Miss Universo: conquistas e deveres

Georgina Riks: beleza com propósito e feminismo aguçado - tudo em busca do entendimento mútuo entre as nações.

Ontem apresentamos o início do concurso que tornaria-se a mais importante celebração da beleza feminina. E de todo o poder que vem com ela também.

Nas décadas de 70 e 80, as misses ganharam ainda mais os holofotes, graças a consolidação da marca Miss Universo, que começou a engajar-se cada vez mais nas causas sociais — e com temas polêmicos também.

Involuntariamente ou não, as vencedoras acabaram tornando-se símbolos de momentos importantes da história de seus países.

Hoje, a coluna Com texto e história parte a mais uma viagem no tempo, para levar você a entender que nem só de beleza se faz revolução e que ela muito menos serve para algo quando está sozinha.

Começando com 1971, ano recheado de polêmicas acerca de um nome: Georgina Rizk. A Miss Líbano foi a primeira mulher do Oriente Médio a conquistar o título. Defensora do amor livre, teve sua eleição descrita como “a volta dos árabes para os portões de Viena”.

Não foi fácil ser a libanesa que exibiu suas formas em traje de banho para o mundo ver. ‘Criticada’ é pouco para definir. Mas ‘admirada’, menos ainda. Georgina desafiou religiões e dogmas, conversou com presidentes e ministros, estabeleceu-se, sem querer, como símbolo de resistência nos períodos difíceis de guerra civil em sua região e ainda declarou ter adorado a Miss Israel, mesmo sabendo que seu país vivia em conflito com o vizinho.

Durante todo o seu reinado, foi acompanhada de um sistema severo de segurança. Foi até hoje a única Miss Universo que não coroou sua sucessora no ano seguinte: acabou sendo impedida pelo governo libanês, que detectou ameaças terroristas contra ela.

O Líbano continua causando dentro do concurso, mas de forma negativa. Em 2002, a candidata do país desistiu do concurso ao saber da participação da Miss Israel e, mais recentemente, uma selfie polêmica entre as atuais misses Israel e Líbano causou revolta em ambos os países.

Logo depois, em 1972, o concurso saiu pela primeira vez dos EUA e rumou para novas destinos: aconteceu em Dorado, Porto Rico. A sede é rotativa até hoje. Alvo de protestos todos os dias, as participantes acabaram por ficar confinadas no hotel durante todo o concurso.

O TOP 5 de 1972. A brasileira Rejane Alves foi a quarta vice do país. Depois dela, só Natália Guimarães, em 2007.

Foi o único ano em que não vimos a coroação: ativistas do Partido Independentista Portorriquenho (grupo pró-independência dos EUA — lembrando que Porto Rico é um Estado-nação associado dos EUA) cortaram os cabos da transmissão durante o anúncio, que estava sendo transmitido para mais de 33 países ao vivo, pela primeira vez a cores. Quando a imagem voltou, a Austrália já havia levado a sua primeira coroa com Kerry Anne Wells.

Um grupo de terroristas denominado Exército Vermelho Japonês, treinado por árabes, havia matado 22 pessoas no aeroporto da sede, pouco antes do concurso, o que motivou a não ida da Miss Universo anterior , Georgina Rizk. Sendo assim, Kerry Anne Wells acabou sendo coroada pela Miss Universo 1970, Marisol Malaret, que também é “borícua” (nativo de Porto Rico). Aliás, os borícuas só receberam o Miss Universo de novo em 2001, 29 anos depois. E a Austrália só ganhou de novo em 2004, 32 anos depois.

Como a década de 70 foi cheia de “primeiras vezes”, em 1977 foi o ano da primeira negra ser coroada: Janelle Commissiong representou Trinidad & Tobago, no concurso que teve Dionne Warwick, Oscar de La Renta e Roberto Cavalli no júri (que mais tarde casaria com a Eva During, da Áustria, vice de Janelle). Dionne Warwick, também negra, disse aos prantos numa entrevista que “sentia como se ela mesma tivesse ganho”.

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Janelle engajou-se na defesa internacional dos direitos raciais, além de apelos pela paz mundial e foi recebida por chefes de estado do mundo todo.

O trabalho de divulgação do seu país rendeu-lhe a Cruz da Trindade, mais alta honraria civil e militar concedida pelo governo de Trinidad e Tobago. Somaram-se a tal condecoração os selos dos correios, hoje, itens de colecionador.

Em contraponto a sua vitória, no ano seguinte coroou a Miss África do sul, uma branca, quando o país africano ainda estava sob o regime do apartheid (que será assunto da coluna quando falarmos do papel de Nelson Mandela nos concursos).

Ao fim do reinado, Janelle recusou um contrato com a Paramount Pictures e tornou empresária de sucesso em sua terra natal.

E foi em 1981 que um fator mudou a história do concurso — e tem nome e sobrenome: República Bolivariana da Venezuela. Foi o início da decadência do Brasil, principal potência latina, que deu lugar a ascensão da Venezuela, faixa que até hoje faz todas as concorrentes estremecerem de medo só em ouvir falar. E com motivos.

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Com a vitória de Irene Saéz, a Venezuela viu sua segunda Miss Universo ser coroada em 3 anos, e de quebra ainda venceu o Miss Mundo, com Pilín Leon. Ganhar as duas principais coroas dos concursos de beleza não é fácil.

Tudo graças ao mago Osmel Sousa, que prepara as candidatas do país todos os anos (até hoje) para que cheguem com um único objetivo: vencerem. Os concursos de miss estão para Venezuela como o futebol está para o Brasil. Haja pressão!

Irene Saéz foi eleita no concurso que teve Julio Iglesias e Pelé no júri. Após o reinado, trabalhou na ONU e foi proclamada Rainha dos Jogos Pan-Americanos de 1983, acontecidos em Caracas. Depois foi eleita prefeita de Chacao, tornou-se governadora de Nueva Esparta, com votação recorde na democracia venezuelana: mais 70% dos votos.

Chegou a concorrer a presidência do país em 1998, mais foi derrotada por Hugo Chavez. É uma das vozes mais estridentes do anti-chavismo no país. E o papel que as misses cumprem na oposição ao governo por lá não para por aí… Mas isso fica para o nosso próximo encontro.

Amanhã, o Box de Séries traz ainda mais momentos especiais do Miss Universo nas décadas de 80 e 90. Tem Guerra Fria, Nelson Mandela e muita política internacional. Só lembrando que o concurso acontece dia 25, no domingo, com coberta completa aqui. Vejo você amanhã!

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