O amor, a fé e a esperança precisam existir atualmente

The Exorcist encerra sua primeira temporada renovando a necessidade de alguns valores.

2016 foi realmente o ano das produções de terror, horror e suspense. Ao longo desse ano, muitas séries aportaram na telinha provocando muito susto, tensão e gritos nos espectadores. Aliás, geralmente são esses os motivos que levam o público a acompanhar essas produções. No entanto, uma narrativa de terror é muito mais que sustos e tensões. Boas histórias de horror costumam ser polissêmicas, carregadas de metáforas. E é isso que as tornam tão interessantes.

The Exorcist, da Fox, conteve todos esses elementos. Teve susto, tensão, gritos. Mas o mais interessante foi justamente as metáforas levantadas e a maneira como foi contada a história. Inspirada no livro homônimo de William Peter Blatty, a série poderia ser uma mera refilmagem do clássico filme de 1973. Contudo, foi além.

A grande sacada dos criadores da série não foi produzir um reboot. The Exorcist se apropria da história e do universo clássicos e propõe uma continuação daquela trama, expandindo de maneira criativa as consequências daqueles fatos. Naturalmente, temos uma possessão demoníaca em uma frágil jovem, temos sessões de exorcismos angustiantes, temos padres questionando sua fé. Mas não se limita a isso.

Não temos unicamente uma trama de uma garota possuída pelo demônio. The Exorcist propõe algo infinitamente maior, que questiona os valores morais e religiosos da sociedade moderna. Em seus dez episódios, investiga as origens do mal e como qualquer um pode tê-lo dentro de si. No fim das contas, os demônios internos acabam sendo muito mais poderosos que qualquer entidade maligna que ronda por aí.

Quem se afasta da série pensando apenas na possessão, é importante compreender que o demônio é a metáfora perfeita para o pensamento podre que nos ronda. De certa forma, cada um de nós é um receptáculo perfeito para o mal fazer morada. Ainda que ele não se evidencie na possessão demoníaca, acaba se manifestando nos pequenos gestos mesquinhos, nas atitudes hipócritas, no egoísmo, na inveja.

The Exorcist é uma bela história sobre a necessidade de acreditar no amor, na esperança e na fé. E esses três valores precisam habitar em nós independente de religião, especialmente a fé. Acreditar é o que nos move. Quando a gente deixa de crer, acabamos sendo uma moradia vazia, cenário ideal para o nascimento de sensações ruins.

Há algo de estranho no Vaticano

Além de renovar a esperança no poder do amor, The Exorcist toca em questões mais profundas. Avança no terreno das instituições religiosas e como elas são esquemas poderosos que nada tem a ver com fé.

A religião é o ópio do povo. E isso é muito bem usado pelos líderes para traçar estratégias de dominação. Um povo crente é, geralmente, domesticado e fácil de manipular. Basta olhar para o interior de algumas instituições e notar como os membros são ovelhas obedientes e leais. Fazem tudo o que lhes for ordenado, incluindo decepar órgãos (como na série), eleger um representante religioso para cargos públicos ou vender bens e entregá-los à igreja (como na vida real).

Como é sabido, a Igreja Católica é firmada em rituais e liturgias. Boa parte dos fieis seguem essa rotina sem ao menos questionar a razão delas. Apenas continuam fazendo. É uma devoção pro forma, sem profundidade. Em contrapartida, outros creem piamente nos dogmas religiosos, devotando suas vidas a uma causa maior.

Quando se pensa friamente na fé, todos são motivados por motivos egoístas. Pessoas vão à igreja com a promessa de salvação, de uma vida celestial ou na bem-aventurança de um paraíso terrestre. The Exorcist mostra que devoção e interesse andam de mãos dadas. Percebam como o demônio no corpo de Casey e depois no de Angela questiona as motivações dos padres e das mulheres que possui. Por que eles vão à igreja? Por que acreditam em Deus? Na verdade, quantas vezes nós mesmos paramos para fazer essa pergunta? A resposta a essa pergunta pode ser a chave para deixarmos o mal crescer ou não dentro de nós.

Crer para ver

Alfonso Herrera interpreta o Padre Tomas Ortega. Não é a toa que ele se chama Tomas. Assim como o apóstolo, o padre duvida da existência do mal e só acredita quando o vê. E, neste momento, a série é muito feliz em resgatar o tema original do filme criado por Mike Oldfield. Mais que acreditar no mal, depende de Tomas derrotá-lo. A jornada até compreender isso moverá a série.

Padre Marcus, vivido por Ben Daniels, será o contraponto ao afetuoso Tomas. Marcus é um exorcista veterano e se vale da força física para praticar os exorcismos. Sua trajetória mostra que a força precisa do amor para ser plena. Do contrário, acaba sendo nula.

Geena Davis corrobora o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante ganho nos anos 80. Se alguém ainda tinha dúvidas de que ela pudesse sustentar uma interpretação vigorosa, The Exorcist acaba com qualquer suspeita sobre as qualidades interpretativas da atriz. Revivendo Regan McNeil, uma das personagens mais icônicas da cultura pop, Geena consegue dosar com precisão a mãe de família amorosa e a mulher fria dominada pelas trevas.

Algumas cenas são incrivelmente bem feitas e perturbadoras. O terror não vem fácil e não é aquele de sustos que tanto conquista adolescentes. Há os sustos, porém eles são construídos em cima de um horror psicológico que não acaba quando a série termina. Ele te acompanha, te faz ter medo de apagar a luz ou de olhar para aquele canto nas sombras do quarto.

Amor e fé

De acordo com a Bíblia, livro sagrado para os cristãos, fé é ter a certeza de que algo, ainda inédito, irá acontecer. Ela costuma estar atrelada ao amor. Como se fossem dependentes.

Quando se olha ao redor, não é fácil manter a fé nos dias atuais. A cada conferida no noticiário, parece haver o consenso que a raça humana é um erro. No entanto, The Exorcist vai nessa contramão e evidencia, através do terror, que é preciso amor e fé, mesmo que estes ainda não imperem.

Pode parecer piegas, mas não é. The Exorcist foge dos clichês e entrega uma mensagem poderosa de esperança, amor e fé. E isso é mais poderoso que qualquer demônio obsessor que exista.

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