Minisséries para entender o Brasil político

A TV conta nossa história. Confira nosso top com as cinco melhores séries históricas brasileiras.

Há mais de uma semana, a Nação Brasileira vive um grande momento. Impulsionada pelo aumento das tarifas no transporte público, a população foi às ruas protestar. Os vintes centavos a mais foram apenas o estopim para o grito entalado na garganta de cada brasileiro, insatisfeito com a corrupção e com a má aplicação do dinheiro público.

Em pouco tempo, as hashtags #VemPraRua e #oGIGANTEacordou dominaram as redes sociais, demonstrando a indignação diante de tanto descaso político. Para aqueles que acreditavam que o Brasil continuava deitado em berço esplêndido, viu que um filho brasileiro não foge à luta.

Se por um lado o jornalismo mostra-se totalmente tendencioso e inclinado, a dramaturgia coloca-se na contramão e entrega momentos memoráveis, revolucionários. Atuando como um manifestante radical (#christianepelajofeelings), o Box de Séries seleciona cinco minisséries fundamentais para esse clima de protesto democrático vivido pelo nosso país.

5º Incidente em Antares (1994)

Para os que não estão familiarizados com a obra de Érico Veríssimo, a história é surreal: em meio a uma greve geral dos coveiros, sete mortos são impedidos de ser enterrados. Os coveiros se negam a efetuar o enterro, a fim de aumentar a pressão sobre os patrões. Rebelados, os sete defuntos vão para o centro da cidade pedindo o enterro. Os mortos, então, decidem protestar e, do coreto da cidade, fazem discursos inflamados revelando os pobres políticos e sexuais dos moradores de Antares. Adaptada por Charles Peixoto e Nelson Nadotti e dirigida por Paulo José, Incidente em Antares possui em seu texto uma forte carga política e irônica. Com um elenco de peso, que inclui nomes como Fernanda Montenegro, Gianfrancesco Guarnieri, Marília Pera e Paulo Betti, inovou com os efeitos especiais e maquiagem. Mas o forte mesmo era o roteiro. Há um contexto político bastante forte envolvendo corrupção, comunismo e falcatruas ocorridas no comando da cidade e na polícia local. Um microcosmo para retratar o Brasil.

4º Decadência (1995)

Dias Gomes foi um dos autores mais politizados do país. Suas obras refletiam seu descontentamento com várias parcelas da sociedade. Em Decadência, ele tocou em duas feridas abertas e pulsantes: política e religião. Se o brasileiro acha que esses dois assuntos não se discute, Gomes foi além e escancarou ao contar a história do declínio de uma poderosa e conservadora família carioca, os Tavares Branco, no período que vai de 1984 a 1992. A morte de Tancredo Neves, a eleição e o impeachment de Fernando Collor servem de pano de fundo. Além disso, a ascensão das igrejas evangélicas na pessoa do pastor Mariel causou o furor da parcela “cristã”. Isso porque as pregações religiosas interpretadas por Edson Celulari calavam fundo na mente dos líderes religiosos. Em tempos de Marcos Feliciano e da cura gay, Decadência é pra lá de atual.

3º O pagador de promessas (1988)

Esta é a mais importante obra de Dias Gomes, levada aos cinemas na década de 60 e única obra brasileira a ganhar a Palma de Ouro em Cannes. Dias Gomes e a diretora Tizuka Yamasaki adaptaram a obra para a televisão, condensando-a em oito capítulos, atendendo à censura que mandou suprimir as referências políticas. A história aborda questões polêmicas como a intolerância da Igreja Católica diante do sincretismo religioso, as lutas dos sem-terra e posseiros, a reforma agrária, o poder de manipulação da mídia, o conservadorismo versus o novo. Ainda assim, a interpretação visceral de José Mayer, aliado ao texto de Gomes e à direção segura de Yamasaki, fizeram de O pagador de promessas uma minissérie política, contundente e atemporal.

2º A Muralha (2000)

Quando se comenta que o problema do Brasil está na sua origem, a minissérie A Muralha, de Maria Adelaide Amaral, inspirada no romance de Dinah Silveira de Queiróz, leva até as últimas consequências a recriação histórica do período colonial brasileiro. E não poderia ter surgido em melhor época: a comemoração dos 500 anos do descobrimento. Grandiosa em sua produção, ambiciosa em seu texto, irrepreensível em sua técnica, A Muralha foi um dos maiores acertos da dramaturgia nacional. A luta pela sobrevivência dos portugueses numa terra estranha e selvagem, uma época em que os bandeirantes desbravavam terras e escravizavam os índios enquanto os primeiros jesuítas chegavam ao Brasil, os primeiros conflitos políticos e religiosos. Se hoje, a situação chegou a patamar tão extremo, lembre-se que tudo teve um início. A política de trocar espelho e bijuterias por apoio continua. Só mudou o objeto da troca.

1º Anos Rebeldes (1992)

O mais memorável acontecimento televisivo brasileiro. É assim que pode ser definida a minissérie Anos Rebeldes. Com a abertura política, agora poderia se falar sobre os anos de chumbo da ditadura militar, sem soar didático ou panfletário. A obra de Gilberto Braga levou às telinhas o cotidiano das pessoas que viveram alienadas e daquelas que foram à luta por um país livre das mãos dos militares. No entanto, serviu como levante de outro momento ainda mais importante para o Brasil: impeachment daquele que deveria ser a esperança do processo democrático, o primeiro presidente da República eleito por voto direto após 33 anos, Fernando Collor de Mello. A minissérie trouxe para a rua os jovens, que exigiram a saída do presidente, não aceitando para si a alienação, inspirados pelo idealismo de João Alfredo, personagem de Cássio Gabus Mendes. A canção de abertura, Alegria, alegria, de Caetano Veloso, era cantada pelos caras-pintadas durante os protestos. Anos Rebeldes é a melhor minissérie para compreender o que leva uma população à rua. Uma obra para ser vista e revista.

Sobre o Autor

Avatar

BOXPOP

Site especializado em cultura pop, fundado em agosto de 2007. Confira nossos podcasts, vídeos no youtube e posts em redes sociais. Interessados em contribuir como autor no site podem entrar em contato: contato@boxpop.com.br

Deixe um comentário

clique para comentar

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

OUÇA O BOXCAST

VIDEOCAST

Lidio Mateus, o brazilian singer da internet, comenta todos os bafos e segredos de sua carreira.

Tem série nova na HBO e os bastidores dela foram recheados de TRETAS. A gente conta todas neste vídeo.

Esse é o filme que vai ganhar o Oscar de filme estrangeiro. Neste vídeo comentamos Parasite. Assista!

SEJA UM PADRINHO!

Contribua!

OUÇA ACABEI DE LER