Moonlighting e a maldição dos casais felizes

Por Erika Ribeiro

O mundo das séries sempre foi repleto de regrinhas bizarras que todos os seriados tentam seguir a fim de encontrar uma fórmula para o sucesso garantido. Entre elas não está a de que todo o protagonista deve ser chato, isso fica a cargo do gosto bizarro que os produtores e escritores tem de escolher sempre os piores personagens para serem os líderes da trama. Desde Carrie (Sex In the City), passando por Jack (LOST), Meredith (Grey’s Anatomy) e indo até Leonard (The Big Bang Theory), vira a mexe temos um protagonista que nos irrita, mas que talvez tenha sido escolhido para ser chato mesmo, assim o ator não tem a cara-de-pau de pedir aumentos exorbitantes, justificando com uma suposta oportunidade de sair para algo melhor, já que seu papel nunca ajuda muito no quesito interpretação.

Mas o assunto aqui é o dogma básico de todas as séries, seja ela de comédia ou drama, indo até o sci-fi. Aquele mandamento que nunca é quebrado haja o que houver, esta que denomino como a Regra de Moonlighting. Como assim, vocês não sabem o que é? E A Gata e o Rato? Também não! Shame on You! Ok, vamos então esclarecer isso.

A Gata e O Rato (1985/89) era da ABC e foi o maior sucesso de seu tempo nos EUA e no mundo, não tão globalizado. Aqui no Brasil foi exibida pela TV Globo e tinha em seu elenco os até então desconhecidos Bruce Willis (David Addison) e Cybill Shepard (Maddie Hayes), que continuou desconhecida, convenhamos. A série contava a história de uma modelo que após levar um golpe fica ‘falida’ e acaba por força do destino se unindo a um detetve mutreteiro tentando ambos sobreviverem de uma agência de detetives de fachada (Lua Azul) e no caminho ajudar algumas pessoas.

Os dois eram opostos e viviam entre tapas e beijos, mas todos nós que víamos a série, torcíamos para que eles ficassem juntos. Todos os recursos para que isso fosse evitado foram utilizados na época, mas não adiantou. Mesmo depois de usarem sonhos como recurso para que os personagens se beijassem, mas não tivessem um relacionamento no mundo real, a ansiedade era tanta, até dos críticos da época, que a emissora cedeu e deu a todos o que eles queriam, em parte.

No final da 2ª temporada o casal finalmente ‘ficou’ junto, mas não tão junto e continuava a brigar tanto quanto antes, pois essa era a história de A Gata e O Rato vê-los brigar. Entretanto, a falta de um ‘final’ feliz mais consistente acabou por deixar a todos mais irritados do que com a história deles em separado. Isso, foi mais ou menos o que houve em FRIENDS com Ross e Rachel, só que nesta havia 6 personagens e 1 casal feliz, que era Mônica e Chandler. Já em Moonlighting não existia essa fuga e a série acabou vendo sua audiência começar a desmoronar. E foi cancelada na sua 5ª Temporada

Por isso, A Gata e o Rato é o exemplo máximo dessa lei do mundo das séries. Quando o casal principal ficou junto, o público percebeu que já tinha tido os seus anseios respondidos e que a apreensão da primeira vez nunca mais se repetiria, não importava quantas vezes eles fossem separados e unidos novamente. Agora, a única coisa que saciaria o público seria o final feliz definitivo e isso seria o fim da série. Em resumo: A série acabou no momento em que eles se beijaram, qualquer decisão, qualquer caminho levaria para o fim, que poderia ser tranqüilo ou não. Os produtores escolheram o ‘não’ e em vez de fazê-la por mais uma temporada somente e dar um fim satisfatório a todos, escolheram forçar mais três temporadas até o cancelamento e o final melancólico com o casal separado depois de 300 idas e vindas. A série de milhões agora acabava com uma audiência bem aquém e com vários problemas de produção (carreira de Bruce Willis decolara no cinema e Cybill sempre foi chata) que não deixaram nem a possibilidade de um final decente.

E porque resolvi falar disso? Por causa das séries que até hoje adotam essa postura bizarra de casais que vivem anos a fio claramente apaixonados que não tocam no assunto ou tentam ignorar os sentimentos e todos achamos que é por causa do medo do fim. Quando, na verdade, é porque um dia em 1987, 44% (quarenta e quatro) da audiência americana esperava ansiosa pelo finalmente beijo de David e Maddie. E então os executivos descobriram que a expectativa é o que traz retorno,e séries que dão retorno têm de ser eternas, pelo menos até o cancelamento.

Então por que arriscar dando um final feliz de meia tigela que não agrada a ninguém ou dando um final feliz permanente que pode encerrar uma história mais rapidamente? O risco menor é o de maior retorno, então deixemos como está.

Espero que vocês agora saibam por que Bones e Booth são tão burros, Sawyer, Kate e Jack nunca se entendem e porque Scully e Mulder eram tão sem noção e talvez também explique porque Meredith Grey e Derek são o casal mais chato do momento.

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