Não se fazem mais séries como antigamente (ainda bem!)

Watercooler THUMB

Desde os anos 60 a estrutura da televisão permaneceu quase que intacta, bastava sintonizar no canal e pronto: a caixa preta fazia o resto. Porém, com a chegada da cultura da convergência, e principalmente da Social TV, o espectador saiu do marasmo. Hoje o público não se limita apenas em comentar a programação com quem está ao seu lado, ele precisa postar no Twitter, dar check-in no Get Glue, compartilhar no Facebook, atualizar o TV Show Time, avaliar no Into Now, enfim assistir TV se tornou uma tarefa multitasking.

Toda essa mudança no perfil do espectador acabou refletindo nos canais de TV, que passaram a estimular a second screen e com isso reconquistar os valiosos pontos nos índices de audiência — tão ameaçados pelas plataformas de conteúdo on demand e de compartilhamento de conteúdo. Quem também teve que aprender a lidar com o efeito colateral da Social TV foram os roteiristas das séries. Agora eles podem acompanhar em real time as impressões dos espectadores sobre as suas obras e trocar informações sem intermediários.

A jornalista Lorne Manly do The New York Times entrevistou Shonda Rhimes (Scandal e Grey’s Anatomy), Carlton Cuse (Bates Motel), Terence Winter (Boardwalk Empire), Beau Willimon (House of Cards) e Scott Buck (Dexter) para discutir de que maneira a convergência está mudando as séries de TV.

Com a popularização das novas plataformas e da própria Social TV, os espectadores estão mais envolvidos do que nunca com a televisão. Eles comentam sobre as séries, interagem com os atores através da social media, etc. De que forma essas mudanças no perfil do público e da mídia vêm alterando a forma de se criar uma série?

Carlton Cuse: A mudança na maneira que as pessoas passaram a assistir TV permitiu que as tramas se tornassem mais seriadas, já que antes o público tinha apenas uma chance de assistir o episódio. Por exemplo, se o sinal caísse eles nunca mais poderiam rever aquele episódio. Mas hoje existem várias maneiras do público assistir, então podemos ir além das estruturas clássicas do folhetim, podemos usar ganchos mais complexos.

Terence Winter: Isso nos dá liberdade para explorar mais detalhes da narrativa, o que seria complicado de fazer caso tivéssemos o mesmo sistema de distribuição de conteúdo de antigamente.

Shonda Rhimes: Bom, em Scandal queremos passar para o público que se ele não estiver acompanhado a série ‘ao vivo’ ele estará perdendo parte da ‘história’, da experiência. Por isso que toda a equipe tem Twitter e comenta durante a exibição do episódio, para fazer daquela experiência algo coletivo e único, que só quem está com a TV ligada naquele momento tem a oportunidade de participar. E toda essa mudança nos ajuda muito, já que eles estão voltando a assistir os episódios na hora marcada.

Uma das motivações para os espectadores assistirem um programa de TV é para poder comentar com os amigos e colegas de trabalho no dia seguinte. Apesar das novas plataformas, a TV ainda pauta os assuntos do dia a dia. Mas, no caso de House of Cards, os episódios são liberados de uma vez só e o assinante que decide quando irá assisti-los. De que maneira essa forma de distribuição altera os comentários (watercooler) do público?

Beau Willimon: Existem outras formas de se comentar sobre o que está assistindo, de se reconfigurar a experiência coletiva, como por exemplo, a Social TV. Então ao invés da pessoa dizer “Você viu ontem à noite?”, ela pode incentivar o amigo a assistir a temporada para eles conversarem sobre a série. Assim, em pouco tempo eles poderão comentar de uma maneira mais profunda e interessante, já que os episódios são lançados todos juntos. Acho que o watercooler está se expandindo e permitido novas experiências.

De que forma vocês exploram as redes sociais nas suas séries? Vocês sentem uma pressão por parte da emissora em ter que considerar essas plataformas?

Carlton Cuse: Bates Motel é produzido pela Universal e vai ao ar no A&E, e eles querem que as pessoas assistam a série quando ela vai ao ar. E as redes sociais nos ajudam a engajar o público a participar dessa experiência coletiva, de todo mundo estar acompanhando aquela história juntos. Uma das estratégias que eu uso é tweetar durante a exibição do episódio, respondo perguntas da audiência, comento as cenas.

Shonda Rhimes: Bom, eu já estava no Twitter antes desse boom da Social TV, mas confesso que passei a comentar a série e outras questões há pouco tempo. Mas quando estávamos planejando o lançamento de Scandal, Kerry Washington me disse: “Eu acho que todos nós deveríamos entrar no Twitter”. Hoje quase todo o elenco e equipe tem uma conta da rede social, e eles adoram participar, é algo divertido para eles.

Beau Willimon: Esse backchannel é realmente diferente de um fã que comenta a série com quem está sentado ao seu lado. A Social TV expande essa conversa para milhares de pessoas. Criei uma conta [ no Twitter] e tive um retorno incrível, além de aprender muito com a opinião do público. Porque eles não são tímidos, eles falam e ponto. O anonimato da social media permite uma forma interessante de diálogo e eu acho que podemos tirar coisas boas disso.

De que maneira vocês lidam com as críticas do público que, no ambiente de convergência, ficam mais próximas dos autores?

Carlton Cuse: Você tem que ter uma espécie de proteção e tentar olhar aquilo sob diferentes perspectivas. Essa é uma das grandes lições que aprendi com esse feedback instantâneo do público. Em Bates Motel, tivemos cenas que para nós — roteiristas — tinham uma mensagem muito óbvia e para o público foi diferente. É incrível, porque às vezes fazemos uma coisa que para nós soa de um jeito e para eles soa de outro. Quando você está escrevendo uma história não importa o quão rigoroso você é consigo mesmo e com os seus colaboradores, você ainda está numa bolha. Porém, a partir do momento em que o púbico se envolve, a bolha se dissolve. Portanto a percepção deles é a realidade. Pelo menos para mim, a chave dessa nova forma de participação é se informar, ouvir o público, mas não deixar que ele dite o andamento da trama.

Scott Buck: Muitos fãs realmente tomam posse do personagem, chegam ao ponto de me mandar e-mails dizendo que o Dexter nunca teria agido daquela forma. Mas, a partir do momento em que você recebe várias mensagens questionando uma cena, você tem que parar e pensar.

Shonda Rhimes: Acho que você tem que mediar esses comentários. O público não compreender uma cena é uma coisa, agora não gostar é outra. Eu escuto muito “Eu odeio você porque você matou aqueles dois personagens”, “Você estragou a série”. Eu não posso mudar o curso da história porque alguém não gosta. Se eu fizesse isso eu nunca iria conseguir escrever nada.

Sobre o Autor

Avatar

BOXPOP

Site especializado em cultura pop, fundado em agosto de 2007. Confira nossos podcasts, vídeos no youtube e posts em redes sociais. Interessados em contribuir como autor no site podem entrar em contato: contato@boxpop.com.br

Deixe um comentário

clique para comentar

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

OUÇA O BOXCAST

VIDEOCAST

Lidio Mateus, o brazilian singer da internet, comenta todos os bafos e segredos de sua carreira.

Tem série nova na HBO e os bastidores dela foram recheados de TRETAS. A gente conta todas neste vídeo.

Esse é o filme que vai ganhar o Oscar de filme estrangeiro. Neste vídeo comentamos Parasite. Assista!

SEJA UM PADRINHO!

Contribua!

OUÇA ACABEI DE LER