (assim como o equivocado Pete) pensou errado:

– Eu estou marcando uma linha com 50 milhas de raio ao redor dessa casa! Se você fizer alguma coisa como abrir a braguilha da sua calça para mijar dentro dessa área eu vou destruir você!” CAMPEL, T., 1968 — emputecida da vida!

Enquanto Pete deixava seu caso abalar seu casamento, Don deixa um affair com uma vizinha abalar sua mente. Aqui, a promessa do diretor se cumpre: Don trai sua esposa, a quem claramente ama, e assusta até a sua amante por não demonstrar remorso em fazer isso.

Uma viagem ao seu passado o mostra como um adolescente, chegando junto com a mãe num prostíbulo. O joven Dick, em plena formação do seu caráter, testemunha a prostituição de sua mãe, que passava por necessidade. Esse fato ajuda a explicar o valor que o personagem dá às mulheres e sua relação com elas e com o sexo. Numa das cenas, abaixado num corredor, ele testemunha sua mãe ~trabalhando~ e cria um paralelo para a cena final, também abaixado no corredor, não de um prostíbulo, mas na porta de seu apartamento sensacional em Manhattan, incapaz de reencontrar sua esposa depois de traí-la e mostrando não ser assim tão insensível às suas “escapadas”.

Começar a enxergar Don como ele se enxerga não é bonito. Enquanto as escapadas de Pete denunciam apenas sua personalidade patética, em todos os aspectos, Don é fruto de sofrimento e traumas. Nenhuma de suas qualidades o absolve dos seus erros: pai ausente, marido infiel, personalidade dura. Simpatizar com ele se torna difícil, especialmente porque ele não simpatiza consigo.

O nível da série, já conhecidamente alto, se mantém nesse excelente episódio que termina (um dos finais de episódios, em Mad Men, mais arrebatadores pela profundidade e interpretação dada a ele) com a melancólica música Just a Gigolo, enquanto Don — e nós — somos confrontados com mais traços, que explicam a humanidade de Don, conforme prometido semanas antes da estréia dessa temporada. E que ela continue assim!

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